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Saúde

“Como a pílula anticoncepcional me levou à UTI”

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Juliana diz que fez uso de pílula anticoncepcional durante 5 anos (Foto: Reprodução)


(LONDRES - Patricia Blumberg) Há gerações, as mulheres estão aptas a viver a liberdade sexual até então inimaginável, em grande parte graças à pílula anticoncepcional. Ministrada corretamente, tem eficácia de mais de 99% na prevenção da gravidez. Somente no Reino Unido, quatro milhões de pacientes fazem uso do medicamento por via oral. No entanto algumas marcas vêm acompanhadas do risco de efeitos colaterais profundos.


Nesta semana, um caso chamou a atenção nas redes sociais no Brasil. Mais de 70 mil usuários compartilharam o relato dramático, vivido pela jovem Juliana Bardella (22), diagnosticada com trombose venosa cerebral. Principais meios de comunicação divulgaram a história da estudante, que cursa Medicina Veterinária em Botucatu, interior de São Paulo, e a manchete ganhou a capa de diversos portais midiáticos.


Tudo começou com pequena dor de cabeça, que se agravou por três semanas, até o dia em que a universitária acordou e não conseguia mexer uma perna e uma das mãos. Não conseguia fazer uma ligação telefônica e ir ao banheiro. Seu raciocínio básico havia sumido.


"Fiquei muito assustada, porque não sabia o que era nem o que estava acontecendo comigo. Foi tudo muito rápido", conta Juliana ao BNNP.


Os pais viajaram 230 km para buscar a filha e levá-la ao hospital na capital paulista. A ressonância revelou o que médicos chamam de trombose venosa cerebral - doença que pode deixar sequelas graves em cerca de 15% dos casos e levar à morte 6% a 15% dos pacientes.


Juliana não fuma, tinha exames de sangue normais e não registrava histórico familiar da doença. Médicos então concluíram que a causa provável era o anticoncepcional, que tomava havia cinco anos. "Foi um choque. Nunca fui alertada sobre efeitos colaterais", diz ela.


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Universitária na UTI: diagnóstico de trombose veio após médico receitar remédio para enxaqueca


A estudante de Veterinária passou 15 dias internada, três deles na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Hoje, um mês e meio após a internação, Juliana sente-se melhor. Ela terá que tomar anticoagulantes por um tempo e abandonar anticoncepcionais orais.


“Após meu relato ser tão divulgado, virei um “imã". Muita gente veio falar comigo, surgiram inúmeros relatos de casos semelhantes. Teve um senhor, por exemplo, contando da esposa que morreu de tromboembolismo pulmonar. Não consigo responder a tudo, estou até assustada como tanta gente sofreu com isso”, afirma.


Pílula anticoncepcional no Reino Unido


No Reino Unido, desde o primeiro caso envolvendo a morte de uma jovem pelo uso de pílulas via oral, chamadas “terceira geração” (2014), mais de 60 mil General Practices (GP) são obrigados por lei a orientar pacientes, que procuram centros de saúde para solicitarem a medicação.


Os GP também devem listar e checar anualmente todas as pacientes, que fazem uso do método contraceptivo. O objetivo é controlar e averiguar riscos de embolias e aumento de coagulações sanguíneas. Somente na Inglaterra, estudo divulgado pelo National Health Service (NHS) revela que 1 em cada 10 mil mulheres são diagnosticadas com trombose, em razão do uso da pílula anticoncepcional.


Particularmente no RU, a Yaz não circula nas prateleiras das farmácias desde 2014, após artigos publicados pelo British Medical Journal (BMJ), relacionando a pílula ao aumento de 75% nos casos de trombose na comunidade.


Estudos reforçam suspeitas


Vários estudos recentes mostram que medicamentos contraceptivos, contendo drospirenona, elevam em até três vezes o risco de embolias e tromboses em comparação às gerações anteriores de anticoncepcionais. A lista desses medicamentos inclui tanto a linha Yasmin da Bayer como a Aida e Petibelle, da também alemã Jenapharm. Elas são chamadas pílulas da “terceira geração”.


Com base nos dados de 1,6 mil dinamarquesas, que durante anos haviam tomado anticoncepcionais contendo drospirenona, autores de uma pesquisa divulgada na BMJ Today também concluíram que o risco de infarto ou AVC era maior para elas do que entre as que adotavam métodos contraceptivos não hormonais.


O Instituto Federal de Medicamentos e Produtos Médicos (BfArM) da Alemanha, por sua vez, recebeu relatos sobre 4.780 mulheres, que sofreram trombose nos últimos 15 anos, às quais eram igualmente ministradas drospirenona. Dezesseis dos casos foram fatais.


Cerca de 9% das mulheres em idade reprodutiva no mundo usam contraceptivos orais, segundo esse estudo o índice chega a 18% em países desenvolvidos.


Bayer rebate


Embora a trombose seja comprovada como efeito colateral, médicos destacam que o índice absoluto de casos é baixo e que esses medicamentos são seguros. A gigante farmacêutica alemã Bayer, fabricante do anticoncepcional Yaz, insiste quanto à segurança de seus anticoncepcionais. Segundo declarou o porta-voz para saúde feminina, Michael Diehl, em entrevista à BBC News, os contraceptivos orais de sua companhia, "mesmo os que contêm drospirenona, apresentam perfil de risco positivo para usuário se não forem ingeridos segundo indicações". A empresa ainda afirmou que "a pílula anticoncepcional é o método contraceptivo mais utilizado no mundo", e que o risco de trombose venosa associada ao uso é "pequeno".