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​Camões, alma minha!

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Poemas luis de camoes


(BRASIL) Por Kátia Klassen - No dia 10 de junho, comemora-se o aniversário da morte de Camões. Para falar da morte, há que se começar a falar da vida ou das dúvidas sobre alguns fatos da vida de Luiz Vaz de Camões. O poeta teria nascido em Lisboa, em 1524, e falecido na mesma cidade, no dia 10 de junho de 1579 ou 1580. Foi um poeta nacional de Portugal, considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas do Ocidente.


Possivelmente, Camões era de uma família da pequena nobreza. Sobre a sua infância há muita especulação, mas ainda jovem, teria recebido uma sólida educação clássica, dominava o latim e conhecia a Literatura e a História antiga e moderna. Pode ter estudado na Universidade de Coimbra, mas a sua passagem pela escola não é documentada.


Frequentou a corte de D. João III, iniciou a sua carreira como poeta lírico e envolveu-se, como narra a tradição, em amores com mulheres da nobreza e possivelmente plebeias, além de levar uma vida boemia e turbulenta. Diz-se que, por conta de um amor frustrado, exilou-se na África, alistado como militar, onde perdeu um olho em batalha – o que também teria desfigurado muito o seu rosto. Voltando a Portugal, feriu um servo do Paço e foi preso. Perdoado, partiu para o Oriente. Passando lá vários anos, enfrentou uma série de adversidades, foi preso várias vezes, combateu ao lado das forças portuguesas e escreveu a sua obra mais conhecida, a epopeia nacionalista Os Lusíadas. De volta à pátria, publicou Os Lusíadas e recebeu uma pequena pensão do rei D. Sebastião pelos serviços prestados à Coroa, mas nos seus anos finais parece ter enfrentado dificuldades para se manter. Diz a tradição também que ele teria falecido numa casa de pousadas de invocação de Santa Ana. Camões teria levado consigo um exemplar do seu troféu Os Lusíadas.


Quanto à linguagem, Camões renovou a língua portuguesa, adaptou tendências de sua época vindas da Espanha, sua escrita se vale de latinismos e neologismos e tornou-se a principal referência do cânone português. Por sua epopeia heroica, grandiosa e cheia de paixão é o símbolo de identidade da sua pátria e é ponto pacífico de virtude poética para toda a comunidade lusófona internacional. O bardo português ocupa o lugar de honra de nossas letras e sua obra é objeto de inúmeros estudos críticos – tantos que é necessária uma dose importante de coragem para falar sobre ele.


Mas em vida não foi assim. Ele mesmo reclamou de acusações, injustiças que sofreu em muitos momentos de sua vida e, principalmente ele se ressentia de que sua obra não merecesse o devido respeito entre os portugueses. Só depois de sua morte é que sua poesia foi reconhecida por sua técnica impecável, temáticas variadas que descreviam um “sentimento do mundo” que marcaria a modernidade de Camões. Logo após a sua morte, a sua obra lírica foi reunida na coletânea Rimas tendo deixado também três obras de teatro cômico, além de Os Lusíadas.


A literatura é sua História, mas também é a história que ela constrói em seus leitores. Desde a faculdade de Letras, Camões se tornou uma referência do que havia de mais “chique” em termos de Língua Portuguesa, tornou-se uma “alma minha”, internalizou na minha mente poética o sentido da saudade, do heroísmo, do amor.


Em Os Lusíadas, Canto II, a partir da estrofe 33, há a cena em que Afrodite vem seduzir o pai Zeus, fazendo beicinho, seios à mostra, passagem que me impressionava pela riqueza de detalhes tão metricamente contada, numa prosa tão ritmada que era levada a flutuar como Afrodite... E sem falar no escândalo que essa cena causava nos alunos de Ensino Médio, quando mais tarde quando me tornei professora de Literatura e passei ensinar a História da Literatura. Camões descreve a deusa do amor, que vinha acompanhada do Cupido, mas ele estava invisível – os truques de sedução com efeitos especiais!


Os crespos fios de ouro se esparziam

Pelo colo que a neve escurecia;

Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,

Com que Amor brincava e não se via


Além da delícia de construir pontes históricas entre jovens de 15 e o poeta de quase 500 anos – cujos sentimentos de amor e solidão eram, em outras palavras, claro, os mesmos.

Camões se tornou um amor ao qual sempre voltava. Sempre – com renovadas teorias, com a passagem da idade, com as aulas no ensino superior. Certa noite, conversando sobre a lírica camoniana, numa aula de Literatura no Ensino Superior, li esse poema, cuja primeira estrofe transcrevo, poema dedicado à Dinamne, supostamente morta em um naufrágio, do qual Camões não pode salvá-la:


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.




Bastou essa estrofe e a voz ficou embargada e lembrei do meu pai que falecera há uns meses. E eu pensei, na mesma hora, numa tristeza e no conforto de saber que outro ser humano também já sentiu essa dor da despedida e de nada poder fazer. Imaginei tantas pessoas que perderam suas almas gentis, almas idas dessa vida descontente ou descontentes com essa vida. Rápido me veio à mente o verso camoniano sobre a morte de Inês de Castro: “bonina, que cortada antes do tempo foi...”.


Logo minha voz se estabilizou. Essa rápida sessão de “poiesisterapia” (terapia através da poesia – acabo de inventar) me abasteceu por aqueles momentos da certeza de que não estava sozinha, de que não era eu a única a sentir tristeza, e que, de fato, quando alguém se vai, só nos resta a consolação de outros seres humanos.


Parabéns, Camões! Alma dos lusófonos e alma minha gentil que sempre vai estar comigo.


Kátia Klassen é doutora em Estudos Literários pela UFPR

E também párticipa da programação da RBG – Rádio Brasil da Gente - Ouça o programa aqui  http://www.radiobrasildagente.net/programas