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Jogos do Rio: purgatório da beleza e do caos

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Por Denis Kuck


Faltam apenas duas semanas para o início dos Jogos Olímpicos. E, como não poderia deixar de ser, os olhos de todo o mundo estão voltados para o Rio de Janeiro. Para o bem e para o mal. Os meses que antecederam o evento foram de tensão, fruto da situação política instável e da economia em recessão, somados às preocupações causadas pela saúde financeira do estado do Rio e à questão da segurança.

Mas nem tudo é motivo de preocupação. Em casos anteriores a cidade já deu provas de que é capaz de sediar com eficiência eventos de grande porte. A Copa do Mundo, por exemplo, que antes do apito inicial estava cercada de dúvidas e protestos, foi um sucesso. Considerada por muitos como uma das melhores da história.

Apesar dos atrasos, as obras das Olimpíadas avançaram num ritmo bom e quase tudo já está entregue. A Vila Olímpica está concluída e o Parque Olímpico praticamente finalizado, faltando apenas alguns ajustes. A maioria das arenas já está pronta. O Velódromo, o estádio mais preocupante, pois houve mudanças nas construtoras responsáveis pelas obras e atrasos, está praticamente finalizado.



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Estádio já está preparado para receber as seleções

Foto: Divulgação


Arenas


Um ponto negativo é que os custos para a construção das arenas aumentaram desde que o Rio ganhou a candidatura para sediar os Jogos. Por outro lado, o Comitê Organizador conseguiu aumentar o volume de recursos privados para as obras. Segundo o Comitê, só foram gastos recursos públicos em obras que ficarão como um legado para a cidade.

A imprensa local, no entanto, informou que os geradores de energia para os Jogos, que serão usados apenas durante o evento, tiveram parte de seu custo, cerca de R$ 80 milhões, bancado pelo governo estadual. Há ainda o medo de que muitas arenas se tornem elefantes brancos e não sejam utilizadas em todo o seu potencial após as competições.


Calamidade financeira


Fatos como este geram críticas, especialmente devido ao fato do Rio de Janeiro ter decretado estado de calamidade financeira. O gesto foi visto como uma manobra do governo estadual para conseguir verbas federais. Deu certo. O governo do presidente interino Michel Temer destinou R$ 2,9 bilhões para o Rio. O dinheiro deverá ser gasto para garantir a segurança dos Jogos e liberar verba para a conclusão das obras de expansão do metrô.

A manobra pegou mal entre alguns setores, pois enquanto a realização das Olimpíadas é garantida, servidores estaduais, policiais e professores continuam com salários atrasados. O estado tem dificuldade para garantir a segurança da população e os índices de criminalidade crescem em ritmo forte. A segurança dos Jogos, porém, será feita com auxílio de tropas federais.


Terrorismo


Há ainda o temor de atentados terroristas, sempre uma possibilidade em um evento de grande porte que reúne países de todo o mundo. Recentemente, um suposto integrante do Estado Islâmico fez ameaças aos Jogos do Rio em uma conta no Twitter. Além disso, o jornal Liberation divulgou que autoridades francesas identificaram uma suposta ameaça de atentado contra a delegação francesa durante os Jogos.

Os ministérios da Justiça e da Defesa afirmaram que não foram informados de nada e cobraram mais detalhes do governo da França, mas que o plano antiterrorista para o evento era eficaz e aprovado internacionalmente. Para piorar, um site que monitora atividades terroristas nas internet detectou que um grupo extremista no Brasil declarou lealdade ao Estado Islâmico e criou um canal na rede social Telegram, semelhante ao WhatsApp.

Os serviços de inteligência brasileiros trabalham ao lado de agências internacionais para prevenir atos de terror. Segundo as autoridades locais, é preciso diferenciar ameaças vazias que só têm o objetivo de tumultuar de suspeitas verdadeiras.

Na semana passada, o governo federal destinou uma verba extra de R$ 78 milhões para a segurança da Rio 2016. O investimento na área ultrapassa os R$ 650 milhões.

No setor do transporte, as obras de legado também cumpriram com praticamente todo o prometido. O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) começou a funcionar em fase de testes e o BRT (corretor viário) Transolímpico, que liga a Barra a Deodoro, os dois bairros com o maior número de instalações Olímpicas, foi inaugurado há duas semanas. Outros dois BRT’s, o Transoeste e o Transcarioca, já estão funcionando há alguns anos.


Poluição


Apesar disso, existe um clima de apreensão sobre a qualidade das obras após a queda de trecho da ciclovia Tim Maia, localizada na Avenida Niemeyer, que deixou duas pessoas mortas, em abril deste ano. Uma empresa que faz parte do consórcio que construiu a ciclovia, uma das obras de legado, é responsável pelo gerenciamento de outras obras Olímpicas.

Outro fator preocupante foi a redução das exigências para a aprovação das obras de arenas que serão usadas durante o evento. As instalações tiveram sua liberação simplificada, sem necessidade do documento municipal chamado habite-se, que verifica se uma obra foi realizada de acordo com seu projeto. Para os Jogos, bastará uma declaração assinada pelo engenheiro da obra ratificando a conclusão do projeto e se responsabilizando por qualquer problema.

Outro problema grave é em relação ao legado ambiental. Neste quesito, nada ou quase nada foi cumprido. A promessa era tratar 80% de todo o esgoto lançado na Baía de Guanabara, onde acontecerão as regatas dos Jogos. O objetivo foi abandonado e hoje em dia nem 40% dos dejetos despejados na baía são tratados. Foram tomadas apenas medidas paliativas, como a construção de ecobarreiras. Muitos competidores reclamam da sujeira encontrada nas águas do local.


Zika


Sobre o zika, a situação parece estar sob controle. Os índices de pessoas infectadas diminuiu bastante, segundo as autoridades. Agosto, mês em que acontecem as Olimpíadas, é inverno no hemisfério sul e a incidência do mosquito causador da doença é menor. Mesmo assim, muitos jogadores da elite do golfe anunciaram que desistiram de ir ao Rio em função da doença. Segundo especialistas, isto parece muito mais uma desculpa, pois as provas Olímpicas não dão premiação em dinheiro e nem pontos no ranking. O golfe volta à programação Olímpica após 112 anos. O tenista espanhol Rafael Nadal, por exemplo, afirmou que a doença não preocupa.

Falando estritamente sobre esportes, a expectativa é de que os Jogos do Rio sejam emocionantes. O Brasil terá a maior delegação de sua história e chances reais de medalhas em muitas modalidades, como judô, vela, futebol, natação, ginástica e vôlei. Além disso, as Olimpíadas terão a presença do fenômeno jamaicano Usain Bolt, que tentará o tricampeonato nas provas dos 100m, 200m e 4x100m rasos. Sem falar na volta do multicampeão Michael Phelps, maior medalhista Olímpico da história, que retorna às piscinas após desistir de sua aposentadoria.


Alto astral


Há ainda um fator menos tangível, mas que pode desempenhar um papel importante no desenrolar dos Jogos. O calor humano dos cariocas e o astral da cidade. Turistas costumam ficar contagiados com o clima do Rio de Janeiro. Além disso, os próprios Jogos podem injetar um ânimo a mais. Muitos londrinos comentam que o pessimismo que havia antes da realização das Olimpíadas de 2012 sumiram quando o evento começou, e nem o mau tempo local espantou a vibração das ruas da capital britânica.

Agora resta esperar para saber como será o tempo no Rio de Janeiro entre os dias 5 e 21 de agosto.