6 °C
Brasil

Odebrecht: a delação que abalou a República

|

(LONDRES ) Da redação - Ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht, Cláudio Melo Filho, que fez acordo de delação premiada com a justiça, afirmou que Michel Temer pediu em 2014 R$ 10 milhões em doações ao empreiteiro Marcelo Odebrecht.


Num documento de 82 páginas, entregues ao Ministério Público, Melo Filho denuncia a prática de doações ilegais da empresa a políticos. O depoimento é uma espécie de pré-delação e ainda precisa ser homologado. O Palácio do Planalto disse que “repudia com veemência” o conteúdo do documento e classificou as acusações de “falsas”.


“As doações feitas pela Construtora Odebrecht ao PMDB foram todas por transferência bancária e declaradas ao TSE. Não houve caixa 2, nem entrega em dinheiro a pedido de Michel Temer.", afirma nota da presidência.


De acordo com o ex-diretor, Temer atuava de forma “indireta, não sendo seu papel, em regra, pedir contribuições financeiras para o partido, embora isso tenha ocorrido de maneira relevante no ano de 2014".


Segundo Melo Filho, pelo menos uma vez o atual presidente pediu doações pessoalmente. O ex-diretor relata um jantar no palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente da República, no qual também estariam presentes o empreiteiro Marcelo Odebrecht e o atual ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha.


"Eu participei de um jantar no Jaburu juntamente a Marcelo Odebrecht, Michel Temer e Eliseu Padilha. Temer solicitou, direta e pessoalmente para Marcelo, apoio financeiro para as campanhas do PMDB em 2014", afirmou Melo Filho no documento.



Posse ministro cultura Robeto Freire Foto Lula Marques 00123112016

Foto: Lula Marques/AGPT / Temer e vários outros políticos foram citados em depoimento de ex-diretor da empreiteira



Valor teria sido entregue em dinheiro


Desses R$ 10 milhões, ainda segundo o ex-diretor, R$ 4 milhões teriam sido repassados a Padilha, que seria o responsável por distribuir o montante. O restante, de acordo com Melo Filho, foi para Paulo Skaf, na época candidato ao governo de São Paulo pelo PMDB. A entrega teria sido feita em dinheiro.


O nome de Michel Temer aparece 43 vezes no documento. Padilha é citado 45 vezes e é apontado como um dos braços direitos de Temer. O senador Romero Jucá, líder do governo no Congresso, é classificado como homem de frente nas negociações entre empreiteira e deputados e senadores. Todos os três são do PMDB.

Deputados recebiam para votar agenda favorável à empreiteira


Segundo Melo Filho, Jucá recebeu R$ 22 milhões de propina da Odebrecht. De acordo com o delator, o atual líder do governo no Congresso "concentrava a arrecadação e distribuição dos recursos destinados ao partido". Em troca, Jucá atuava como "patrocinador" de uma "intensa agenda legislativa" em favor da Odebrecht, ou seja, deputados e senadores receberiam propina para votar medidas favoráveis à empreiteira.



Vários políticos são citados


O ex-diretor também citou o ex-governador da Bahia e ex-ministro de Dilma Rousseff, Jacquer Wagner (PT); o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM); o atual governador do Rio, Francisco Dornelles (PP); os deputados Heráclito Fortes (PSB), Lúcio Vieira Lima (PMDB), Marco Maia (PT); os senadores José Agripino (DEM) e Ciro Nogueira (PP), além de um ex-assessor de Dilma. Todos eles teriam recebido doações da empreiteira. Todos os políticos tinham um apelido para serem identificados pelos executivos da Odebrecht.


Claudio Melo Filho é um dos 77 executivos da Odebrecht, que assinou acordo de delação premiada com a Justiça. Depoimentos serão tomados pela Procuradoria-Geral da República.


Alckmin teria recebido R$ 2 milhões de caixa 2


O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), foi citado em depoimentos de outros diretores e ex-diretores da Odebrecht, que assinaram acordo de delação premiada. Segundo eles, Alckmin recebeu dinheiro ilegal para suas duas últimas campanhas ao governo do estado.


Executivos da empreiteira mencionam duas pessoas próximas a Alckmin como intermediárias dos repasses. Segundo delatores, foram destinados R$ 2 milhões em dinheiro vivo ao empresário Adhemar Ribeiro, irmão da primeira-dama, Lu Alckmin. A entrega do montante teria ocorrido no escritório de Ribeiro, em São Paulo.


A assessoria do governador disse que qualquer conclusão com base em informações vazadas de delações não homologadas é prematura. Disse ainda que apenas os tesoureiros das campanhas tinham autorização para arrecadar fundos e sempre de acordo com a legislação.