Grupo Samba de Roda, em Pirapora, em apresentação no Espaço Cultural Samba Paulista Vivo Honorato Missé (Casa do Samba), em fevereiro de 2020

Samba de bumbo e as raízes paulistas esquecidas

Por Cyro Zuzi*

Minhas origens são paulistas. Nasci na cidade de São Carlos e morei mais de duas décadas em Sumaré, na região de Campinas, no estado brasileiro de São Paulo. Ali iniciei meus estudos de bateria, sempre com uma veia muito forte no rock, porém em paralelo passeava pelos ritmos regionais já que, pelo fato de ser brasileiro, sentia que deveria estudá-los.

Porém foi somente em 2017 que decidi ir em busca das fontes, ou seja, ir até os locais onde os ritmos se originaram. Fui atrás do maracatu, em Pernambuco, e dos toques de candomblé, na Bahia, porém, pela distância e custo, a pesquisa se tornou difícil.

Até que descobri uma grande parte da África no interior de São Paulo, ali do lado da minha cidade. Foi em Campinas e Piracicaba que descobri o jongo.

Mais uma vez, o destino tornava difícil a minha busca pelas raízes da bateria no Brasil, até que no carnaval de 2020 me deparei com uma manifestação de samba até então nova para mim, praticado em Pirapora do Bom Jesus e Santana de Parnaíba: o samba de bumbo.

Fui então à Santana e me instalei no centro histórico, em uma pousada do século 18 que funciona desde a época dos romeiros. Interessante que essa minha “peregrinação” é o ponto chave da história que pouquíssimos conhecem sobre a origem do carnaval e o samba de São Paulo.

As cidades de Pirapora e Santana de Parnaíba eram uma só no século 18. A fundação se dá em 1724 e logo vira ponto de romaria, pois às margens do rio Tietê é encontrada uma imagem do Bom Jesus e colocada em uma capela.

A essa imagem são atribuídos muitos milagres.

Em paralelo, ainda no século 18, chegam muitos africanos, principalmente de origem Bantu (Congo-Angola), para trabalhar nas lavouras de café, sobretudo no Vale do Paraíba e Oeste Paulista. Esses povos, por terem origens em comum, tentam de alguma forma manter sua cultura homogênea através do que se chama de trilogia da gênese do samba em São Paulo: o jongo, a dança de umbigada (semba, que dá origem à palavra samba) e o samba de bumbo.

Pirapora recebe os romeiros oriundos do interior, muitos senhores de terra trazem seus escravos provocando uma divisão no local, enquanto os brancos vão às obrigações religiosas, os negros se instalam nos barracões, oferecidos pela igreja a fim de abrigar forasteiros mais pobres.

Dentro desses barracões é que se dá o nascimento dessa manifestação cultural. Ali se tocava o Moçambique, jongo e o samba de bumbo.

A festa do Bom Jesus cresce e com ela o samba, que começa chamar atenção mais do que o culto religioso, sendo então abafado pela igreja a partir de 1937 e proibido em 1941.

Porém era tarde demais. A tradição do samba de bumbo já estava instalada. Concomitantemente se vê o crescimento da cidade de São Paulo e a formação dos cordões carnavalescos, que são a origem das escolas de samba. No auge da festa de Pirapora, pelos anos 1920, esses cordões vinham de outras cidades e bairros da capital para o chamado “encontro de batalhões”, formando o que seria a gênese do carnaval paulista.

Na era getulista, São Paulo fica em segundo plano na divulgação desse tipo de samba pela mídia. Entre os fatores atribuídos um é que a indústria fonográfica privilegiava os sambas do Rio de Janeiro. Há também o fato de que o sotaque caipira não atraia as gravadoras e, por fim, o carnaval do Rio, já mais antigo, se desenvolve atingindo um patamar comercial mais viável.

Em 1914, no bairro da Barra Funda, é criado o primeiro cordão carnavalesco, o Camisa Verde Branco. Seu fundador foi Dionísio Barbosa, que ia regularmente aos encontros em Pirapora. O início dos cordões era um samba mais “marchado”. Traziam o choro e o regional com a presença de cordas e sopros, somente em 1935 surge uma escola de samba, a Primeira de São Paulo.

Mas o bumbo e outras alegorias típicas dos cordões vão dando lugar ao formato carioca, até que desaparecem as características originais do samba de bumbo paulista. O ritmo também muda, já que no samba de bumbo há uma proximidade com o samba de coco, provavelmente vindo dos Bantus, ou ainda pelo fluxo migratório de escravos vindos do Nordeste do Brasil no século 18.

Hoje ainda é possível vivenciar esse samba nas origens. Em Pirapora, há os grupos Samba de Roda e Vovô da Serra Japi, na Casa do Samba (patrimônio do samba de bumbo) e o carnaval de Santana de Parnaíba com o tradicional grupo Grito da Noite. Há também a festa de 13 de maio no bairro do Cururuquara.

As demais cidades onde se pode ainda encontrar essa modalidade de samba são Campinas, Piracicaba, Vinhedo (Samba da D´Aurora), Mauá (Samba-lenço), Quadra (Filhos de Quadra), entre outras. Porém, o centro histórico de Santana de Parnaíba e o formato no qual o carnaval é feito até hoje nos fazem remeter aos primórdios desse carnaval, não perdido, mas desconhecido, no qual o bumbo ainda é o personagem central.

* Cyro Zuzi é baterista e percussionista profissional, diretor da BishBashBosh Samba workshops e vive em Londres desde 2007.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *