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Cultura

​Niketche – uma dança entre mulheres

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Paulina Chiziane é uma das autoras de maior renome em Moçambique

CAJA gris – Moçambique 


(Londres) da redação

Paulina Chiziane, autora do livro Niketche – uma história de poligamia, nasceu em 4 de Junho 1955, é moçambicana e cresceu em Maputo, na periferia. Tem formação religiosa protestante e aprendeu a língua portuguesa na escola, mas suas línguas maternas são Chope e Ronga.


Participou de modo muito intenso na Frente de Libertação de Moçambique – Frelimo. Tem vários romances publicados entre eles Balada de Amor ao Vento, Ventos do Apocalipse, Por Quem Vibram os Tambores do Além e Niketche, uma história de poligamia. O título faz referência uma dança ritual moçambicana da qual mulheres participam e esse é o mote narrativo que surge no romance: um bailado de conversas e de “mulheridades”.


Esse romance é especialmente importante para entendermos um pouco mais sobre a cultura moçambicana, mas, principalmente, porque trata da vida privada da mulher moçambicana submissa ainda a uma cultura patriarcal opressora. Rami, a nossa protagonista possui escolaridade e nível social acima das demais mulheres do seu país.


Ela é casada há 20 anos com um alto funcionário da polícia de Maputo. Rami descobre os relacionamentos extraconjugais do marido e, por isso, intenta vingança com a participação das demais companheiras. As conversas e as confidências que essas mulheres trocam entre si funcionam não só como cura de suas feridas emocionais, mas, também, na sororidade, como superação das violências às quais são submetidas no cenário das tradições africanas. 


Elas nos mostram muito da realidade social moçambicana e apontam para todas as mulheres os caminhos da resistência. Niketche não é só a história de uma mulher e sua vingança, mas de mulheres em face da colonização europeia portuguesa e dos hibridismos culturais gestados nesse espaço. E Rami? Conseguirá se vingar do seu marido Tony? 


Essa pergunta conduz a nossa leitura e ficamos de plantão ouvindo todas as histórias e imaginando como será a o desfecho.

Numa linguagem bastante acessível e verdadeira a violência vai sendo superada pela cura através da terapia da palavra. Moçambique e Paulina nos convidam a essa dança: ficamos totalmente seduzidos pela musicalidade da linguagem e é muito difícil não aceitar o convite.