UDM – uma escola de samba feita por ingleses “para brasileiro ver”

Quem participou da edição de agosto da roda de samba, promovida pela associação Samba de Bamba UK, foi testemunha da excelência da União da Mocidade, mais conhecida como UDM. A bateria, formada e regida por ingleses, fez muito brasileiro se sentir no barracão de uma das tradicionais escolas de samba carioca ou paulista.

Imagens: Luiz Pereira

“Entrei em contato com a UDM pela Gladys Cavalcante, que é porta-bandeira”, conta Odila Giunta, organizadora da roda de samba, que acontece todo mês no Maxilla Social Club, em Londres.

“Falei que o tema da roda seria carnaval, ela sugeriu trazer a bateria e eu fechei sem mesmo conhecê-los, porque sabia que ia ser bom e foi”, diz. “Foi lindo. Eles são excelência dentro do que se propõem a fazer, são ingleses regidos por ingleses que têm paixão pelo samba. O mais bonito deles é essa paixão pelo samba, como eles entregam bem, com sorriso nos lábios, com alegria de tocar.”

Gladys Cavalcante. Imagem: UDM

A UDM nasceu em 2004 como um projeto de dança e música brasileira com foco no samba, idealizado por Tamara Arom-Hobbs, a Tammy, e Iian Pattinson – dois admiradores do ritmo brasileiro. Admiração que os levou ao Brasil sete vezes, ocasiões em que permaneceram por até seis meses em contato com sambistas de São Paulo e Rio de Janeiro.

“Faz tempo que não vou ao Brasil porque ficou muito caro viajar e difícil conciliar com as aulas na Inglaterra”, conta a saudosa Tammy.

Atualmente, a UDM tem atuação em duas escolas londrinas: Pimlico School e Whitmore High School. Nessas instituições, são oferecidos workshops semanais de bateria e encontros mensais reunindo os adolescentes das duas escolas em ensaios conjuntos.

São 40 jovens, de 13 a 21 anos. Alguns permanecem no projeto por muito tempo, como John Campbell, que é diretor de bateria e começou a estudar percussão com Iian com apenas 11 anos, e Ibraheem Toure, também diretor de bateria que faz parte do grupo desde 2013.

Difícil começo

Quando Tammy e Iian começaram a UDM, há 17 anos, eles não tiveram mais do que simbólica doação da Innocent, marca de smoothies. “Não tivemos fundos até 2010, fazíamos por paixão mesmo.”

Então, a UDM conseguiu captar recursos da Arts Council of England. “Isso nos levou a outro nível”, diz Tammy. “Foi aí que começamos a confeccionar as fantasias.”

“O grande desafio agora é espaço. Espaço para armazenagem e para produzir as fantasias. Nós fazemos as fantasias na sala de estar do nosso apartamento de dois quartos no norte de Londres”, diz Tammy.

No momento, não há workshops de percussão fora das escolas Pimlico School e Whitmore High School, mas Tammy conta que tem interesse em criar novas turmas, abertas ao público geral.

Uma forma mais fácil de participar da UDM é pelas oficinas de dança, que acontecem regularmente.

“As aulas de dança serão reiniciadas em outubro / novembro no Oti Mabuse Dance Studio, no Park Royal, nas noites de domingo, com Michela di Felice”, explica Tammy. “Oti Mabuse é uma das profissionais do Strictly Come Dancing e ela e o marido abriram o estúdio no ano passado e são muito favoráveis ​​à dança comunitária. Nosso projeto de 2021 para fazer uma Comissão de Frente foi realizado lá e financiado pela OPDC (Old Oak e Park Royal Development Corporation).”

Para participar das aulas de dança, basta acompanhar as contas de Instagram e Facebook da UDM para atualizações ou enviar um e-mail para info@udmsamba.com. O mesmo e-mail serve para quem tiver interesse em fazer aula de percussão.

Forma de conexão

Se assistir a uma apresentação de escola de samba em Londres já é capaz de causar uma reconexão com as raízes, imagine então estar no meio dos músicos e dançarinos. Yasmin Muller, 17 anos, conseguiu essa religação com o workshop de dez semanas de aula que fez com a UDM neste verão, que culminou com uma apresentação no centro de Londres.

Yasmin Muller, 17 anos, fez o workshop de dança neste verão, que culminou com uma apresentação no centro de Londres

“Eu queria ficar mais próxima da minha cultura e consegui. Os professores não são brasileiros, mas estão muito conectados com o que acontece no Brasil”, conta Yasmin, que pretende continuar as lições de samba. “Estudo teatro musical e penso que saber sambar pode ser um diferencial.”

Os pais de Yasmin são brasileiros, mas ela nasceu em Londres. Tinha oito meses de vida quando foi pela primeira vez ao Brasil, país do qual nunca perdeu o elo. Entre 10 e 14  anos, ela foi morar em Itapetininga, no interior de São Paulo. “Eu gostei de morar lá, mas era uma cidade pequena com muita influência americana. Eu sabia que não era um bom lugar para desenvolver uma carreira em artes cênicas”, conta Yasmin.

Voltou então para Londres com os pais. E daqui mantém viva as lembranças de um Brasil de carnaval e samba.

Também pode interessar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *