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Rio 2016: Zika, legado, promessas e críticas no caminho

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(RIO DE JANEIRO) - Por Dênis Kuck - A abertura oficial dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro está marcada para 5 de agosto. A competição vai até o dia 21 do mesmo mês. Os Jogos Paralímpicos serão disputados entre os dias 7 e 18 de setembro. Assim como na Copa do Mundo, o período anterior à competição vem sendo marcado por muita polêmica, dúvidas, protestos (embora em menor número do que em 2014), entusiastas e críticos ferrenhos.



Em 2 de outubro de 2009, em Copenhague (Dinamarca), o Rio foi escolhido cidade sede das Olimpíadas, com mais de dois terços dos votos, derrotando Chicago, Madri e Tóquio. Pouco tempo antes, o Brasil tinha ganhado a disputa para organizar a Copa do Mundo.


Na época, o país vivia uma fase de expansão econômica e otimismo. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2008 foi de 5%. No ano seguinte, eclosão da crise internacional, o indicador caiu para 0,2% negativo, mas em 2010 pulou para 7,6%. Já a prévia do PIB de 2015 é de queda de 4%. Para 2016, estimativas recentes do mercado apontam recessão de 3,4%.


O Rio de Janeiro, no entanto, tem uma longa tradição de sediar eventos internacionais de grande porte com sucesso, como foi o caso da Conferência do Clima ECO-92, dos Jogos Pan-Americanos de 2007 e da Jornada Mundial da Juventude.


Parece que algo acontece na cidade que faz as coisas transcorrerem bem, pelo menos no que diz respeito ao clima e ao funcionamento dos eventos. Foi o que ocorreu durante a Copa do Mundo. Cercada de dúvidas e previsões sombrias, a competição foi apontada como uma das melhores Copas da história.


No entanto, o sucesso de algo do tamanho da Rio 2016 não depende apenas da magia de uma cidade. Muitos interesses, legado, obras, esforço e questionamentos estão em jogo.


Zika preocupa; prefeitura minimiza riscos


O surto de zika no Brasil tornou-se um dos assuntos dominantes da mídia nacional nos últimos meses. A situação é considerada grave e a doença ganhou o noticiário internacional. A falta de informações precisas sobre a enfermidade aumenta a preocupação e, às vezes, a disseminação de boatos.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência em saúde pública de interesse internacional devido ao aumento de casos de infecção em diversos países e a uma possível relação da doença com quadros de malformação congênita e síndromes neurológicas, especialmente microcefalia, o que já foi comprovado por alguns estudos.


De acordo com último boletim do Ministério da Saúde, houve 5,640 casos notificados de microcefalia em todo país entre o ano passado até 20 de janeiro de 2016. O governo indica que 583 casos já tiveram confirmação de microcefalia ou outras alterações do sistema nervoso central (4.107 ainda estão em investigação). De acordo com o ministério, as enfermidades foram causadas pelo zika. Outros 950 casos notificados já foram descartados por apresentarem exames normais ou alterações por causas não infecciosas (portanto, sem relação com o vírus da zika).


No Rio de Janeiro, existem atualmente 250 casos de microcefalia ou malformações associados ao zika em investigação. Dois deles foram confirmados e quatro descartados até o momento. Diante do quadro, algumas delegações olímpicas, como a americana, disseram que seus atletas não estavam obrigados a participar dos Jogos casos se sentissem inseguros.


A goleira da seleção americana de futebol, Hope Solo, deu uma das declarações mais enfáticas: “Se precisasse escolher agora, não iria às Olimpíadas. Nunca correria o risco de ter um filho doente.” Já o remador britânico Andrew Triggs, vencedor de dois ouros olímpicos, afirmou que disputará as provas, mas sua mulher ficará em casa: “Para qualquer um que quer uma família, o zika é um perigo real e assustador.”


O Ministério da Saúde diz que o país está preparado para receber turistas e delegações. O Comitê Olímpico Internacional (COI) afirma que vem trabalhando para diminuir o contato de visitantes com focos do mosquito causador do zika, o Aedes Aegypt, que também transmite dengue e chicungunha.


