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Tony Blair teria “exagerado” , diz inquérito sobre a participação britânica na invasão ao Iraque

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Antes da invasão do Iraque, uma passeata em Londres contra a intervenção reuniu 750 mil pessoas

Foto:Reuters


(Londres) da redação

Diz a lenda que o chamado Chanceler de Ferro, Otto Von Bismarck (1815-1898), cunhou a seguinte frase: "Leis são como salsichas; é melhor não saber como são feitas."


O relatório de "sir" John Chilcot sobre o papel do Reino Unido na invasão do Iraque indica também que é melhor não saber como são tomadas decisões absolutamente relevantes - a de ir à guerra, por exemplo. Foi um erro do começo ao fim, demonstra o relatório, que leva o nome de seu autor, ex-funcionário público. Ele foi encomendado pelo governo britânico durante a gestão do trabalhista Gordon Brown, sucessor de Blair.


O resultado da investigação, que durou sete anos, foi apresentado nesta semana em Londres e traz informações sobre a tomada de decisões no Reino Unido em sua participação na invasão do Iraque, que levou à queda do então presidente Saddam Hussein.


“Concluímos que as circunstâncias em que foi decidido que havia uma base legal para ação militar foram longe de serem satisfatórias”, afirmou Chilcot durante apresentação do dossiê. O documento também critica a forma como o governo de Blair apresentou a necessidade de intervenção no Iraque ao Parlamento e à opinião pública do Reino Unido. Tony Blair teria “exagerado” de forma deliberada sobre a ameaça do governo de Saddam Hussein em função de seu suposto arsenal de armas de destruição em massa, que nunca foram encontradas.


Chilcot afirmou que opções de desarmamento pacíficas "não haviam sido esgotadas", quando houve a intervenção. "Ação militar não era o último recurso", completou. “Apesar das advertências explícitas, as consequências da invasão foram subestimadas”, disse.


Saída de Saddam


Segundo a investigação, os movimentos de Washington e Londres em direção a uma ação militar contra Saddam Hussein foram iniciados após ataques de 11 de Setembro em 2001. Documentos de dezembro de 2001, quando EUA e Reino Unido lançaram a operação militar no Afeganistão, indicam que Blair e Bush já discutiam a saída do então líder iraquiano. Num memorando confidencial, escrito por Tony Blair a George W. Bush em julho de 2002, a alguns meses da invasão, Blair diz a Bush: "Com você, qualquer coisa".


Consequências


A divulgação do relatório elevou a pressão sobre Blair para que peça desculpas aos críticos da guerra do Iraque. Antes da invasão, uma passeata em Londres contra a intervenção reuniu 750 mil pessoas segundo a polícia ou mais de um milhão de acordo com os organizadores.


O ex-premier e outras pessoas responsáveis pela invasão também podem ser alvo de processos na justiça, segundo porta-voz das famílias de 179 militares e civis britânicos mortos no Iraque entre 2003 e 2009. O Iraque continua imerso em conflitos sectários, com um poder central fragmentado e territorialmente ameaçado pelo grupo autodenominado “Estado Islâmico”.


Por causa da complexidade da tarefa, o relatório Chilcot levou sete anos para ser concluído. Questões sobre publicar ou não as mensagens privadas de Blair a Bush também adiaram a publicação, bem como o tempo necessário para ouvir as pessoas criticadas no relatório.


O documento final tem 2,6 milhões de palavras e levaria nove dias de intensa atividade para ser lido de cabo a rabo. É três vezes mais longo do que a Bíblia e duas vezes e meia a série completa de Harry Potter.