Quantas ideias você consegue ter em um dia?

Por Janice Mansur (@janice_mansur)*

Se você fosse perguntado sobre isso, o que diria? Você também é uma pessoa que correlaciona informações, que cria tempestades cerebrais com facilidade? Não pretendendo me  gabar, mas “não tenho ideia” de quanta informação consigo juntar no mesmo dia para ter ideias. Sou uma pessoa multitarefas. E você? Se você não é, e pensa que ser é muito bacaninha, está bem equivocado. E se você é assim, já sabe que isso é bem extenuante, porque muitas vezes você tem ideias, mas não consegue executá-las todas ou desenvolvê-las, nem em um texto, não é verdade?

Pensando bem, uma dona de casa que ao faltar determinado produto para cozinhar ou limpar uma superfície consegue se virar com outro, não está tendo novas ideias? Um operário a quem falte um martelo ou um prego não se resolve de outras formas? Quantas vezes você criou algo “do nada”, teve uma ideia que alguém achou absurda, mas que funcionou para ultrapassar um desafio no momento? O tempo todo estamos tendo novas ideias, criando soluções para problemas antigos, e isso é uma forma de ser criativo.

Alguns estudos dizem que pessoas mais criativas conseguem acessar redes neurais distintas simultaneamente. E não necessariamente isso quer dizer que você seja um gênio, nem eu. Nem vamos falar aqui de genialidade. Quer dizer simplesmente que as pessoas que têm ideias “originais” em sua vida cotidiana podem possuir um cérebro que funcione diferente das demais, segundo uma pesquisa liderada por Roger Beaty, especialista em neurociência cognitiva pela Universidade Harvard.

Entretanto, você sabe de onde surgiu o conceito de originalidade?

Para quem não sabe, esse conceito é um mito nascido na escola do Romantismo − que nos deixou uma grande herança −, como se a originalidade (ter ideias originais ou parecer que você foi a origem de uma criação) fosse o maior critério definidor do valor ou da qualidade de algo. Como sou muito brincalhona, costumo dizer parodiando um famoso cientista que “na natureza nada se cria…”, eu acrescento, tudo se copia, porque, na verdade, as ideias vêm do contato com muitas informações diferentes que você tem acesso, muita leitura variada, conhecimentos de línguas, de outras culturas, diferentes formas de arte e tudo o mais que seja diferente do que você esteja acostumado. É necessário, por exemplo, para escrever, muito input para que algo interessante venha à tona, ou seja, para que seja processado um output. Se é assim, onde fica a tal da “originalidade”?

O que torna algumas pessoas mais criativas do que outras?

Na pesquisa de Beaty e sua equipe, a qual estamos tratando, foram investigados o comportamento das distintas redes neurais em 163 pessoas, por meio da técnica de ressonância magnética funcional (RMF) que permite obter imagens das atividades em múltiplas áreas do cérebro pelo fluxo sanguíneo. Assim, a equipe pode detectar áreas que haviam sido afetadas depois dos testes clássicos realizados para ver como as pessoas trabalhavam em tarefas que exigissem o uso de “pensamento divergente” (quando se pensa em usos diferentes para objetos cotidianos), uma das formas de se detectar a criatividade. Beaty chamou de rede “altamente criativa” à reunião de três sistemas que funcionam distintamente, e percebeu que se poderia “estimar o quão criativas as ideias de uma pessoa seriam, baseadas na força de suas conexões nesta rede”. Ele  descobriu que o cérebro criativo fica  conectado de uma maneira diferente, e as pessoas criativas são mais capazes de ativar sistemas cerebrais que tipicamente não funcionam juntos, ou seja, a pessoa criativa poderia acessar os três sistemas ao mesmo tempo. Não é incrível?

