Você está feliz com seu corpo?

Por Janice Mansur (@janice_mansur)*

Essa pergunta mexeu com você? Você pode estar se perguntando: “nossa, o que tem a ver as férias com o meu corpo?”. Tudo!

Estamos chegando ao verão na Inglaterra! Os parques estão à nossa disposição com sua beleza esplendorosa. O lockdown está cedendo lugar aos passeios ao ar livre e poderemos usar shortinhos, biquínis e expor nossos corpos ao sol. O que é ótimo, não é mesmo? − embora isso não queira dizer que, mesmo vacinados, possamos afrouxar os cuidados recomendados pelo governo e o NHS: distanciamento social, máscara e mão higienizadas, certo?

Portanto, férias com sol e corpos à mostra tem tudo a ver com seu corpo, e você estar contente com ele ou não. Nós, mulheres, − mas alguns homens também − estamos meio preocupadas com nossas barrigas, nossas estrias e tudo o mais. Entretanto, é necessário considerar que é mais importante estar bem de cabeça e se sentindo tranquila do que se preocupar com o aspecto físico e a beleza exterior.

Mas, não se deve separar tanto, mente e corpo como o fez Descartes. Para Donald Woods Winnicott(pediatra e psicanalista inglês – 1896-1971)não há a oposição entre corpo e mente, e sim certa divisão entre soma e psique. Explico. Winnicott parte do princípio de que a existência do ser humano é psicossomática (psique + soma), porque a mente é um aspecto diferenciado do funcionamento da psique. Para ele, a vida somente é possível quando a pessoa humana está firmemente alojada em seu próprio corpo, ela se sente confortável e o tem como morada. Ambas, psique e soma formam uma unidade psicossomática, o que significa que o indivíduo alcançou a integração, isto é, uma personalização satisfatória, base fundamental para o sentimento de viver no próprio corpo.

Portanto, ser feliz com o próprio corpo tem relação direta com o nosso psiquismo, engendrado desde que somos bebês. E se você tem qualquer problema sério com relação a ele (e não esqueçamos de que o rosto também faz parte do corpo) é preciso olhar com carinho para você.

Quando me exponho sinto vergonha?

Mormente relacionada à exposição de nossos corpos com biquínis ou shortinhos mais curtos e bustiês, em virtude do calor do verão, da ida à praia, ao parque, para tomar um sol ou nadar, a vergonha ainda pode trazer certo desconforto e gerar uma verdadeira fobia, dependendo da forma como são encaradas, tanto a vergonha quanto a exposição. E a vergonha seria fruto do quê? Vamos nos observar?

Você se importa muito com os padrões de beleza criados pelo “mundo”?

A mídia atual, com reformulação do marketing tradicional para o digital, criou uma expansão do apelo ao corpo e ao rosto, da beleza indescritível, como se isso fosse o real. Os filtros e aplicativos de correção de “defeitos”, trouxeram uma realidade absurda de desejar o impossível.   E o que é de fato belo? Existe um padrão, um senso comum para a beleza?

Enquanto muitos de nós temos vergonha dessas pequenas “imperferfeições”, algumas pessoas adeptas da tatuagem e do piercing, ou os mais radicalmente “modificados”, como são conhecidos,  participam desse processo de glorificação e exposição dos corpos de outra forma. As marcas tornaram-se mais um objeto de consumo. Muitas vezes trazendo ancorados a elas discursos de coragem e de capacidade de vencer limites, em virtude de ser algo doloroso de se fazer. Numa das vezes, podem significar a necessidade de identidade autêntica (nesse caso Winnicott teria razão), noutras podem indicar uma forma de pertencimento a um grupo.  Escarificações, espaçadores e próteses de silicone foram associados à automutilação, mas podem estar relacionados ao exibicionismo, como uma forma de beleza,  ou à violência contra si ou agressão à sociedade. E o que parece ter sido feito para encantar, pode ser somente indicativo de insatisfação. E podemos seguir na mesma linha de raciocínio com as plásticas extremas para adornar o corpo e o rosto como é o caso do Verdadeiro Ken Humano, você já ouviu falar? Todo exagero pode ser catastrófico.

Mikhail Bakhtin, historiador da literatura e filólogo soviético, argumenta que não há enunciados “neutros”, eles emergiriam em contextos socioculturais, plenos de significados e valores, como atos responsivos. Por esse viés, podemos encarar as marcas corporais como escrituras e enunciados,  que podem designar objetos, mas também traduzir tomadas de posição. Portanto, as marcas corporais podem nos dizer muito a respeito da história de quem as utiliza, pois corpos são textos a serem lidos. Narrativas podem ser contadas a partir das cicatrizes e dos registros corporais de fatos vividos. Portanto, meu corpo pode estar contando alguma história ao mundo ou a mi mesmo.

Então, percebe como os corpos e as férias, e a vida, e a saúde, podem ter tudo a ver?

E a não aceitação de nossos corpos (sem esquecer de que ele está ligado ao psiquismo) pode gerar doenças?

O que é de fato estar ou ser doente? O que é normal? Boa parte das doenças mentais, geradas pela não aceitação de quem se é, passa pelo corpo, e são chamadas de transtorno somatoforme, mais conhecido como somatização.  Essas doenças são geradas não somente pela não aceitação, mas têm uma origem mais profunda, muitas vezes na formação do psiquismo primitivo, quando ainda éramos bebês. Entre elas se encontram a anorexia, a bulimia, mas também alergias, gastrites, várias mialgias (dores) e outras.

Então, gente, bora cuidar mais da nossa cabeça, antes de nos preocuparmos tão somente com o corpo nosso de cada dia, e ser feliz com o que se tem?

* Janice Mansur autora é poeta, professora, revisora de tradução e produtora de conteúdo para o Instagram e o canal do Youtube: BETTER & Happier. Visite a autora também na Academia Niteroiense de Letras. (Digite no google ANL+ Janice Mansur).

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