Por que preciso correr atrás da felicidade?

Por Janice Mansur (@janice_mansur)*

Algumas pessoas estão como loucas atrás da felicidade. Acham mesmo que podem alcançá-la e que ela está em algum lugar longe daqui. Está ali no vestido mais caro da marca x, na festa invocada que vai rolar na cobertura do prédio tal, no carro mais novo ou do ano, no relacionamento espetacular que vai me tirar da mesmice, no corte de cabelo que renova meu visual, no sapato da moda, no dia inteiro gasto vendo séries ou filmes, em vários e vários copos de drink pela noite, na casa de “zilhões” de metros quadrados que preciso comprar.

Pode até ser que ela esteja ali também. No outro, na esquina, na vontade de se enquadrar no que a sociedade estipula. E tá tudo bem! Acho ainda que pode estar no voo do pássaro, na sensação de espaço, de liberdade, de ser leve e ir sendo. Mas creio mesmo que a felicidade está no agora. Na busca das palavras que me escapam para escrever este texto, por exemplo. Também, pode estar no carro antigo que está na garagem e tenho de lavar para ficar apresentável e estar conservado. Pode estar naquela fatia de pão fresquinho com manteiga que divido com um amigo e um gole de café. No banco da praça onde sento, ao caminho do mercado, para apreciar um animalzinho correndo pelo asfalto. No latido do cachorro que mora ao lado. No banho gelado de chuveiro ou balde num dia quente de verão…

Nossa! Tantas coisas podem me trazer felicidade. Não preciso gastar grana nem usar coisas de luxo, não preciso deixar de ser quem sou para fingir estar feliz para alguém. Na verdade, a felicidade está nos intervalos, no que está sendo vivido aqui. Entre uma coisa chata ou triste, ela se encaixa, ela se espreme para caber ali.

Felicidade é o processo, então?

Se eu parar para pensar, verei que no caminho é onde encontro a felicidade. Vejo-a na respiração daquele que volta de uma doença,  vejo-a no nascimento de um bebê prematuro, vejo-a em olhar uma senhorinha atravessando a rua com dificuldade, vejo-a na recuperação das forças de alguém que ultrapassou limites. Vejo-a fora de mim todo o tempo, mas, e em mim, onde está a felicidade?

Em mim a felicidade pode estar naquele cômodo escurinho que tranquei por tanto tempo, cheio de amarguras vividas e desilusões. A felicidade pode estar naquela situação mal resolvida com meu pai, minha mãe, ou minha nora ou sogra. Pode estar perdida nas escadarias de meu coração, feito aquele sapatinho de cristal que precisa encontrar dono ou dona. A felicidade pode estar escondida no pedaço de mim que tem medo de enxergar o pior e reconhecer a dor. Pode até mesmo estar escondida de mim no arcabouço de meu sentir inconsciente. A felicidade pode estar caída e encolhida no canto do desespero de onde só vê o desamor. Às vezes, a felicidade pode estar trancadinha lá no fundo de mim, esperando uma brecha para sair e ver a luz.

Porém, contudo, entretanto, todavia, eu tenho primeiro que sentir. E para isso a flexibilidade é necessária.

É necessário ser flexível

Preciso sentir para expurgar demônios. Você sabe quais são os seus? Tristezas, frustrações, medos, rejeição, insegurança, culpa e tantos outros que nos entravam, podem ser a causa de muitos  motivos para não ser feliz, porque acreditamos que a felicidade é um estado permanente. E ela é?

Claro que não! Quem você conhece neste mundo que é feliz por 24 horas?

Nossa vida é cheia de desafios − palavra bonita para problemas e dificuldades −, que devemos ultrapassar! Então, vamos nos livrar deles um dia? Não sei! Quem sabe? Mas isso não importa, pois tem algo que podemos fazer por enquanto temos de lidar com tudo o que nos acontece. Podemos ser flexíveis. Como assim?

Flexível pode querer dizer resiliente, adaptável, algo que se curva às intempéries e retorna à mesma posição anterior. Mas é claro que não somente à posição anterior! Você já curvou um cotonete? Ainda que ele seja de plástico, já viu que, dependendo da força que você aplique nele, ele não retorna igualmente ao formato anterior? Assim somos nós. E quanto mais flexíveis nos tornamos (ao sermos dobrados ou curvados ao peso da vida, das vicissitudes que ela nos apresenta), mais retornamos de modo diferente e, assim,  vamos  aprendendo. Aprender é acrescentar algo ao que já existia. E quando acrescentamos algo, é como se fosse um treinamento: de tanto treinar nos tornamos melhor em criar soluções.

Se eu me torno mais flexível, até comigo, consigo enxergar meus erros como falhas que todos cometem, consigo mudar meu modo de olhar, e daí sentir que posso alterar minha rota, meu caminho e minhas formas de pensar, que é o mais necessário. Desse modo, nos tornamos mais flexíveis e, ao mesmo tempo, mais resistentes. Podemos olhar para o outro e sentir que ele também passa por situações parecidas, em virtude de nossa mesma condição humana, e isso me faz perceber que todos queremos, na verdade, compreensão, amor e felicidade. Quem não?

Então, eu retorno para você a pergunta: por que preciso correr atrás da felicidade, se ela está principalmente dentro de mim?

O que talvez eu precise seria exercitar meu olhar, não acha?

* Janice Mansur é poeta, professora, revisora de tradução e produtora de conteúdo para o Instagram e o canal do Youtube: BETTER & Happier. Visite a autora também na Academia Niteroiense de Letras. (Digite no google ANL+ Janice Mansur).

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