14 °C
Cultura

Martinho da Vila: “Não faço balanço da minha carreira. Deixo o balanço sacudir quem me ouve”

|

Martinhodavila 3 1

Foto: Divulgação


Martinho da Vila, a quem o samba ensinou tantas lições, vive um 2016 de celebrações redondas.

Neste ano se comemora o centenário do ritmo popular que conduz sua musicalidade, os 70 anos de fundação da escola do coração, Unidos da Vila Isabel, e os 50 anos de uma carreira brilhante.


Por telefone, cansada de uma vida de entrevistas e no rastro de tantas composições bem-sucedidas, a inconfundível voz do sambista passeia com o BN Notícias em Português pelos mais variados temas, da paixão pelos países lusófonos à carreira pessoal, passando pelos 100 anos que o samba completa em 2016 e o próximo show em Londres, no complexo cultural de Barbican na terça-feira (28).  


Não se surpreenda com o tamanho das respostas. Curto e prático, o sambista revela: “Não faço balanço da minha carreira. Deixo o balanço sacudir quem me ouve.”


BNNP: Martinho, você está completando 50 anos de carreira. Que balanço você faz, depois de tantos projetos e sendo um dos músicos mais importantes do Brasil?


MV: Na arte, não tem carreira. Quando você faz arte, é vida artística, ou seja, não tem fim. Eu não faço balanço da minha carreira. Deixo o balanço sacudir quem me ouve, deixo o samba tomar conta do terreno.


BNNP: Falando de samba, depois de ter sido marginalizado por tanto tempo, ele passou a abrir portas para o Brasil no mundo inteiro. Como você avalia o samba, que completa 100 anos em 2016?


MV: No começo, o samba era discriminado. Foi se impondo por força própria. Hoje, se o presidente de uma escola de samba do grupo especial ligar para um prefeito ou para um governador, eles atendem na hora. O samba cresceu por sua importância política, social, econômica e cultural. Vive um estágio forte, avançado, muito merecido. A Unidos da Vila Isabel, por exemplo, chegou a seus 70 anos em 2016. É muita história.


BNNP: Você é conhecido como o compositor da lusofonia. São diversos projetos sobre o tema e sempre escutamos sobre suas andanças pela região. Como e por que começou o seu interesse pelo continente africano?


MV: Meu interesse começou de muito tempo, lá em Luanda, em Angola. Nós somos a África. As pessoas da minha geração cresceram alheias à cultura africana e não receberam nenhuma informação sobre a África nas salas de aula. Até hoje ainda há gente que pensa que na África não há cidades, prédios, estradas, casas com luz elétrica, televisão, telefone... Em parte do imaginário popular, a África é apenas uma imensa floresta repleta de animais perigosos. Mas a África está dentro de nós.


BNNP: Seu álbum “Lusofonia” traz influências africanas. O que mais te impressionou no processo de pesquisa sobre essas musicalidades?


MV: Para fazer o CD “Lusofonia” fiz uma grande pesquisa sobre a musicalidade dos países lusófonos. O que mais me impressionou foi um tipo de música de São Tomé e Príncipe, que é irmã gêmea dos Calangos do interior do Estado do Rio de Janeiro e sul de Minas Gerais. Lá em São Tomé também há uns sons semelhantes às catiras do interior de São Paulo e Paraná. Os ritmos da Guiné Bissau são os que estão mais próximos do samba. A maioria das músicas deles pode ser tocada como os sambas de roda da Bahia.


BNNP: O que a nossa comunidade de língua portuguesa pode esperar do seu show em Londres?


MV: Faremos um show para celebrar o centenário do samba. Espero que a comunidade de língua portuguesa esteja em peso para comemorar com a gente.