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Cultura & Lazer

O mago que ensina a alquimia do texto em língua portuguesa

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Arquivo pessoal/ James divide-se o ano todo entre Reino Unido, Portugal e Brasil


(YORK - Inglaterra) Por Cristiane Lebelem - Ele nasceu no Rio Grande do Sul, aos pés de uma colônia britânica. Mas aos muito cedo mudou-se com a família para o Reino Unido, onde cresceu falando inglês. De origem portuguesa, sabia que apesar de pensar em inglês o seu coração se expressava também em outro idioma, e não demorou a entender que deveria se dedicar a aprender bem a língua portuguesa.


Aos 17 anos, James McSill voltou ao Brasil para estudar e desde então fincou os pés de tal forma no país, que até o sotaque gaúcho vem naturalmente como se não falasse outra língua a não ser o nosso português.

O vocabulário em português sempre estive presente em sua vida, e a avó disse “vou te deixar o meu povo”, ele logo entendeu que Portugal também era sua terra. Da paixão pela língua e pela contação de histórias, surgiu a alquimia que o fez ficar internacionalmente conhecido como “Guru dos Textos”, levando cada vez mais longe a consultoria e o ensino da escrita para profissionais do cinema, da literatura e dos mais diversos campos da comunicação.

Baseado em Glasgow, é do Reino Unido que as ideias vão se expandindo. Mas ele garante, chama de casa seus pedacinho de chão no Brasil e em Portugal, e se divide o ano todo entre três endereços.

James também virou celebridade entre os artistas, a quem tem toda disposição em ajudar. Nomes famosos das telas da TV, do cinema e do teatro têm se apoiado em seu trabalho. Dessa forma, o Estúdio MacSill está cada vez mais presente na dramaturgia da língua portuguesa.

Numa visita à primeira sede do Estúdio na cidade de York, ao norte da Inglaterra, passeamos com James pela rua mais antiga da cidade, onde foi gravada uma das cenas de Harry Potter, para uma conversa apaixonada pelas histórias e pela nossa língua portuguesa.


Como você começou a ser chamado de “Cirurgião de Texto”?

JM - Nos Estados Unidos me chamavamme de Magic MacSill (risos). Como consultor de histórias, eu sempre tive sorte. Metia o dedo na história e ela vendia melhor. Comecei no Brasil na área editorial e então fazia cirurgias nos texto. Em geral, o que se via eram boas narrativas, mas os textos eram muito pobres em termos de estrutura. O que me mostrava que a estrutura precisava de uma ajudinha. Comecei a tirar algumas partes de uma posição e colocar em outra e o texto fluía.

É como se você convidasse o leitor a ir direto à cozinha da casa, é isso?

JM- Exatamente. O autor às vezes fica preocupado em entregar muita informação logo no começo, mas o melhor é deixar diluído ao longo da história, deixando a narrativa fluída.

Qual é o segredo de uma história bem contada?

JM - Quando se começa a escrever uma história, a audiência precisa conhecer mais daquele cenário para conseguir entender. Trazer a leveza para o começo e diluir a informação ao longo da história faz um verdadeiro milagre em termos de narrativa. Um exemplo, a gente pode pegar um livro de 200 páginas, tirar as primeiras 40, e começar a narrativa dali. Não que a obra vá perder 40 páginas, mas apenas espraiar as informações no restante da história, mas partindo dali. A história começa quando começa a história, então, aquela ansiedade de colocar muita informação no começo não há necessidade. Isso vale para tudo, teatro, cinema, livros, história empresarial. Tem três momentos para a história começar: segundos antes do evento principal, durante o evento principal ou segundos depois do evento principal.


Como começou sua trajetória neste mundo da língua portuguesa e das histórias?

Eu estudei Letras no Brasil e uma semana depois já estava no Reino Unido. Acabei sendo contratado pela Collins como editor. Tive a oportunidade de trabalhar com pessoas que eram na época os melhores editores de histórias do mundo. Foi uma coisa maluca, coincidência. Vi um dicionário num cesto de uma livraria e li que era o primeiro do mundo, produzido a partir de um exame de computador. Então pela primeira vez na história humana um computador tinha lido a linguagem humana e criado um dicionário. E pensei, adoro computador, adoro histórias, é para lá que vou e fui. Cheguei e pedi um emprego por lá. Apresentei-me, disse que falava português, e veio alguém falar comigo, dizendo que começariam a expandir pela América Latina, então, precisariam de gente que falasse português, e comecei no dia seguinte. Assim eu segui. Trabalhei com gênios por lá.


E as línguas, como o português, se tornou importante para você?

Eu nunca fui fã do quase. Nasci ao pé de uma colônia inglesa no Brasil, e aos 4 anos voltei com a família ao Reino Unido. Não queria falar o português quase bem. Então decidi aprender bem. Fui ao Brasil para aprender português e dormia ao lado da cama com a gramática da língua portuguesa. Passava o dia todo memorizando a conjugação. E também lia livros o tempo todo de regência verbal. Eu era aficcionado por aquilo. Queria utilizar o português da melhor forma possível. Agora comecei a estudar japonês. Esse é meu novo desafio. No momento em que você fala outras línguas, tem acesso a outros mundos. Sempre digo que a pátria é a língua. Se estivermos falando em nossa língua materna, somos o mesmo povo. Minha avó sempre me dizia eu tinha a alma lusa. Então tive aquela sensação de que minha pele e minha alma eram lusitanas. Com as palavras dela, aprendi que quando a gente perde a língua, a gente perde a alma, e com a minha obsessão de não gostar das coisas pela metade, eu disse para mim: vou aprender bem esta língua. Minha avó como imigrante sabia muito bem que o mundo não está divido por fronteiras, você pode entrar. Mas a fronteira da língua, se você não falar, você não sabe o que está acontecendo. No momento em que se aprende um idioma, se abre um novo universo.

Como isso marcou sua vida?

Tem um momento muito interessante. Quando minha avó faleceu aos 99 anos eu está lá com ela, e momentos antes dela falecer. Ela disse: “Quando eu morrer, vai sobrar muito pouco para cada um” (a família já era bastante grande àquela altura com filhos, netos e bisnetos), mas ela reforçou que para mim, deixaria algo que havia de mais precioso: “Para ti, vou deixar o meu povo”. E foi uma coisa que ela falou menos de uma hora antes de morrer. Depois, mais tarde, quando fui a Portugal para dar uma palestra, minha primeira palestra,me senti muito bem, e ao final do evento uma moça chamada Ana subiu ao palco para agradecer em nome do público, e me disse: “Quero que saibas que a partir de hoje se houver espaço no teu coração, nós gostaríamos de que o portugueses também fossem o teu povo”. Ela repetiu as palavras da minha avó 30 anos depois. (meter una bolita que se termino la entrevista)


James é uma referência na contação de histórias em muitas partes do mundo e um dos nomes mais queridos por artistas também. Com uma agenda cheia, o ano todo ensina a quem quiser contar uma boa história em workshops e palestras.

Para saber mais sobre o James McSill visite o website http://www.mcsill.com


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NeP/C Lebelem/  Ao lado da atriz brasileira Simone Spoladore, passeando por York



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“A melhor estória que tú tens é a sua.” James MacSill


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O consultor literário é uma referência no mundo das artes/ James durante uma das suas palestras no Brasil em 2016