Os médicos esclarecem que o risco maior é para mulheres grávidas, condição improvável para uma atleta de alto nível.

Mas ainda existem muitos pontos a serem elucidados sobre a doença. A prefeitura do Rio de Janeiro afirmou ao BN Notícias em Português que é “importante ressaltar que não há epidemia das doenças” transmitidas pelo mosquito no município. “Em 2015, a cidade registrou o segundo menor número de casos dos últimos cinco anos”, afirma o governo local. O prefeito Eduardo Paes chegou a dizer recentemente que o zika não se tratava de uma “questão olímpica”.

Segundo a prefeitura, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) conta com três mil agentes de vigilância ambiental.


Incidência do mosquito é menor em agosto, dizem especialistas


A prefeitura vem afirmando também que em agosto, por ser inverno, a incidência do mosquito é menor. Apesar disso, o governo municipal diz que na época das Olimpíadas as ações de combate ao inseto serão intensificadas: “Cerca de um mês antes da abertura dos Jogos uma equipe vai percorrer todos os locais de competição para eliminar possíveis focos do vetor e, durante os jogos, uma equipe fixa estará focada nas instalações olímpicas”.


Em 2015, no entanto, o número de casos de dengue registrados no meio do ano foi maior do que no verão. Em agosto, houve 794 casos da doença e, em janeiro, 165, de acordo com a SMS.


Dois cientistas americanos pediram publicamente para que a competição fosse cancelada. “Acolher os Jogos em um lugar transbordante de zika, surto que a Organização Mundial da Saúde Considera uma emergência de saúde pública de importância internacional, é simplesmente irresponsável”, afirmaram em artigo publicado na revista Forbes.


O Ministério do Esporte, no entanto, diz que esta possibilidade não está em discussão. A mídia inglesa noticiou recentemente que membros do COI teriam procurado autoridades de Londres para saber se a cidade poderia assumir a competição devido aos atrasos na preparação da edição 2016. O órgão, no entanto, negou a informação.


O inglês Barney Lankester-Owen, sócio da produtora de vídeo Flow Films, que tem base em Londres e no Rio de Janeiro, acredita que há um certo exagero na maneira como a mídia vem abordando a questão. “Antes dos Jogos em Londres começaram a sair muitas notícias negativas sobre atrasos, que não ia dar certo. Mas no final deu super certo. Todo mundo feliz, as pessoas amigáveis nas ruas, serviços eficientes. Acho que a reação histérica da imprensa sobre o zika também faz parte dessa mesma coisa, todos falando mal de um evento de grande porte”, opina.



Câmara aprova lei que tipifica crime de terrorismo



A Câmara dos Deputados aprovou na semana passada lei que tipifica o crime de terrorismo do Brasil, com penas que vão de 12 a 30 anos de prisão. A implementação da medida está diretamente relacionada à realização dos Jogos Olímpicos e a pressão de organismo internacionais para que o Brasil tivesse uma legislação sobre o assunto.


Mas desde que começou a ser debatida, a lei gerou polêmica e críticas. Partidos de esquerda e movimentos sociais consideravam sua aprovação um risco para a livre manifestação no país, pois o texto da lei era muito abrangente e poderia ser utilizado para criminalizar protestos e movimentos sociais.


O texto que foi aprovado, porém, sofreu uma alteração e excluiu manifestações de caráter político da abrangência da lei. A medida ainda precisa ser aprovada pela presidência da República.


O relator do projeto, Arthur de Oliveira Maia (SD-BA), disse que as mudanças no texto enfraqueceram a lei, mas que o código penal existente pode ser utilizado para outros tipos de crime, como vandalismo. A lei foi proposta pelo próprio governo federal, que elogiou a aprovação da medida e considerava importante maior rigor na legislação em função das Olimpíadas, sempre um alvo em potencial para atos de terror.


Acompanhe outras notícias sobre os Jogos Olímpicos direto do Rio de Janeiro nas próximas edições de BNNP