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Com fígado novo, Fábio Martins agradece pela ajuda e faz planos para a vida

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Fotos Arquivo pessoal

Fabio transplantado com a familia


( Londres) Por Cristiane Lebelem - Aos 29 anos, agora com um fígado novo, Fábio faz planos para o futuro. Ele quer ajudar quem precisa de transplante por meio de uma fundação que incentivará pessoas a doar órgãos.


Há um mês Fábio deixou Londres numa ambulância aérea a caminho do Recife para poder salvar sua vida. E isso só foi possível com a ajuda de um grupo de empresários, que pagaram diretamente o serviço de transporte aéreo e também de muitos imigrantes, não apenas brasileiros, mas todos os que se sensibilizaram com a causa do rapaz.


De acordo com o próprio Fábio, foi arrecadado o montante de R$ 64 mil com todas as ações de apoio, movidas via internet e também de doações de todos os tipos. Nesse momento esses recursos têm servido de suporte à rotina da família. Fábio está acompanhado da mulher, Loiane e da filha de dois anos, num flat em Recife, onde terá que viver por um tempo para que possa ser feito o acompanhamento médico.


A família tem economizado para que o dinheiro alcance pagar as despesas, que incluem aluguel, transporte, alimentação e alguns medicamentos que não são fornecidos pelo SUS. “Todas as semanas têm que ser feito o exame de sangue, para avaliar se existe rejeição e como está o fígado novo”, conta Fábio. “Já estou podendo fazer coisas que antes não conseguia, mas para urinar ainda é difícil, porque ainda existe retenção de líquido”, relata. Para ele esse momento é muito especial, pois significa um renascimento.


Ainda um pouco fraco pelo processo de recuperação e da medicação, ele consegue caminhar e fazer as refeições normalmente, mas sempre de olho no teor de gordura. “Agora posso comer melhor, mas ainda preciso ter uma dieta especial sem álcool e frituras”, diz Fábio.


A cirurgia

Na manhã de 19 de novembro, a equipe do Notícias em Português aguardava do lado de fora do Royal Free Hospital, em Londres, para conseguir reportar a saída de Fábio Martins a caminho do aeroporto de Luton, de onde embarcou para o Brasil para o transplante (veja o vídeo em nossa página de Facebook).



No mesmo dia, chegou ao Brasil, por volta das 18 horas (horário de Londres), e foi levado diretamente ao Hospital Universitário de Pernambuco, onde uma equipe o aguardava. O primeiro fígado que apareceu não foi compatível, o que fez com que o brasileiro tivesse que esperar por mais de uma semana até que, quando estava em casa, recebeu a ligação certeira do hospital.


Fábio lembra emocionado o momento em que a mulher (Loiane) bateu na porta do banheiro dizendo, “meu bem, sai agora que conseguimos o teu fígado”, relembra. Ele entrou na sala de cirurgia às 23h36 e saiu na manhã seguinte às 6h50.

Ele não sabe quem foi o doador, por razões legais, apenas que foi um homem por volta dos 40 anos de idade que era doador de órgãos. Ao perder a vida, o seu fígado foi transplantado ao corpo de Fábio. Houve sinal de palpitação imediatamente, o que garantiu o sucesso do transplante.


Além de estar agradecido pelo novo fígado, Fábio lembra com carinho de tudo o que recebeu de apoio, na Inglaterra e no Brasil. “Mudou a vida. Fiz uma oração para família do doador. Falei a Deus para confortar a família dele. Mudou a minha vida. Mudou tudo, minha família toda também mudou com isso. Minha mãe teve coragem até de viajar de avião. Ela que nunca havia entrado num elevador, viajou de Goiânia até Recife de avião”, conta orgulho.


Fábio agora faz planos de organizar uma rede de apoio à doação de órgãos, junto à equipe médica que fez o seu transplante no Recife.


Londres na sua história


Muito embora Fábio estivesse atento a uma doença hepática, tendo em vista que perdeu há alguns anos a irmã mais velha por causa da mesma enfermidade que o acometeu, cirrose hepática, sentia-se saudável e capaz de se aventurar a conseguir uma vida melhor.


Ex-policial militar, Fábio deixou o Brasil aos 28 anos rumo à Europa. Em janeiro de 2017, desembarcou na França por alguns dias, ficou em casa de um amigo e depois foi para a Irlanda, onde entrou no Reino Unido com passaporte brasileiro, que concedia direito de visitar o país por três meses.


Logo chegou a Londres na casa de um amigo brasileiro, que o deu apoio para começar a trabalhar, pois Fábio queria ajudar a família, e conseguiu uma atividade no ramo da limpeza. Trabalhava de madrugada e com isso, além de pagar o aluguel da cama do quarto onde vivia (£ 80 por semana), ainda mandava £ 130 por semana para família no Brasil.

Veja a mesa redonda do Notícias em Português aqui.


Depois conseguiu melhorar um pouco e começou a trabalhar com entregas, mas sem registro adequado. Nem sempre a vida foi fácil. O esforço de Fábio também foi barrado pela doença no fígado, que o pegou de surpresa. Chegou a ir a uma clínica, onde fora atendido por um médico português, que fez exames e o medicou, mas ele não poderia acessar todos os recursos do NHS por sua condição irregular no país.


Mesmo assim, o governo britânico o acolheu em dois hospitais entre agosto e outubro de 2017, mas a conta chegou. Como Fábio não tem direito a tratamento pelo sistema público de saúde britânico, foi cobrado pelo governo.



Foto extra fabio

Conta do hospital

Para poder cruzar outra vez a fronteira para o Reino Unido, Fábio terá de honrar esta dívida. Mesmo diante deste obstáculo, ele diz estar por perto da comunidade que o ajudou em Londres, para lançar junto à equipe médica a campanha de doação de órgãos também no Reino Unido.