A pobreza em Londres vem vestida de sobretudo

Por Janice Mansur (@janice_mansur)*

Ontem fui ao College onde estudo inglês para refazer minha matrícula. E como já havia ficado boa parte do dia por lá, decidi que seria melhor resolver outros assuntos que estavam pendentes e fiquei pela rua até recomeçar a aula que teríamos às seis. Então, depois de finalizadas as atividades às quais havia me proposto, passei por um restaurante famoso por aqui, comprei a comida e me sentei no único lugar que havia, pois com a pandemia temos de manter o distanciamento social (e, que bom que alguns lugares, em Londres, estão de fato cumprindo à risca essas regras).

Enquanto estava sentada de costas para o interior da loja e de frente para um enorme vidro exposto para a rua − vitrine em que nós somos o produto quando estamos ali −, fiquei pensando em como a probreza está instalada na cidade de modo imperceptível e peculiar.

Vieram-me algumas palavras para uma poesia que rabisquei no guardanapo: “A pobreza em Londres vem vestida de sobretudo”. Estive parada ali por mais ou menos 20 minutos, sorvendo mais os transeuntes do que a própria comida.

O fator humano é algo que me comove, me pesa, me desintegra e me aguça os sentidos. Tantas pessoas passavam para lá e para cá. Algumas naturalmente bem-vestidas, mas outras com seus sapatos furados sobre os dedos, roupas ligeiramente puídas onde você via disfarçadamente a contagem dos anos.

Alguns mendigos até circulavam com uma grande quantidade de vestes, porque se não for assim você não suporta o frio − neste dia de verão marcando 13 graus −, mas via-se o desajeitado e esculhambado dos trajes, velhos e sujos. Aqui eles têm um nome bem bonito para os que ficam pelas ruas, pessoas sem casa – homeless −, pois mais do que ser um pedinte, as pessoas que mendigam pelas ruas não têm qualquer lugar fixo para ficar. Exceto, claro, por haver aproximadamente 18 abrigos aqui, como muitos já sabem.

Você já encontrou alguém compartilhando seu pão?

As pessoas se esquecem de que há outro lado nessa história e não vêm o que está por trás dessa imensa estrutura. Sim, porque Londres tem um brilho, certo glamour, parece que tudo é maravilhoso e perfeito. Mulheres que já acordam maquiadas, homens impecáveis em seus ternos da moda, perfumes pelo ar, muitos carros de luxo. A natureza impressionante com parques e muitas áreas verdes e bem cuidadas, com muito animais, nos leva a crer até mesmo que estamos fora de uma metrópole. É deslumbrante! Tudo isso de maravilhoso, entretanto, choca com a visão de todas essas pessoas embrulhadas em seus cobertores sobre esteiras de papelão dobrado e jornais. Vez ou outra ainda com um animalzinho de estimação.

Não neste dia, mas certa vez, vi uma cena realmente comovedora: um rapaz tinha recebido uma refeição completa com sanduíche, refrigerante ou suco e batata-frita, e a primeira coisa que fez ao receber o lanche foi partir seu pão ao meio e entregar ao franzino rottweiler preto ao seu lado. O ser humano é bonito, às vezes.

Você é daquelas pessoas que acham que na rua só está quem quer?

Então, movida como sempre pela curiosidade, descobri que “pelo menos 320.000 pessoas estão desabrigadas na Grã-Bretanha”, de acordo com uma pesquisa da instituição de caridade habitacional Shelter, que cobre a área da Inglaterra, País de Gales e Escócia. Esta instituição acredita que o lar é um direito humano, é nossa base e é onde prosperamos, e também acredito nisso.  Aqui há essa pequena diferença no que diz respeito ao Brasil, por exemplo, pois o governo ajuda os necessitados e há muitas ONGs trabalhando juntas para minorizar o sofrimento alheio.  

Quando meu marido mudou-se para cá, há cerca de seis anos, Londres particularmente, não estava este caos que está hoje, não só porque essa crise em que nos encontramos, de proporção mundial, afetou a sáude e a economia até de quem achava que não seria afetado, como também a pandemia está gerando problemas de ordem mental diversa e muitas pessoas estão trazendo à tona doenças mentais antigas ou novas, o que só agrava o desafio de familiares depreparados para enfrentar essa situação.

Mormente pessoas que estão nas ruas em várias partes do mundo sofrem com problemas mentais: ou os problemas as fazem ir para as ruas – às vezes por conta própria – ou por já estarem nas ruas é que desenvolvem os problemas mentais. Ninguém em sã consciência pode gostar de estar na rua à toa, ainda mais num frio desses.

“Entre 30 e 35% das pessoas em situação de rua apresentam também transtornos depressivos recorrentes, com casos de distimias, transtornos de bipolaridade de humor e comorbidades, que são transtornos de personalidade e de conduta atrelados”, conforme dados da pesquisa feita pelo médico psiquiatra dr. Uriel Heckert, em palestra na Universidade Federal de Juiz de Fora. Nesse caso, Londres, como toda cidade grande peca pelo contingente de pessoas, pouco acesso a trabalho bem remunerado e absurdos valores cobrados em alugueres para morar, embora em casas até compartilhadas.

Realmente, só me vem um pensamento, hoje: a pobreza, gerada ou não, e a falta de educação, que poderia preparar pessoas para se conscientizar da existência do outro, são o máximo da exclusão. Então, se você não tem onde dormir ou pode ficar sem casa em breve. Tem um lugar para estar, mas não pode chamar de casa, ou está em risco. Ou tem qualquer dúvida sobre habitação.  Ou, ainda, conhece alguém que está numa dessas situações e precisa de ajuda, entre em contato ou ligue: Helpline 0808 800 4444. (https://england.shelter.org.uk).

Espero ter ajudado de alguma forma.

Referência: HECKERT, Uriel. Disponível em: https://cppc.org.br/noticias/no-extremo-da-exclusao-social-por-uriel-heckert.html.  Acesso em: 10 jun. 2021.

*A autora é poeta, professora, revisora de texto e produtora de conteúdo para o YouTube e

Instagram @professorajanicemansur. 

Imagem: Unsplash

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