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Um passeio pela Inglaterra da década de 60

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(LONDRES) Por Rafa Maciel - Antes de eu me mudar pra Londres eu não tinha ideia que a maioria das bandas que eu gostava eram daqui. Na minha lista pessoal estão Amy Winehouse, Mumford & Sons e George Ezra (que na realidade descobri depois de ter chego aqui). Na lista de muitos estão Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Queen, Pink Floyd, Genesis, Yes, The Animals e por aí vai... Mas de qualquer forma, eu não tinha noção da importância histórica que a Inglaterra tinha no rock e muito menos da influência a partir de vários movimentos que surgiram por aqui.


O primeiro destes movimentos foi o chamado de “mod”, uma abreviação de modernismo e que iniciou pelo final da década de 50 e primeiros anos de 60. Os jovens que faziam parte desta nova comunidade ou subcultura não queriam mais ouvir a música que os pais estavam ouvindo e passaram a ouvir a música produzida naquela época. A música da época era um jazz mais moderno, que depois deu lugar ao Rhythm & Blues.


Os mods possuíam um jeito muito característico de se vestir: usavam ternos alinhados, geralmente de marca italiana, enquanto as mulheres usavam vestidos, na maioria das vezes com listras e muitas cores – tudo isso também surgiu junto com o rock psicodélico. O meio de locomoção dos mods era a lambreta. Se repararmos com atenção, este movimento chegou no Brasil junto com a Jovem Guarda, pois afinal o movimento cultural brasileiro também misturava moda, música e comportamento e tudo muito parecido com os mods.


Foi o movimento dos mods que serviu de pontapé pra grandes nomes da música como The Kinks, Small Faces e The Who. Estas três bandas são as principais referências musicais do movimento – os mods compartilham inclusive do mesmo símbolo do The Who: o alvo da Força Aérea Britânica.


Alguns anos depois do surgimento dos mods, mais ou menos na metade da década, um segundo movimento cultural estava sendo iniciado em Londres e também influenciou muito no mundo todo. Ele foi batizado de Swinging London. O termo “swinging” teria a conotação de vibrante, descolado, moderno e foi utilizado pela primeira vez por uma jornalista da Vogue dizendo que Londres era (e é ainda?) a cidade mais vibrante do mundo.


Junto com o surgimento dos mods, no final da década de 50, um escocês abriu uma loja de roupas na Carnaby Street, no bairro do Soho, pelo simples fato de que o aluguel era barato devido às condições precárias que a rua se encontrava. No entanto, ele resolveu focar neste novo nicho que estava surgindo no meio da moda. Ele e outros empresários apostaram no novo estilo, a rua toda se especializou no que os mods buscavam e a rua acabou virando o centro de moda pra este movimento. Não só pra Londres mas pro mundo: algumas rádios do Brasil transmitiam o que era tendência no movimento tendo como referência o que estava sendo sucesso na Carnaby Street.


Não demorou muito tempo, claro, pra que os popstars começassem a aparecer pela rua pra fazerem suas compras. Bandas como Rolling Stones, Beatles e Sex Pistols já passaram por ali e os Small Faces tinham o escritório deles na rua (onde hoje é a loja da Puma). Alguns vão lá até hoje em dia. A loja Pretty Green é de propriedade do Liam Gallagher, ex-Oasis. Por falar em Oasis, eles foram os responsáveis por trazer o movimento à tona novamente na década de 90 – em especial na forma de se vestir.


(Os popstars pararam de frequentar a Carnaby Street em 66, quando a revista norte-americana Time publicou uma reportagem especial sobre Londres e o Swinging London. Eles disseram que quem quisesse ver seu popstar favorito quando em Londres bastava visitar a Carnaby Street. Foi o suficiente pros artistas buscarem outros lugares pra fazerem suas compras e fugirem das lentes dos turistas/fãs.)

Um movimento parecido com o dos mods aconteceu na década seguinte, com a chegada do punk rock no norte de Londres. Tudo igual, mas tudo diferente: nova música, novas roupas, novo comportamento e novas (e grandes) motos. Nasciam aí bandas como The Cure, The Clash e Sex Pistols pra impulsionar o punk rock, então nascido nos Estados Unidos.

Isso tudo não é de hoje. Afinal, foi também no Soho que Mozart começou a escrever a sua primeira peça aos oito anos de idade, quando morava na cidade. Dois séculos depois acontece uma revolução na música e moda na cidade e 50 anos mais tarde cá estamos revisitando todos estes fatos e aplaudindo de pé o que está nascendo agora na cidade. Uma cena não tão influente como antigamente, mas que ainda tem grandes nomes como Ed Sheeran, Adele e Sam Smith.



Rafa Macial também guia um passeio semanal pelo Soho e Camden Town contando histórias principalmente da década de 60 e das bandas mais famosas da Inglaterra. www.j.mp/RockTche