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Comportamento

(Des)Integração numa nova terra – um entendimento da imigração sob o ponto de vista psicológico

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Imigrantes


(LONDRES) Por Denise Garcia Kalmus - As condições com as quais as pessoas emigram podem variar enormemente. Alguém que possui uma oferta de emprego ou oportunidade de educação está numa situação completamente diferente daquele que foge da pobreza na esperança de encontrar um lugar onde possa sobreviver.


Um imigrante voluntário tem a opção de retornar ao país de origem, que é sem dúvida uma vantagem psíquica enorme, e sua experiência não é tão traumática como a de pessoas que são forçadas a partir, como é caso dos refugiados. Entretanto mudar de país sempre envolve perdas emocionais (e materiais) e sofrimento psíquico, até que se possa adaptar e se integrar à nova terra.


Indivíduos com boa estrutura de ego e capacidade interna de correr riscos e enfrentar solidão possuem geralmente mais condições intrapsíquicas de se integrarem no novo país.



Uma das características mais importantes da maturidade do desenvolvimento emocional é justamente a capacidade de estar só. Dessa forma, o indivíduo lida melhor com as perdas como imigrante, caso contrário, a tendência é de que sentimentos de exclusão e frustração sejam recriados com os nativos da nova terra.


Migrações fazem parte da vida de cada indivíduo, mesmo que ele nunca tenha cruzado nenhuma fronteira nacional. Muitos de nós têm experienciado algum tipo de migração – mudança para outras regiões do mesmo país, do campo para a cidade ou mesmo de residência em determinado ponto de nossas vidas. Podemos ainda dizer que migrações internas são vividas cada vez que um indivíduo passa por mudanças de desenvolvimento.


Não existe uma tendência precondicionada para emigrar, mas existem traços de personalidade com maior predisposição para migrações. Imigrantes também podem ir a países e lugares que consideram, de forma fantasiada, serem locais mais hospitaleiros. Pode haver um desejo inconsciente da procura de proteção e apoio emocional numa mãe terra idealizada.



Há uma importante diferença entre escolha de partir ou ser forçado a partir, se o indivíduo vai para outra terra sem ajuda ou se pode esperar algum tipo de apoio ou estrutura que o auxilie no novo país. Certamente a possibilidade de não poder retornar ao país de origem, como no caso dos refugiados, cria um senso de ruptura muito profundo.


O imigrante, quando muda de país, pode reagir de forma maníaca e seu pesar e dor serão negados, defensiva e inconscientemente, e substituídos por sentimentos de triunfo em relação às pessoas deixadas para trás, que podem ser percebidas como limitadas, incompetentes ou sem coragem para emigrar. Por outro lado, seus compatriotas podem ver o imigrante como alguém que está traindo o seu país.


Ocorre com frequência que num primeiro momento da chegada ao novo país haja uma fase de euforia, de lua de mel, e o imigrante assuma um papel de “turista feliz”, havendo uma supervalorização e idealização do novo mundo. Após essa fase, pode ocorrer uma nostalgia profunda e um intenso luto pelo mundo perdido se estabelece. Então instala-se o medo do desconhecido, solidão profunda e desesperança.



A estabilidade emocional de um indivíduo é colocada à prova na imigração. Dificuldades de elaboração das perdas podem acarretar o desenvolvimento de um aprisionamento do luto e continuará uma busca nostálgica pelos objetos perdidos, desvalorizando seus objetos do presente e tendo uma falta de interesse geral por sua vida. É como uma ferida que se recusa a curar.


Com o tempo, apesar desses estados psíquicos intensos, o imigrante necessita reconhecer e aceitar suas perdas. Torna-se essencial que o trabalho de luto se inicie – pelos objetos perdidos e partes perdidas de si mesmo.


Com a aceitação da perda, o imigrante começa a reconhecer sentimentos previamente dissociados ou negados, que antes eram muito difíceis de lidar. Lenta e progressivamente começará a incorporar os elementos da nova cultura, e a partir da experiência desse sofrimento real poderá recuperar partes perdidas de si mesmo e sendo finalmente capaz de se integrar ao novo mundo.



O imigrante será capaz de se recuperar da experiência traumática e aceitar as perdas do próprio país e dos aspectos bons do mundo externo e de outros indivíduos. Isso levará a um fortalecimento do ego e dos mecanismos de defesa que usará para lidar com as dificuldades, um senso mais desenvolvido de sua identidade, e oferecerá uma oportunidade para autoreavaliação, enriquecimento e renascimento. A integração trará novo sentido em sua vida e resultará num estímulo a sua criatividade.


A integração possibilitará que o imigrante reconheça e sinta gratidão pelo país e sua comunidade que o acolheu e com a consequente aceitação dos aspectos bons e ruins. Ela também possibilitará que continue fiel ao passado, sem esquecer e honrar a terra natal e a cultura, focalizar nos benefícios de sua situação atual, valorizar a adaptação ao novo ambiente, enfatizar novos modos de viver, garantir ganhos de suas relações pessoais e encarar o futuro de forma a se beneficiar de novas oportunidades que a vida lhe oferece.




Denise é psicóloga e psicoterapeuta. Sua experiência clínica inclui atendimento psicológico a imigrantes em instituições brasileiras e latino-americanas em Londres. Atendeu a refugiados e asilados na Cruz Vermelha Britânica. Trabalha com psicoterapia no NHS e em consultório particular.


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