A evolução dos vinhos brasileiros

Por Mikaela Paim*
Na última coluna, contei sobre a evolução do espumante inglês que, assim como a produção brasileira, tem surpreendido positivamente por sua qualidade e produção.
Hoje continuamos nesse assunto borbulhante para contar um pouco mais sobre a evolução do vinho brasileiro, que vem se destacando internacionalmente, hoje com mais de 3.000 prêmios mundo afora e que não para de crescer e receber reconhecimentos.
Uma curiosidade sobre o início dessa história é sobre a primeira tentativa fracassada de plantio de uma videira no Brasil, pós colonização, em 1532, pelo português Braz Cubas na primeira vila fundada na, Região Sudeste, que é a cidade de São Vicente, no estado de São Paulo. E, sendo uma região praiana, não obteve sucesso, devido às condições climáticas e de solo, o famoso terroir, tão comentado quando o assunto é produção de vinhos com qualidade.
Outro fator interessante é que, durante o processo de colonização portuguesa, no século XVI, os padres jesuítas necessitavam de vinho tinto para realizarem os rituais da missa, assim incentivando o plantio de videiras. Mas foi apenas no século XIV, com a chegada da imigração italiana no sul do Brasil, que a produção de vinhos se tornou mais evidente, como forma de relembrar as origens.


Ao longo dos anos muitas famílias descendentes trabalharam arduamente para manter suas produção de vinhos, que eram simples e coloniais.

]Mas com o evolução do paladar e consumo do país, nas últimas décadas, as empresas realizaram grandes investimentos tecnológicos e de conhecimento técnico para ampliar e aprimorar a produção de vinhos de qualidade.
Hoje, o cenário viticultor no Brasil é extraordinário, possuindo mais de 1000 vinícolas, sendo a região sul o maior polo viticultor do país, com mais de 500 vinícolas. Outras regiões produtoras também surpreendem os mais críticos de vinho do planeta, como é o caso dos vinhos na região sudeste, centro-oeste e nordeste.
A determinação do brasileiro foi além e mostrou que todo potencial do terroir brasileiro, já reconhecido mundialmente pelo café, cacau, cachaça, erva-mate e outros produtos, também provou sua potência na produção de vinhos e espumantes premium.

Atuando como sommelière há 15 anos, me recordo de ter estudado em livros e em cursos profissionalizantes que vinhos de qualidade só poderiam ser produzidos entre as latitudes 30 e 50 do mundo. Hoje, por exemplo, temos uma linha de vinhos nordestinos, da vinícola Rio Sol, que se chama Latitude 8. Atuando em condições naturais inimagináveis para o mundo do vinho, como no cerrado de Goiânia, no clima semiárido de caatinga no Nordeste, no microclima da Chapada Diamantina na Bahia e até em Mato Grosso, mostrando que o trabalho humano alinhado à mais recente tecnologia, podem ampliar os limites da produção e a videira resistente e milenar, pode florir até onde não se previa. E eu tive a oportunidade de visitar mais de 100 vinícolas no Brasil e ver de perto essa disrupção.
A exportação também ganhou espaço e entre 2015 e 2018 cresceu 177%, sendo as borbulhas brasileiras, o produto mais pedido, segundo dados do IBRAVIN – Instituto Brasileiro do Vinho. O crescimento dos espumantes foi de 55% em 2017 e chegou a 44,7% no ano passado. E em 2018, os principais destinos dos vinhos brasileiros foram: Reino Unido, Estados Unidos, Japão, China e Bolívia. Já os espumantes brasileiros vão principalmente para Inglaterra, Polônia, Singapura, China, Chile e Estados Unidos.
No Brasil, há vinícolas premiadíssimas e super reconhecidas, com é o caso da Vinícola Aurora, a maior produtora da bebida no Brasil, com cerca de 1.100 vitivinicultores do Rio Grande do Sul e responsável por quase 40% no ano passado. Também temos a Vinícola Salton, que é a mais antiga vinícola em atividade no Brasil, com 110 anos e, hoje, comandada pelas mulheres da família Salton, que anualmente aumenta seu quadro de medalhas internacionais.

Temos vinícolas boutiques que atendem grandes restaurantes estrelados, premiações e personalidades, assim como pequenas produções orgânicas e biodinâmicas. São tantos projetos e profissionais incríveis atuando e fazendo história no Brasil para o mundo, que vale uma nova coluna.

Convido a todos a conhecerem os vinhos e espumantes do Brasil e sentirem os aromas e sabores da nossa terra. Até nosso próximo encontro!

* Mikaela Paim é brasileira, sommèliere de vinhos e única empresária brasileira especialista em todos os tipos de bebidas, azeites e charutos. Com mais de 15 anos de carreira na área gastronômica, é reconhecida em todas as áreas que atua, além de ser jurada, avaliadora dos principais campeonatos e especialista em técnicas multissensoriais. mikaelapaim@gmail.com

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