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Comportamento

Quem sofre violência só deixa o sofrimento quando consegue sair desse ciclo

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AliceDuarte

Por Alice Duarte

contato@aliceduarte.com



Uma vez conversei com uma jornalista, que organizava encontros com mulheres brasileiras de diferentes idades e classes sociais, que em comum vivenciaram relacionamentos abusivos. Eram mulheres que sofreram de algum tipo de violência - psicológica, verbal ou física - nas mãos de seus parceiros.



Comentei que a Constelação Familiar, técnica terapêutica que promove soluções para traumas e conflitos enraizados nos sistemas familiares, tem sido usada com bastante eficácia em casos de violência doméstica que chegam à Justiça, nas sessões de mediação e conciliação nos tribunais.



A Primeira Vara de Violência Doméstica de Cuiabá, no Mato Grosso, por exemplo, está realizando um trabalho de Direito Sistêmico com mulheres que sofreram violência. O resultado é, quase sempre, uma mudança de postura em relação ao seu papel como "vítima".



Expliquei à jornalista que quem sofre algum tipo de violência só tem condições de agir, saindo desse ciclo destrutivo e se curando dos traumas. Quando consegue entender que não é mera vítima ou espectadora dos acontecimentos, Ela é 100% responsável. Inicialmente essa afirmação gerou grande desconforto a ela, que não só militava em favor dessas mulheres como também havia estado em um relacionamento abusivo.




Famliaempaz

Foto Reprodução



Numa sessão de Constelação Familiar, a vítima de violência tem condições de olhar e compreender a raiz principal por trás do conflito, reconhecer também seu papel e sua responsabilidade nesse tipo de dinâmica, ou seja, qual o padrão comportamental individual ou transgeracional que a fez se envolver com aquela determinada pessoa.



Pode parecer estranho, mas numa relação abusiva quase sempre existe amor. A questão é que ele é um mal amor, um amor cego, inconsciente. O bem-estar e a paz nas relações só existe quando há bom amor, e para que ele flua, precisa ser precedido pela ordem, conforme revelou o pensador alemão Bert Hellinger, criador das Constelações Familiares.


Por trás de um comportamento violento está muitas vezes um trauma de infância (abandono, maus-tratos etc.) ou a triste repetição de um padrão de comportamento destrutivo herdado de forma inconsciente de gerações anteriores: pai, avô, bisavô etc.


A vítima também pode muitas vezes estar repetindo um destino, vivenciado pela mãe, avó ou bisavó. São histórias do passado, que ficaram sem solução e que permanecem vivas tanto na memória das células (a epigenética dedica-se a estudar isso), como na memória do sistema familiar.



No fundo, vítimas e agressores agem de forma inconsciente, como crianças. O primeiro passo na direção da solução é a vítima se empoderar, assumindo a posição de Eu Adulto e, por fim, reconciliar-se com o perpetrador. Reconciliar não é o mesmo que perdoar.



Perdão coloca a vítima numa posição superior e dificulta a reconciliação e essa só pode ser feita entre dois iguais. Isso demanda que a vítima abra mão do orgulho, o que é ainda mais difícil quando se crê ter razão. Aquele que está "certo" também se sente inocente, está cheio de direitos e também de resistência a mudanças.



Nesses casos, o que ajuda é quando a vítima olha para o perpetrador, entende a origem do conflito e deixa ele lidar com a culpa e as consequências de suas ações. E depois disso se retira de tudo e constrói algo de bom para si a partir dessa experiência. “Então o que passou é deixado para trás e fica resolvido para ela”, diz Bert Hellinger.



Para o agressor, o que realmente cura é reconhecer os danos, dizer “sinto muito” e assumir a culpa e as consequências. Isso também o empodera e o coloca na posição de adulto, de onde pode agir com autonomia.




Alice Duarte é jornalista e facilitadora de Constelação Sistêmica Familiar e Organizacional. Realiza workshops, palestras, cursos e atendimento terapêutico em grupo e individual (presencial e on-line). E-mail: contato@aliceduarte.com