23 °C
Comportamento

Rio 2016 transforma-se na olimpíada de respeito à diversidade

|

BNNP735 Rio2016 Comportamento2 1

Foto: Divulgação



(LONDRES) Da redação 



A Austrália tinha acabado de conquistar a primeira medalha de ouro da História do rúgbi de 7 feminino nos Jogos Olímpicos. O estádio de Deodoro estava quase vazio. Uma mulher entra no campo com microfone na mão e se dirige a uma jogadora da seleção brasileira. Foi assim que Marjorie Enya, que trabalha como voluntária no evento, pediu em casamento a namorada, Isadora Cerullo.



Depois de ouvir o “sim”, Enya (28) improvisou uma aliança, fazendo um laço no dedo de Isadora (25), e o beijo do casal passou a ser uma das imagens mais populares dos Jogos Olímpicos do Rio.


Essa é apenas uma das mais recentes imagens dos Jogos Olímpicos, com vocação para acolher a comunidade LGBT (lésbicas, gays e transexuais). Ainda que as disputas esportivas tenham o protagonismo na Rio 2016, a cada novo episódio, o respeito à igualdade de gêneros aprofunda-se.



O número de atletas assumidamente gays, 43 no total, é o maior da História: o britânico, Tom Daley, ganhador da medalha de bronze no salto sincronizado; a judoca Rafaela Silva, primeiro ouro do Brasil; pela primeira vez na História, duas atletas são casadas, as britânicas Kate Richardson-Walsh e Helen Richardson-Walsh.

Na noite da cerimônia de abertura, cinco dos ciclistas que puxavam as delegações. São transexuais, incluindo a famosa modelo Lea T, que abriu caminho aos atletas brasileiros.



Um grande contraste de comportamento no Brasil, sede das Olimpíadas, onde a homofobia cresceu nos últimos anos. Na semana retrasada, o time feminino de futebol dos Estados Unidos teve seu primeiro jogo no Mineirão, em Belo Horizonte. Algumas jogadoras ouviram o público, de pouco mais de 10 mil pessoas, gritar “bicha” nas arquibancadas. Prática comum das torcidas de futebol em jogos masculinos no Brasil.



O grito misturou-se a brados de "Zika", que se acabou consolidando a cada vez que a goleira norte-americana Hope Solo estava com a bola, uma reação a postagens da jogadora sobre a doença antes de vir ao Brasil. O time norte-americano tem pelos menos duas homossexuais: a meio-campista Megan Rapinoe e a treinadora, Jill Ellis.


Fora das arenas, os episódios homofóbicos multiplicam-se pelo país. De acordo com o site do Grupo Gay da Bahia, um membro da comunidade LGBT é agredido a cada 28 horas. “Os números da violência são enormes”, afirma Antônio Kvalo, um dos fundadores do portal temlocal.com.br, no qual as pessoas que se sentem agredidas ou ameaçadas por sua sexualidade, podem postar suas histórias.


BNNP735 Comportamento1


“Os relatos vão de ataques verbais a assassinatos, com toques de crueldade. Especialmente contra transexuais”, lamenta. O machismo enraizado na sociedade brasileira perpetua-se de muitas maneiras, segundo Kvalo.


Mas o crescimento dos casos de homofobia ultrapassa as fronteiras brasileiras e é testemunhado em outros países do continente, o que gera um efeito colateral importante.



“O número de pessoas que aceitam os pedidos por direitos dos grupos LGBT estão crescendo na América do Sul. Mas há outra tendência: grupos homofóbicos, que, se não estão crescendo em número, aumentam a intensidade de suas manifestações e, em alguns países, estão mais organizados politicamente”, observa Javier Corrales, professor de Ciência Política da Universidade de Amhrest, em Boston, especialista nos direitos gays na América do Sul.


“Houve uma exposição maior (ou uma saída do armário, por assim dizer) da homofobia mais radical, que hoje em dia está mais organizada e se manifesta mais do que antes”, completa o professor. Por isso, o tom desta Olimpíada ganha ainda mais importância. Neste contexto, a visibilidade dos atletas assumidos tem um ganho incomensurável para o coletivo. “É a única coisa que temos para contribuir pela luta LGBT ”, alerta Matthew Rettenmund, autor do livro “Boy Culture”, que se transformou num blog sobre as últimas notícias gays.


“Se as pessoas têm amigos, familiares ou, no caso dos Jogos Olímpicos, ídolos LGBT, isso pode repercutir no mundo inteiro. Há que se aplaudir a todos os que vivem sua sexualidade livremente. Nunca poderemos agradecer o suficiente a eles."


Jornalista americano expõe atletas olímpicos homossexuais e é ridicularizado


Mais um caso que comprova porque essa é a Olimpíada da diversidade. O jornalista norte-americano do The Daily Beast, Nico Hines, teve o nome repercutido nas redes sociais depois da publicação de um artigo, no qual tentava tirar alguns atletas homossexuais do armário.


O jornalista, que é heterossexual, criou um perfil no aplicativo de relacionamento Grindr e mapeou alguns atletas, os quais apareceram para ele nas intermediações da Vila dos Atletas. Nico chegou a marcar encontro com alguns e não apareceu.



No decorrer do texto, Nico menciona um atleta oriundo da Ásia Central, de um país onde o homossexual é criminalizado e vive em situação de risco. No texto, Hines preservou os nomes das pessoas com que entrou em contato no aplicativo, mas forneceu descrições detalhadas o suficiente para que fosse possível identificar atletas gays, que ainda não haviam assumido a homossexualidade.



A repercussão começou quando um nadador de Tonga, que é abertamente gay, afirmou que o texto de Hines colocava “a vida das pessoas na vila em risco”. O autor recebeu múltiplas acusações no Twitter e no Facebook, sendo criticado até por outros atletas olímpicos. O site Slate classificou o artigo de “perigoso e altamente antiético”.


O texto, intitulado “I Got Three Grindr Dates in a Hour in the Olympic Village” (Consegui três encontros no Grindr em uma hora na Vila Olímpica) foi retirado do ar e, no lugar, é possível encontrar um pedido de desculpas do The Daily Beast, explicando que ainda tentou reparar alguns danos do artigo do editor, removendo alguns pontos de crítica, mas acabou por decidir retirá-lo do ar.