Falantes de português no Reino Unido

Manuel Gomes*

A comunidade migrante no Reino Unido divide-se em muitas e diversas facções. Uma delas é a geográfica. Os migrantes reesidentes em Londres têm por tendência transportar essa fronteira para as relações com a administração pública. Claro que é mais caro viver em Londres que noutras regiões de Inglaterra, para não falar do País de Gales ou da Escócia e Irlanda do Norte.

As divisões acontecem também por áres de interesse: desporto, folclore, empresas, ciência e muitas outras actividades ligadas à área do saber ou do desempenho braçal. Pensando bem, somos uma comunidade porque também temos diversas sub-comunidades estabelecidas por parametros socias, culturais, intelectuais e até financeiros. Os doutores não se misturam com a ralé, pese embora os artistas se misturem com toda a gente.

Muitos dos portugueses a residir em Londres são-no desde antes de 1974 e esta mancha constitui também ela uma importante facção (fatia) daquilo que é o conjunto da comunidade no Reino Unido. Se nas questões financeiras podemos separar a comunidade entre fora e dentro de Londres, já nas questões de liderança temos um longo caminho a percorrer.

Ao contrário de outras comunidades, a língua portuguesa não tem membros a participar na Administração Pública Central. Vemos os nomes de vários políticos que os denunciam como não sendo britânicos mas mesmo assim participando nas questões maiores de Inglaterra e até mesmo do Reino Unido.

Os que falam português parecem avessos a fazer parte dessa máquina a que se chama governo e talvez por essa razão se escondem timidamente da aventura de ganharem ou perderem eleições. A verdade é que não vemos muitos portugueses a serem candidatos e aqueles que conseguem ser eleitos passam quase despercebidos da honra e do orgulho do feito conseguido.

É quase uma praga teimarmos em sermos menos do que somos e não sermos iguais a todos os outros. Pensamos sempre que algumas coisas não são para nós quando na verdade se tratam de coisas que estão à nossa espera.

Dos líderes da comunidade espera-se mais atrevimento. Mais ambição. Mais coragem e sobretudo mais honestidade para que o caminho aberto assim se mantenha para quem venha a seguir.

Precisamos ficar prenhes de acreditar, de nos valorizarmos, de crescermos de acordo com as disponibilidades apresentadas e sonhos compatíveis sonhados. Precisamos de mais falantes de português nos cargos políticos, nas repartições, nos pontos de decisão.

As lideranças que a comunidade conhece até hoje têm-se revelado suficientes para a miséria de serem líderes apenas na comunidade, mesmo estando a viver numa cidade onde se falam mais uma centena de línguas.

Os europeus no seu conjunto poderiam competir com comunidades como a Commonwealth mas o facto de se manterem orgulhosamente afastados uns dos outros, abre janelas por onde outras comunidades se espalham ocupando um lugar que definitivamente deveria também representar os votos de quem fala português.

Difícil quando existem os candidatos mas a comunidade se demite de votar.

* Manuel Gomes é jornalista e escritor português a viver em Londres.

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