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Cultura & Lazer

Bom dia, Camaradas!

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Por Kátia Klassen


Presos à mão de um menino é assim que o autor angolano Ondjaki (Luanda, 5 de julho de 1977) nos conduz nessa narrativa cativante Bom dia, camaradas. “Bom dia, camaradas” era como os professores cubanos saudavam seus alunos angolanos – nessa sala de aula, de classe média, vivenciamos várias histórias que se passam em uma Luanda dos anos 1980, que acabou de se tornar independente e é obrigada a repensar as regras sociais e a questionar as causas da desigualdade. Na obra, também ficam claros os conflitos entre modernidade e tradição; e como a independência de Portugal foi recebida por muitos.


Veja só essa conversa do nosso menino narrador com um empregado da casa, o camarada Antonio:


“- Mas, camarada Antonio, tu não preferes que o país seja assim livre? (...)

- Menino, no tempo do branco isto não era assim... (...)

- Mas Antonio, Tu não achas que cada um deve mandar no seu país? Os portugueses tavam aqui a fazer o quê?

- Ê, menino, mas naquele tempo a cidade estava mesmo limpa... tinha tudo, não faltava nada.

- Ó Antonio, não vês que não tinha tudo? As pessoas não ganhavam um salário justo, quem fosse negro não podia ser diretor, por exemplo...

- Mas tinha sempre pão na loja, menino(...)

-Mas ninguém era livre, Antonio... não vês isso?

- Ninguém era livre como assim? Era livre sim, podia andar na rua e tudo...”


Ondjaki nos conduz aos pequenos acontecimentos do cotidiano que mostram como é preciso mais que um decreto para que as mudanças de fato aconteçam.  Bom dia, camaradas também tem um glossário bem interessante no final, mas a gente acaba se entregando à intuição do significado e se sai muito bem. A obra, com certeza, traz uma visão bastante otimista de Angola pelo olhar do narrador e assim permanecemos desejando aos irmãos angolanos mais democracia, mais vitórias!