8 °C
Home

Brexit, o novo Titanic britânico?

|


BNNP730 Brexit1BNNPsconflictedcopy20160711

Arquivo Daily / Reino Unido pode afundar igual ao navio Titanic



(LONDRES) Por Patrícia Blumberg - Parece exagero, mas, 104 anos após o desastre do Titanic – orgulho da marinha britânica à época da sua construção, o Reino Unido avista um novo possível naufrágio, dessa vez pondo em risco a vida de 60 milhões de pessoas. É que o Brexit, saída do Reino Unido da União Europeia, completa quase um mês de incertezas e levanta uma maré de pessimismo.


O iceberg versão 2016 é uma economia abalada. O conhecido analista político estadunidense Ian Bremmer vê no Brexit o “maior evento a ameaçar a ordem mundial, desde a crise dos mísseis de Cuba de 1962, seguido pela crise financeira de 2008 e pela reação ao 11 de Setembro”.


De um ponto de vista menos Washingtoncêntrico, é preciso dar no mínimo igual relevância à dissolução da União Soviética, iniciada com a proclamação da independência da Lituânia em fevereiro de 1990, concluída em dezembro de 1991 e pressagiada pelo desastre de Chernobyl.


Desde o dia 23 de junho, à meia-noite, ao sair o resultado de Sunderland, quinto dos 382 distritos e o primeiro a ter resultado pelo Brexit muito superior ao esperado, tudo vem funcionando num efeito dominó.


Às 3 da madrugada do fatídico 23, a libra caíra para 1,33 dólar - colapso sem precedentes desde o início do câmbio flutuante em 1970. A maioria dos analistas espera vê-la estabilizar entre 1,20 e 1,30 dólar, mas há quem aposte que cairá para 1 dólar no fim de 2016.


O Credit Suisse revisou a previsão para o PIB britânico de crescimento de 2,3% para queda de 1%. A expectativa de inflação em 2016, que era de 1% a 1,5%, saltou para 4% e impacta alimentos e roupas, em grande parte importada da Europa.


No mercado imobiliário, mais duas gestoras suspenderam essa semana o resgate no Reino Unido. A Henderson Global, que gere 3,9 bilhões de libras, e a Columbia Threadneedle, que gerencia um fundo de 1,4 bilhão de libras, tornaram-se o quarto e o quinto fundo a anunciar suspensão das negociações em meio a uma alta dos resgates, causada pelos altos níveis de incerteza que se abatem sobre o setor no RU, após o plebiscito que decidiu pela saída da União Europeia.


Nos últimos dois dias, três gestoras haviam anunciado a suspensão da negociação pelo mesmo motivo: Standard Life Investments, Aviva Investors e M&G Investments.


Para piorar a situação, com a libra caindo abaixo de 1,17 euros pela primeira vez desde 2013, o tamanho da economia britânica fica o equivalente a 2,172 trilhões de euros - abaixo do PIB oficial da França, de 2,182 trilhões de euros. Isso significa que a França superou Reino Unido como 5ª maior economia do mundo.

Isso não acontecia desde 2014, seis anos após a crise financeira levar a libra a cair e permitir que os franceses recuperassem a coroa perdida em 1997.


Brêxodus e abandono do barco


Por razões de ordem econômica, a política vem sofrendo drásticas consequências. O primeiro-ministro David Cameron renunciou, e a União Europeia - pelas vozes de Angela Merkel, François Hollande, Matteo Renzi e Jean-Claude Juncker - cobra agilidade na formalização do pedido de saída e definição do novo governo para iniciar o quanto antes a negociação dos termos da saída, com prazo máximo de dois anos para se encerrar.


O Brexit, desde então, recebeu o carinhoso apelido de Brêxodus – o êxodo conservador. Os principais nomes do projeto “Leave” abandonaram o barco e passaram o bastão: Boris Johnson deixou uma plateia de jornalistas atônitos após afirmar que não estava pronto para o cargo de ministro; Nigel Farage, líder do xenófobo Ukip, “Partido da Independência do Reino Unido”, também renunciou ao posto com a desculpa de que precisa tomar o controle de sua vida pessoal.


A ameaça de desintegração pende também sobre o partido Trabalhista. Assim como a maioria de seus parlamentares (218 a 10), o líder Jeremy Corbyn, da ala esquerda, apoiou o Remain, mas a ala “social-liberal” de Tony Blair, que domina a cúpula e nunca o apoiou, usou a derrota para culpar sua “falta de liderança” e exigir a renúncia.


A maioria dos ministros do “governo paralelo” renunciou e deputados trabalhistas aprovaram “moção de desconfiança” (sem valor legal) por 172 votos a 40. Corbyn, apoiado pelas bases que o elegeram em primeiro turno, está disposto a resistir, e é possível que os dissidentes fundem novo partido.


Se vier nova eleição este ano, essa divisão daria ampla maioria parlamentar aos conservadores eurocéticos e ao Ukip.


BNNP730 Brexit2BNNPsconflictedcopy201607111

Reuters / Protestante levanta cartaz contra os três principais nomes do referendo: David Cameron, Boris Johnson e Nigel Farage


Esse Titanic também afunda?


Bruxelas enfrenta um difícil dilema: se for dura com o Reino Unido, terá perdas comerciais, principalmente de exportadores alemães e holandeses, e mais instabilidade financeira. Mas se for condescendente, encoraja partidos xenófobos e antieuropeus em ascensão em vários países da Europa e já no poder na Hungria e Polônia.


Há sério risco político de desmembramento e grave risco econômico e financeiro ao euro e ao combalido sistema bancário. Em 1931, quando o Reino Unido deixou o padrão-ouro e desvalorizou a libra, as demais nações europeias o imitou e uma após a outra aderiu ao nacionalismo econômico, quando não, ao fascismo.


Londres não é hoje tão importante, mas as finanças europeias não estão em melhor forma, e o susto pode se repetir nos EUA, onde Trump é impulsionado por uma dinâmica semelhante à do Brexit e liberais demasiado confiantes na irreversibilidade da globalização podem ser de novo apanhados de calças curtas.


Os tempos são sombrios. Tragam de volta Jack e Rose, pois a ficção é mais divertida que a vida real.