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Cultura & Lazer

D. Catarina de Bragança - Rainha da Inglaterra, Filha de Portugal

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(LONDRES) Por Carlos Queiroz




Relendo obras portuguesas e estrangeiras sobre sua vida, pode afirmar-se que D. Catarina de Bragança foi, como tantas infantas portuguesas casadas com reis e imperadores estrangeiros, tão feliz como as outras, tendo em conta que os casamentos reais eram contratos, nos quais interesses políticos e financeiros pesavam mais que os aspectos românticos. Amor no casamento era um “luxo”, que muito raramente acontecia na vida de monarcas e imperadores do Oriente ao Ocidente.

Mesmo no séc. 20 fomos testemunhas de como isso foi verdade, com o xá do Irã ou o herdeiro do trono da Grã-Bretanha (Eduardo VIII), além de Nerhu que, não sendo monarca, foi obrigado a casar com quem os pais decidiram. Para não falar do atual príncipe de Gales (Charles) que teve de casar com Diana por imposição familiar.



A chegada da rainha


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Uma armada de vinte navios, comandada pelo conde de Sandwich, saiu de Lisboa no meio de grandes festejos de despedida no Rio Tejo.

A infanta D. Catarina de Bragança embarcou no Royal Charles, que rumou a Portsmouth e onde chegou a 25 de maio. 

O rei não foi esperá-la, em razão de qualquer assunto urgente de Estado ou para satisfazer o capricho da favorita, ciumenta com a proximidade do casamento.


Receberam Catarina de Bragança, o conde de Manchester e vários outros representantes do monarca. A infanta portuguesa ficou hospedada em King’s House, residência do governador da cidade. Porém uma infecção na garganta reteve-a no leito.


Nessa altura alguém da corte, talvez o médico, sugeriu dar-lhe de beber um copo de cerveja, bebida vulgar em Inglaterra. D. Catarina de Bragança, com a garganta ardendo e febril pediu em espanhol uma chávena de chá, o que deve ter provocado enorme perturbação entre os presentes, pois não era bebida conhecida na corte, tornando-se depois oficial no Reino Unido. É o que sabemos, desse saboroso líquido introduzido pela rainha na corte inglesa.


O atencioso marido foi visitá-la, ainda convalescente, tendo o casamento tido lugar em 31 de maio de 1662. O enlace foi uma cerimônia privada pelo rito católico e depois, para os convidados, pelo rito da igreja anglicana, como estava estipulado no contrato de casamento.

Embora alguns escritores e cronistas ingleses da época se referissem à fealdade de Catarina, isso não passou de intriga e pura maledicência, pois Carlos II, que sabia apreciar o belo sexo e que recusara outras princesas europeias, nomeadamente duas de Parma, uma por ser como disse “demasiado feia e a irmã por ser demasiado gorda”, também dizia: “detesto as alemãs e as princesas de países frios”.


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D. Catarina estava precisamente no meio. Era oriunda de um país temperado, morena, jovem e relativamente bonita de rosto. Em carta a Clarendon, Carlos II referiu-se à esposa, nestes termos: “Se não pode ser considerada uma grande beleza, tem olhos excelentes. Seu rosto não repele e, se eu sei ser fisionomista, deve ter muita bondade. A conversa é agradável e tem boa voz. Já nos entendemos muito bem e julgo-me feliz”. Logo, o rei mostrou-se satisfeito com sua mulher, embora a achasse muito pequenina.


D. Catarina amou o marido, do primeiro momento até o dia da sua morte (1685). Sobre o amor que lhe dedicou, fala-nos a inglesa, Margaret Campbell Barnes, na obra “With All My Heart: the love story of Catherine of Braganza” (Londres, 1951) e ali nos dá uma visão positiva de um casamento real europeu do séc. 17.

Os primeiros dias de casados foram passados em Hampton Court, que estava luxuosamente mobilado e decorado. D. Catarina também levou móveis, entre eles, preciosos contadores indo-portugueses, o quais nunca se tinham vistos na Inglaterra.


