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Enquanto judiciário define se Lula vira ministro no Brasil, PF começa a 25ª etapa da Lava Jato na Europa

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(LONDRES) Por Denis Kuck e Cristiane Lebelem - Na manhã de segunda-feira (21), os jornais europeus noticiavam que os escândalos do Brasil chegavam à Europa. O operador financeiro Raul Schmidt Felippe Junior, que estava foragido desde julho de 2015, foi preso pela polícia portuguesa. Schimidt é alvo da 10ª fase da operação e é suspeito de envolvimento em pagamentos de propinas da Petrobras. A fase internacional da investigação, que já leva dois anos e envolve todo o país, ainda segue com a cooperação de Portugal e da Interpol.


Nos últimos dias, as notícias do Brasil ganharam uma velocidade que tornou difícil acompanhar os acontecimentos. Em poucas horas, o judiciário travou uma guerra de limares que davam posse a Lula e também impediam que ele assumisse a Casa Civil como ministro, cargo mais importante da República após a presidência. Grampos com conversas entre ele e a presidente Dilma Rousseff foram revelados, autorizados pelo juiz Sérgio Moro, que conduz a Lava Jato.

Pouco tempo depois da cerimônia de posse, a nomeação de Lula foi suspensa. Houve ainda manifestações de grupos contrários ao impeachment, que embora tenham levado menos gente às ruas do que os protestos contra o governo, demonstram a força de quem é contrário à saída de Dilma Rousseff.


A situação do governo, no entanto, não é nada boa. A imprensa internacional, como “New York Times” e “The Economist”, alertaram no fim de semana para um colapso político. A comissão especial que analisará o pedido de impeachment foi aprovada, por 433 votos a favor e um contra, na Câmara dos Deputados. A comissão conta com 65 nomes, indicados pelos líderes partidários. A aprovação já era esperada e é o seguimento natural do processo, após o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ter aceitado o pedido de impeachment da presidente.

Por outro lado, o presidente da Câmara e deputado do PMDB está sendo investigado pela Lava Jato, acusado de possuir contas fantasmas na Suíça. Agora a discussão sobre o impedimento de Dilma começa para valer no Congresso: a comissão irá decidir se ela deve deixar o cargo. Caso a decisão seja favorável, o plenário da Câmara dos Deputados votará se aceita o impeachment ou não. Depois, a decisão vai para o Senado.


Grampos revelariam tentativa de obstrução à justiça. Governo diz que vazamento foi ilegal


Quinta-feira (17), quatro dias após as grandes manifestações contra o governo que demonstraram a insatisfação de boa parte da população, Lula foi efetivado como ministro da Casa Civil. Pouco tempo depois, no entanto, um juiz da 4ª Vara do Distrito Federal suspendeu a nomeação. A alegação é que, ao assumir o cargo, o ex-presidente estaria atrapalhando o andamento da operação Lava Jato, onde Lula é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. Como ministro, Lula tem direito a foro privilegiado. Ele ainda poderia ser julgado, mas apenas pelo Supremo Tribunal Federal.


No final do dia, a liminar foi cassada. Outras varas de justiça também tentaram impedir a nomeação, mas Tribunais Federais cassaram todas as liminares contra a posse de Lula. Na sexta-feira (18), no entanto, o ministro do STF Gilmar Mendes determinou que o ex-presidente não poderia assumir a Casa Civil e as investigações sobre Lula deveriam se manter no âmbito da Lava Jato, levada a cabo pela 13ª Vara de Curitiba.


O petista ainda pode recorrer da decisão. Para respaldar sua decisão, Mendes argumentou ter visto intenção de Lula em fraudar as investigações sobre ele. Os grampos telefônicos do ex-presidente autorizados por Moro foram um dos motivos que levantaram suspeitas de tentativa de obstrução da justiça.

Em um deles, Lula e Dilma conversam sobre a posse do novo ministro no dia seguinte. Em dado momento, a presidente diz: “Seguinte, eu tô mandando o ‘Messias’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?”.


O diálogo foi interpretado como uma tentativa de impedir uma possível prisão de Lula antes da posse, a partir da qual ele ganharia a prerrogativa do foro. O governo, no entanto, afirmou que o documento seria mandado para o ex-presidente assinar pois ele tinha dito que não poderia comparecer à cerimônia.

Várias conversas de Lula foram divulgadas por Moro para a imprensa, que quebrou o sigilo dos grampos. O governo acusou a medida de inconstitucional, pois juízes de primeira instância não podem liberar grampos de pessoas com prerrogativa de foro, como é o caso de Dilma.


Brasileiros protestam contra impeachment na Europa


Na sexta-feira milhares de pessoas se manifestaram nas ruas de diversas cidades do país contra o impeachment de Dilma Rousseff. Entre as bandeiras dos protestos, críticas a maneira como a Lava Jato vem sendo conduzida e ao juiz Sérgio Moro, que estaria passando por cima da Constituição. Além disso, os presentes no ato atacaram a cobertura da mídia, principalmente da Rede Globo, acusada de ser tendenciosa.


O maior ato aconteceu em São Paulo, na Avenida Paulista, mas também houve grandes manifestações em outras cidades, como Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

Em Lisboa, houve protesto de cerca de 50 brasileiros, segundo a Agência EFE, na praça de Camões. Os manifestantes criticaram o juiz Sergio Moro pelo vazamento de conversas telefônicas entre Dilma e o ex-presidente Lula.

Na capital francesa também houve repercussão e apoio ao governo Dilma em frente à Embaixada, onde um pequeno grupo de manifestantes se reuniu.

Em Londres, alguns brasileiros que vivem na capital inglesa se movimentaram pelas redes sociais com publicações de fotos com a frase “Não vai ter golpe”.