Sabendo que uma das características dessas três redes é que elas normalmente não são ativadas ao mesmo tempo, pois quando uma rede é ativada a outra é geralmente desativada, os cientistas se supreenderam ao constatar que pessoas consideradas criativas são mais capazes de coativar redes cerebrais que geralmente funcionam separadamente. Portanto, continuo pensando que correlacionar atividades, conhecimentos, informações, formas de viver, como venho falando aqui para você, é uma boa forma de estimular essas conexões.

Então,  é possível desenvolver a criatividade?

Como sempre digo a meus alunos, todos somos inteligentes, e parodiando outro certo cientista por aí, tudo é uma questão de nádegas: senta o bumbum na cadeira e estuda e você verá se fica inteligente! Ou criativo!  A parte teórica é importante, porém, as experiências vivenciadas também contam, como ingerir alimentos que não comemos com frequência, andar por lugares que não estamos familiarizados, ver filmes exóticos e futuristas (se você só vê os românticos ou de ação), ler livros que tragam outras perspectivas, entre outras coisas. Parece exagero, mas não é. Há estudos sobre plasticidade, bastante interessantes, que indicam que nosso cérebro é extremamente capaz de criar conexões (sinapses) e associações que ampliam cada vez mais nossas “ideias”. Portanto, experimente anotar coisas que você pense durante o dia e terá uma lista considerável ao final do mês de possibilidades para testar.

Ter ideias é bem interessante, mas a obrigatoriedade em tê-las será gratificante?

Como disse no início do texto, ter muitas ideias às vezes não é nada simples. Nem é algo fácil de lidar, por vezes chegando a ser angustiante. Claro, que ser criativo, principalmente no mundo atual e globalizado em que estamos é um fator diferencial na competitividade do mercado de trabalho, mas buscar desesperadamente o novo pode ser fonte de estresse constante.

De certo modo, não poderia me furtar a tecer uma crítica ao sistema de premiações que grassam por aí e privilegiam a “originalidade” para projetos de inovação, reforçadores de um modelo de criatividade e inventividade inviáveis e frustrantes. Essa exigência pelo “novo”, pela novidade, presta um enorme desserviço a algumas situações em que o bom e o velho pijama nos aquecia da mesma maneira que outro a ser inventado hoje: que tocasse música, vibrasse ou tivesse um despertador acoplado.  Perseguir a rara e inédita ideia o tempo todo, é no mínimo gerador de exaustão e de uma ansiedade absurda, características dessa sociedade de consumo em que as coisas já nascem obsoletas para serem descartadas – você conhece a “obsolescência programada”? − e substituídas por outras rapidamente, como nos esclarece muito bem Zygmunt Bauman, na sua conceituação de liquidez.

A necessidade criada do que seja novo, de última geração, faz com que a maioria das pessoas não percebam que o “velho” se repete em fases cíclicas, como, por exemplo, as cores modernas de pinturas para cabelo (rosa, verde, azul), usadas hoje, mas inventadas desde a Grécia com procedimentos diferentes, utilizadas na era vitoriana e outras.

Até o que escrevemos ou falamos passa por este processo. Utilizamo-nos de discursos alheios que incorporamos sem nem perceber e os reproduzimos, digeridos e mesclados aos nossos, e a todas as leituras com as quais tivemos contato, discursos emergentes da cultura, do contexto socioeconômico e história em que vivemos, conforme Mikhail Bakhtin e outros filósofos e pensadores. No mundo acadêmico temos os maiores exemplos disso, pois as referências e fontes bibliográficas que são usadas em um artigo, são exploradas em outros, de forma idêntica ou não.

Enfim, podemos pensar que são as ideias que constroem o mundo, sim, mas quando algo é criado como novo em algum ponto do planeta, é importante lembrar que alguém já dever ter pensado nisso antes ou escrito isso, talvez de outra forma que agora nos pareça original. Concorda?

* Janice Mansur autora é poeta, professora, revisora de tradução e produtora de conteúdo para o Instagram e o canal do Youtube: BETTER & Happier. Visite a autora também na Academia Niteroiense de Letras. (Digite no google ANL+ Janice Mansur).

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