Carlos II de Inglaterra dedicou grande parte da sua vida às favoritas, mais ou menos 20 amantes, e muitas não foram nada simpáticas para com a rainha. Mas D. Catarina com o tempo ganhou uma sabedoria muito especial para lidar com elas.


No cômputo geral, os 23 anos de casamento de D. Catarina de Bragança foi um longo tempo se comparado ao da maioria das princesas do seu tempo, e a prova é que Carlos II foi por diversas vezes instado a se divorciar e não o fez. Não tinha motivos, afirmava, aos que o aconselhavam a dar esse passo. Disse-o mesmo em declarações públicas. À sua maneira respeitou e amou sua rainha.


Depois que ficou viúva, Catarina de Bragança voltando a Portugal foi alvo de grandes manifestações de júbilo, tanto da parte de portugueses como da comunidade inglesa.

Na Inglaterra teve, na despedida, todas as honras prestadas a uma rainha, a que o povo da rua se solidarizou, e trouxe em sua comitiva ingleses e inglesas, que permaneceram vários anos em Portugal e de quem D. Catarina era amiga. 

Afinal, nos costumes e hábitos adquiridos, era mais inglesa que portuguesa.



Uma mulherzinha para casar

Catarina de Bragança foi a quarta filha de D. Luísa de Gusmão (espanhola de nascimento) e do futuro rei D. João IV (1604-1656), o rei da Restauração. O casal teve sete filhos. Dois faleceram ainda bebês ou durante o nascimento e dois adultos, entre eles o herdeiro, D. Jaime.


Como por vezes acontece, dentre sete filhos reais, a coroa acabaria na cabeça do mais novo. Das infantas, apenas sobreviveu D. Catarina, que nasceu no dia de Santa Catarina, a 25 de novembro de 1638, em Vila Viçosa.

A menina foi muito mimada pela mãe e damas da corte. Aos dois anos foi entregue para educação num convento em Alcântara. D. Catarina deve ter aprendido a rezar, a bordar, a ouvir e a aprender rudimentos de música e algumas generalidades sobre História.


Catarina não aprendeu francês ou inglês e deve ter saído do convento para casar uma meia dúzia de vezes. Os únicos homens com quem falou eram da família. Não estava de modo algum preparada para um casamento com um estrangeiro e menos ainda com um inglês, pois não havia nenhuma afinidade entre os dois países.

D. Luísa de Gusmão, já viúva e regente, procurou o melhor casamento para a filha. A diplomacia ditava-lhe uma aliança com a Inglaterra para cimentar a nova dinastia de Bragança, que substituía o período filipino e que ainda nem todos os países tinham reconhecido, bem como a Santa Sé. Por isso foi escolhido Carlos II de Inglaterra.


Com o casamento, o rei da Inglaterra receberia um dote irrecusável de dois milhões de cruzados, a praça de Tânger, na África, e a pequena feitoria na Ilha de Bombaim, na Índia. Essas possessões portuguesas significavam muito para a Inglaterra, que sempre privilegiou os pontos estratégicos, em termos de comércio e guerra.

Dada a crise portuguesa na época, D. Luísa foi a primeira a vender as joias pessoais, que eram muito valiosas, pois ela foi provavelmente a rainha portuguesa que mais rico dote trouxe quando casou. Para completar o dote de D. Catarina foi necessário empenhar pratas, joias e outros tesouros de conventos e igrejas. O Brasil também contribuiu, porque ainda era colônia.


Nas cláusulas do contrato de casamento o dote seria pago em mais do que uma vez, pois era difícil conseguir o montante combinado. Nesse momento, a diplomacia portuguesa prestou um bom serviço.

Francisco de Melo Furtado, mais tarde conde da Ponte e marquês de Sande, tratou do contrato de casamento, assinado em 23 de junho de 1661 e que se revestiu de grandes dificuldades, dada a influência do embaixador da Espanha na Inglaterra, que não podia dizer pior de Portugal e aspecto físico da princesa Catarina.

O casamento teve também o apoio de Luís XIV, por algum interesse, que ofereceu a Carlos II, seu primo, 30 mil pistolas e durante todo o reinado o favoreceu monetariamente por diversas vezes.