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Comportamento

O impacto emocional do Brexit

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O resultado do referendo quanto a saída do Reino Unido da Comunidade Europeia chegou as nossas casas na manhã da sexta-feira (24) e nos pegou de surpresa. Ainda estamos tentando assimilar e fazer sentido a algo que nos parecia inimaginável. Intensas emoções têm emergido: choque, raiva, indignação, repúdio, medo, ansiedade, incerteza, confusão.

Além da separação da Europa, o líder do país, primo ministro David Cameron, anunciou sua renúncia no próximo outono. Sentimentos de separação e abandono tomam conta de nós.


No mesmo dia do resultado sai de casa pela manhã para atender pacientes, como de costume. Inevitavelmente, a maioria das sessões psicoterápicas foi e tem sido até agora sobre o Brexit, e tenho presenciado a ansiedade dos pacientes, não só quanto a incertezas políticas e financeiras, mas aos motivos que os trouxeram inicialmente à terapia têm sido acentuados com esta notícia.


Existe um profundo desapontamento para com uma nação que lhes parecia acolhedora, tolerante e segura. Esses sentimentos foram abalados tremendamente desde o dia 24. Estamos vivendo momentos de instabilidade e divisões. Não só a separação do Reino Unido, mas entre indivíduos e opiniões. Além da divisão e confusão de sentimentos em nós mesmos.


As pessoas que atendo no consultório são muitas vezes imigrantes, como eu, que construíram ou reconstruíram suas vidas em UK, lugar que hoje se tornou nossa casa, não só no sentido de moradia, mas de pátria. Meus pacientes ingleses também se sentem desapontados e muitas vezes até envergonhados e enraivecidos. Quanto aos europeus se sentem inseguros e não bem-vindos. Os brasileiros sentem-se confusos, ansiosos e sem sentimento de pertencimento. Mas na verdade todos esses sentimentos têm sido vivido por todos independente de suas nacionalidades.


Além do que foi citado crescem as ansiedades relacionadas a preconceito, racismo e discriminação, que têm sido infelizmente acentuados com episódios de demonstração xenófoba em várias localidades. O que ocorre atualmente aqui nos remete também ao que amigos e familiares têm vivido no Brasil, com uma longa fase de turbulência política, social, econômica e emocional.


Pessoas que batem a minha porta em busca de terapia vêm de classes socias muito diferentes, nacionalidades e backgrounds diversos, mas todos experienciam sentimentos semelhantes quanto ao Brexit. Estamos todos no mesmo barco, e no momento há uma sensação de perda de rumo dessa embarcação.


Como declara a psicoterapeuta Susie Orbach em recente artigo no The Guardian, a questão de viver uma nova realidade não é simples. É como um sentimento de pesar por algo, que de certa forma, não nos demos conta que tínhamos. Temos passado por momentos de estar completamente conscientes e alertas sobre o que aconteceu, para de repente ficar absorvidos com nosso trabalho e afazeres do dia a dia e passamos a ficar chocados novamente quando lembramos do assunto. Uma realidade que, se pudéssemos, empurraríamos para o lado e a esqueceríamos. Passamos por fases de negação e experienciamos o confronto com o real novamente.


É um processo de luto, como se o sonho de uma terra acolhedora, promissora e tolerante tivesse se desfeito, pelo menos temporariamente. Podemos fazer uma analogia do Brexit como um divórcio (litigioso, como está sendo falado), que também trouxe como resultado a sensação de abandono pelo líder da nação ao pedir renúncia a partir do próximo outono. Como se a figura paterna tivesse também nos deixado ao abandono e perdido em meio a essa separação complicada; impotentes e com a esperança de que a opção que nos resta é mantermos um otimistimo de que líderes competentes lidarão com a situação da melhor forma possível.


Ao longo de sentimentos negativos e pessimistas temos visto provas de compaixão e solidariedade para com outras pessoas, que votaram ou que são a favor da permanência na continuidade europeia. Eu prefiro nao só me manter informada e tentar entender o que acontece racionalmente por um lado, mas tambem continuar otimista e acreditar que a crise política e financeira do UK possa estar mais estável e equilibrada em breve.


Infelizmente o impacto emocional dessa separação pode levar mais tempo. Enquanto isso continuarei amando o meu trabalho e o exercendo arduamente; fazendo tudo o que posso para seguir ao lado de meus pacientes, não só numa jornada de autoconhecimento, mas de possibilidade em lidar com os próprios conflitos da melhor maneira possivel.

O consultório de psicoterapia continuará sendo espaço seguro e acolhedor para que esses sentimentos possam ser expressados e elaborados.




Denise Garcia Kalmus é psicoterapeuta, baseada em Londres, registrada junto ao British Psychoanalytic Council (BPC, a body accredited by the Professional Standards Authority).

www.denisegarciakalmuspsychotherapy.co.uk




BN notícias em Português recomenda os seguintes centros de apoio ao imigrante para busca de ajuda psicológica em Londres: