Ponto morto

Por Janice Mansur (@janice_mansur)*

Imagem: Pixabay

O ser humano é muito complexo. O pior é saber como e ter de lidar com essas complexidades. Uma delas se manifesta nas relações de poder que ocorrem entre indivíduos. Muito interessante é perceber como nos comportamos, quando se está numa situação que eu chamaria de “ponto morto”.

É do conhecimento de todos que este é o ponto em que a marcha se posiciona no sentido de ficar “neutralizada”, ou seja, quando se coloca em “ponto morto”, o carro não se move pelo esforço do motor, nem para frente nem para trás.

Assim é uma pessoa em ponto morto no que diz respeito a intermediar dois pontos de vista. Para essa pessoa, analisar uma situação, que chegou a um termo de rigidez tão grande na qual não se consegue vislumbrar uma solução ao menos, é muito mais simples. Ela está ali vendo e ouvindo aquilo que o movimento total, para um lado ou para o outro,  não permite que aconteça.

Recentemente, tive a oportunidade de vivenciar uma interessante experiência. Dois conhecidos debatiam a respeito de quem tinha razão sobre determinado assunto. Ambos estavam corretos dentro de seus pontos de vista, porém nenhum deles se rendia à compreensão das ideias do outro. E disseram (somente para mim, claro!), categoricamente, que se aceitassem a opinião do outro, ou fizessem o que o outro queria no momento, estariam acatando a vontade alheia de forma que seu oponente iria se tornar supostamente o “vencedor”.

Essa experiência foi muito enriquecedora para mim. Tornou tudo mais simples, pois me fez ver quantas vezes já não devo ter feito esse tipo de coisa, ter “fincado o pé” só para não “dar o braço a torcer” para o outro. Ou praticar a famosa expressão “puxar a brasa para sua sardinha”, puxar a corda para seu lado, forçar o outro a ver razão somente no seu lado da história, ver por seu ponto de vista.

Não se tratava ali de resolver um impasse que deveria chegar a um acordo e bom termo para ambos, mas sim de saber quem daria a última palavra e venceria, finalmente, a “batalha verbal” em que digladiavam, o que me fez lembrar da teoria de Lakoff e Jonhson sobre a metáfora conceitual: se “viver é guerrear” todos são considerados meus oponentes. Mas isso é outra história, enfim.

Estando eu, como já disse, na posição de ponto morto, tive a “neutralidade” necessária, a pausa, a calma – se é que se pode dizer isso – para ouvir os dois lados, observar no que ambos estavam corretos e/ou errados e, principalmente, perceber o quanto o ser humano é pequeno em suas questões pessoais nas quais habitam o egoísmo, o desprezo pelo próximo e a apatia por nem se tentar compreender mutuamente, passar para o outro lado, sentir na pele do outro. 

As pessoas estão tão emaranhadas, enredadas em suas próprias histórias de vida, tão habituadas a se sentirem vítimas ou a disputarem um espaço que chamem de seu, tão obcecadas pelo poder, que, às vezes, não conseguem vislumbrar que o alheio é o próprio.

Quisera eu poder estar sempre em “ponto morto” para não mais me render a essa doença chamada ego, a personalidade que acredita que seja algo, quando somente nos é dado estar sendo.

E você, já esteve em ponto morto um dia?

* Janice Mansur é poeta, professora, revisora de tradução e criadora de conteúdo para o Instagram e o canal do Youtube: BETTER & Happier. Visite a autora também na Academia Niteroiense de Letras. (Digite no google ANL+ Janice Mansur).

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