12 °C
Home

Viajando na maionese

|

Imagem3


(LONDRES) Da redação - Para escrever literatura infantil é preciso despertar a criança que existe dentro de nós. Mas não se pode ter barreiras, o ideal é “viajar na maionese”, diz o ilustrador Fernando Luiz, ou apenas Fê. Paulista de Santos, ele se mudou para Londres há cerca de 10 anos e aqui começou sua carreira de autor para crianças, ou melhor, “pequeninos”, maneira pela qual o artista gosta de chamar seu público.


E como um pequenino, Fê é inquieto, muda de assunto rapidamente e facilmente se esquece do que estava falando. Seu texto e ilustrações remetem a um mundo mágico, onde o real se confunde com a fantasia.


“Quando uma criança desenha, existe algo chamado proporção emocional. Por exemplo, os pais ficam muito maiores do que o restante das coisas”, diz. As ilustrações de Fê guardam um pouco dessa característica: bichos enormes, crianças com cabeças gigantes, homens com pernas desproporcionais. Algo que ele atribuiu em parte a sua essência latina, mais emocional.


“Foi engraçado, pois quando comecei a procurar trabalho em Londres disseram que meus desenhos eram um pouco assustadores”, relembra. O escritor lançou vários livros infantojuvenis desde que se mudou para a capital britânica. O primeiro, em 2011, foi “O reizinho que só falava sim”. Em 2016, será a vez de “A menina que engoliu o mundo” e “Cada um no seu canto com seu encanto”, ambos pela editora Iluminuras.


“O primeiro fala de uma menina de sete anos que era obrigada pela mãe a comer jiló. Ao ouvir que era preciso experimentar a comida, ela resolve então engolir o mundo”, explica Fê.


O segundo parte de uma ideia original e bonita. “A lua cheia resolve convidar o sol para conhecer pela primeira vez as criaturas da noite. O sol aceita e diminui sua luz para poder ser apresentado ao mundo novo”, conta.


A carreira de ilustrador de Fê começou por acaso. Formado em arquitetura, ele “estava de saco cheio” de trabalhar em escritório e, por incentivo de uma amiga, resolveu participar de um concurso da Folha de S.Paulo para cartunistas. Acabou se inscrevendo no último dia. “Estava caindo um temporal”, recorda.


Gostar de ler e desenhar, Fê sempre gostou, desde pequeno. Por que então não tentar? Ele acabou passando por várias etapas da competição e quando viu estava fazendo trabalhos para o jornal. “Acabei sendo contratado de vez. Um dia me perguntaram se eu podia ilustrar a coluna do Zé Simão. Até hoje eu desenho para ele”, diz.


Quando se mudou para Londres, Fê só ilustrava trabalhos de outras pessoas, como livros e revistas. No entanto, mais uma vez incentivado por uma amiga, começou a escrever para crianças, quer dizer, “pequeninos”.


“Me mudei para Londres em busca de coisas novas, estou sempre atrás de desafios. Não sou uma pessoa presa”, afirma. Fê explica que seus livros partem sempre de uma narrativa visual. “O texto vem da imagem e não o contrário”. A paixão do paulista pelos desenhos é tanta que ele tatuou algumas de suas ilustrações nas mãos e pescoço, como um tigre, uma anta e uma girafa.


A inspiração surge das coisas que o rodeiam. “A ideia para “A pinta fujona”, por exemplo, veio quando ele esperava um trem em Crystal Palace: “Vi uma joaninha e fiquei imaginando o que aconteceria se uma de suas pintas fugisse”.


Mas até as ideias virarem livro é preciso comprometimento, ressalta o ilustrador. “Treino muito, leio bastante, é um trabalho sério”. A obra do artista pode ser conferida no site www.feilustrador.com. Recentemente, a editora on-line Miúda Books (www.miudabooks.co.uk), criada por uma portuguesa que vive em Londres, disponibilizou alguns dos livros de Fê.


O ilustrador é ainda grande incentivador da leitura e defende um investimento maior em educação. “Crianças criativas se tornarão adultos mais criativos”, finaliza.




Imagem