Está tudo bem saber que não está tudo bem…

Por Janice Mansur (@janice_mansur)*

Não sei se você conhece a história de uma professora de inglês, na Rampart High School, em Colorado Springs, chamada Brittni Darras, que escreveu para cada um de seus alunos 130 cartas personalizadas, após a tentativa de suicídio de um deles. Conhece?

Em uma reunião de pais e mestres, essa professora descobriu que uma de suas alunas havia tentado suicídio. Assim, decidiu escrever uma carta para essa aluna que, ainda no hospital, comentou com a mãe sobre como alguém poderia dizer coisas tão boas sobre ela, pois achava que ninguém sentiria sua falta. Refletindo sobre isso e sobre como todos estamos perto de perder alguém importante – porque o certo de viver é que um dia morreremos –  a professorinha decidiu escrever uma carta para cada um de seus alunos.

Essa atitude foi tomada na intenção de mostrá-los que eram especiais, únicos, uma vez que cada um de nós é diferente do outro. Ao agir assim, ganhou a atenção mundial e o prêmio AspenPointe Hero of Mental Health e o Mayor’s Young Leader Award na categoria Inovação em Educação, em 2016. Sua atitude com certeza ajudou às outras alunas a entenderem que são dignas de serem amadas. Quem não quer ser amado aí?

Uma das maiores questões na vida humana é essa imensa carência de afeto e, portanto, necessidade de ser amado e, consequentemente, aceito. Já parou para pensar que quando se ama até os defeitos ficam “bonitinhos”? Toujour L’amour… O que queremos sublinhar com esse percurso pelo amor não é a ironia, mas a perspectiva do enfretamento. Por que o ser humano busca tanto no outro ou fora, o que ele deveria buscar dentro? Esse papo pode parecer filosófico demais, mas não é! E, claro, não estou dizendo aqui para que ninguém vire celibatário, monge ou algo parecido. O point, todavia, é: por que se evita tanto o estar só, consigo mesmo? Será que uma das causas do suicídio não seria essa necessidade de ser amado e desejado pelo outro? Ou ainda a vontade desenfreada de buscar no outro algo que deveria encontrar em mim? Será preciso que me amem para eu poder me aceitar?

Isso é uma coisa que me intriga particularmente e, desse modo, resolvi que deveríamos conversar aqui sobre isso. É triste esse assunto? Mas o que nessa vida não é? Durante quanto tempo vou varrer minhas tristezas − com as quais devo tomar contato para sair delas −, empurrando-as para debaixo do tapete? 

As pessoas estão vivendo numa sociedade que é puro hedonismo, consumismo e todos os -ismos que estão espalhados por aí. Sim, é óbvio que devemos viver no momento atual, no hoje e no agora, mas como? Como é a questão. Estar presente é importante, até mesmo, e especialmente, para o autoconhecimento. Todavia o “hoje e agora” para alguns significa aproveitar a vida a qualquer custo, gastar, badalar, brigar, dançar, correr, se estressar, tudo posto no mesmo balaio de gatos. No fim das contas, qual o proveito real tiramos disso?

*Janice Mansur é educadora, poeta e criadora de conteúdo do canal BETTER & happier YouTube e Instagram).

Embora não se possa determinar com precisão uma causa para o suicídio, porque muitos são os fatores e sua complexidade, algumas pesquisas continuam, até no âmbito da genética. O que se vê é que tudo o que sentimos, o caminho que percorremos, as dores que trazemos por anos e o que vivemos é um prato cheio para deixar vir à tona diversas questões internas que não sabemos por vezes nem descrever. Principalmente, se você leva anos sem querer olhar para dentro de si. 

Você já passou pela situação de acordar bem disposto e “do nada” não saber por que ficou acabrunhado, a vida ficou sem sal num fim de tarde, por exemplo? Ou você foi dormir numa felicidade extrema e acordou mal-humorado? Se você começar a se observar com mais apuro, verá que “algo” detonou com seu bom estado de ânimo. Mas foi o quê?

Comecei a me analisar e encontrei algumas coisas como: nossa! foi aquela frase que ouvi no filme… foi aquele perfume que me lembrou alguém… foi aquele sonho que não me recordo inteiro… Então, essas coisas todas acabam trazendo lembranças com as quais não temos contato, mas estão ali doendo. Estão ali convivendo conosco, podendo deixar essa porta aberta para um ato inesperado de puro desespero, fuga, pedido de socorro, e muito mais.

Nós, brasileiros, costumamos brincar com um tal “problema de junta” (junta tudo e joga fora) que deveríamos praticar mais. Então, o ideal seria jogar os problemas e desafios no lixo e, não, nunca pensar em desaparecer para eles. Problemas existem, claro, para todos! E está tudo bem saber que não está tudo bem…, mas não estamos sozinhos. Somos singulares, mas estamos todos sob essa mesma condição humana. Obviamente, cada qual carrega seu fardo e sua dor, mas precisamos falar sobre eles, não ter vergonha de os expor. Temos espalhados por aí, milhares de profissionais sérios e dispostos a ajudar, desde professores, como essa citada acima, a psiquiatras, psicanalistas, psicólogos capazes de esticar sua mão e acolher nossas dores. Porém, precisamos não esperar pelo amor alheio somente, mas desenvolver o próprio, o autêntico, o que não se divorciará nunca de Nós. 

Penso, e só penso, que antes, e bem antes, de chegarmos a uma situação que nos leve para o abismo, quase sem volta, precisamos procurar ajuda e nos olhar com mais amor, com mais paciência, com mais fé. 

*Janice Mansur é educadora, poeta e criadora de conteúdo do canal BETTER & happier, além do Instagram.

2 thoughts on “Está tudo bem saber que não está tudo bem…

  1. Adorei o texto!!!! Muito importante neste momento!!! E, como professora de língua portuguesa no Brasil, sendo desafiada a lidar com esse momento de aulas remotas para alunos que não têm acesso à internet, a possiblidade de fazer uma ação envolvendo cartas seria bem bacana! Estou aqui já pensando! Obg!!!

  2. Adorei o seu texto e, especialmente, a mensagem que ele transmite. Realmente, vivemos em uma sociedade com muitos -ismos, mas pouco se faz para que de fato o ser humano tenha mais consciência de si e de como ele deve pensar em se amar e se cuidar para conseguir cuidar do próximo. Neste mês de setembro, quando se fala na campanha do Setembro Amarelo e a prevenção ao suicídio, assunto bastante delicado porém necessário de se falar, as pessoas simplesmente ficam apáticas e se fecham em seu mundo. A pandemia que se instaurou entre nós vêm realçando o melhor e o pior do ser humano, mas o que eu (digo por mim) venho percebendo é que a empatia é algo que está em falta no mercado humano. Enfim, espero que essa situação mude que as pessoas passem a se enxergar mais no próximo e pratique que jaz nelas aguardando ressuscitar. 😉 Parabéns pelo texto, Janice!!

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