Contos de identidade

A escritora brasileira Nara Vidal revela detalhes do seu novo livro

Uma das vencedoras do Prêmio Oceanos 2019, com o romance “Sorte”, a brasileira Nara Vidal prepara-se para lançar mais um livro, desta vez de contos. Em “Mapas para desaparecer”, a escritora mineira, fundadora da Capitolina Books e Revista (www.capitolinabooks.com) aborda a identidade como tema central da coleção de histórias curtas. “O desparecer que está no título do meu livro fala da rota que está traçada por padrões sociais desde sempre. Fala sobre a necessidade que o ser humano tem de se esconder para estar na companhia de outros. Fala de hipocrisia, preconceito e medo”, explica a autora, residente na Inglaterra há quase vinte anos. Nesta entrevista, ela conta mais.

Notícias em Português – Como nasceu e se desenvolveu o livro “Mapas para desaparecer”?

Nara Vidal – Há bastante tempo que eu venho pensando em escrever um livro de contos, mas queria uma coleção que tivesse algum tema em comum, algo que os unisse e amarrasse, ainda que de uma forma sutil. O primeiro texto que escrevi é o primeiro que aparece no livro: “O casamento de Daniel”. Quando terminei, percebi que escreveria outros que teriam em comum com o primeiro aspectos muito íntimos e escondidos ou mesmo disfarçados. Quis escrever sobre condições nossas cotidianas de identidade que são incontornáveis, mas que são pesadas demais para se mostrarem dentro de padrões, expectativas e preconceitos sociais. Por exemplo, em um dos textos escrevo sobre uma família tradicional, um casamento onde não há conflito. Um dos filhos é gay, o que é um problema para a família, mas nada é exatamente claro. Quando o pai descobre quem é o filho, ele entende o seu próprio desaparecimento dentro do casamento. Há um texto que fala sobre uma escritora que quer chamar atenção nas redes sociais, mas não consegue atrair o público certo, o do meio literário. Esse conto expõe a mesquinharia e a hipocrisia dessas relações virtuais levadas às últimas consequências. Uma vez escrito o primeiro texto, não parei. Acordei às 4 da manhã por uma período de um mês e meio e escrevi essa coleção.

Sorte, livro de Nara vencedor do Oceanos 2019.

Querer desaparecer é um impulso natural do homem moderno?

Talvez para alguns. Mas o outro lado é o impulso de querer aparecer. Até os que dizem que não querem atenção, se pintam de tímidos, mas lá estão nas redes sociais. Aparecer não precisa ter uma conotação pejorativa. Aparecer pode ser, por exemplo, procurar companhia, expressar opiniões, compartilhar trabalhos. Aparecer não é o mesmo que se exibir. E dito isso, se a pessoa quiser se exibir, a gente não deveria julgar. É tanto julgamento que ninguém mais vai conseguir entender qualquer tipo de sutilezas daqui a pouco. Talvez desaparecer seja um ímpeto e uma consequência de um cansaço. Se esconder, desligar, sumir… Quem nunca quis, não é? Mas o “desparecer” que está no título do meu livro fala exatamente da rota que está traçada por padrões sociais desde sempre e que massacram e esmagam nossa identidade. Fala sobre a necessidade que o ser humano tem de se esconder para estar na companhia de outros. Fala de hipocrisia, preconceito e medo.

Que contistas te inspiram a escrever histórias breves?

Eu não gosto muito de elencar nomes porque é sempre muito injusto. Mas fico bastante irritada com essa história de que contos ou não vendem, ou são menores em qualidade que um romance. Fico alarmada quando isso vem do próprio meio literário. Escrever contos tem suas dificuldades próprias, exatamente como tem o romance, uma história para crianças. Cada gênero nos desafia de formas diversas. E é importante lembrar que a América Latina tem contistas de primeira grandeza. O impacto, a densidade, o recorte cirúrgico de um todo são características muito sedutoras em bons contos.

O que mudou na sua vida depois do prêmio Oceanos?

Um prêmio como o Oceanos ajuda a trazer uma visibilidade que talvez antes não tivesse, mas quase nada muda e acho mesmo que não é para mudar. O trabalho de escrever continua o mesmo, o desafio de contar uma história boa continua sendo o mesmo. O prêmio veio como uma pausa, um intervalo para ficar feliz. Mas escrever é complicado e essa é a rotina.

Como é a sua rotina de trabalho?

Não tenho uma rotina muito estabelecida, mas pela manhã, quando as crianças estão na escola, geralmente avanço com alguma coisa. Pode ser uma preparação de um curso, pode ser um ensaio, artigo, a edição da Capitolina Revista ou um texto para a coluna que escrevo aos domingos. Quando estou envolvida com o meu próprio texto de ficção, gosto de acordar cedo e aí o tempo rende bastante. Fora isso, reservo diariamente pelo menos meia hora para ler. A leitura é a minha ferramenta para a escrita.

De alguma forma, a pandemia prejudicou seu processo criativo? Ou, ao contrário, o momento a estimulou a escrever ainda mais?

Na minha rotina, especificamente, nada mudou muito. Eu sou mais quieta mesmo. Sei que muita gente está com a sensibilidade aflorada neste momento, com receios e medos renovados, o que é normal. Afinal de contas o incerto nos descontrola. Dito isso, me lembro que em maio e junho eu fiquei muito deprimida porque passei a entender que sair daqui e ir ao Brasil, rever amigos e família era uma coisa que já não poderia ser planejada. Isso foi muito duro. Assim como tem sido duro assistir ao Brasil desmoronar por causa de um governo nocivo e cruel que não respeita seus cidadãos e debocha do contribuinte. O Brasil está na sua fase mais feia. Ainda assim, com as eleições chegando e candidatos com Boulos, Erundina, Manuela D’Ávila se destacando, acabo tendo fé de novo.

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