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Reino Unido entra na guerra da Síria e caças efetuam primeiros ataques

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(LONDRES) Da redação - O parlamento britânico aprovou na semana passada o bombardeio de alvos do grupo extremista Estado Islâmico (EI) na Síria pela força aérea do Reino Unido. O país vinha realizando ataques no Iraque, mas o emprego de força no território sírio não tinha sido autorizado pela Câmara dos Comuns no passado.



Apenas uma hora depois de o parlamento dar o sinal verde para a entrada do Reino Unido na guerra, caças partiram de base britânica no Chipre em direção à Síria. Segundo as autoridades, a primeira missão da força aérea era atingir uma refinaria de petróleo, comandada pelo grupo terrorista. De acordo com a versão oficial, a operação foi bem-sucedida e não houve baixa de civis.



Para Maurício Santoro, cientista político e professor de relações internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), a entrada britânica no conflito não mudará o atual cenário da guerra, que se arrasta por cinco anos sem previsão de fim. Segundo ele, a participação do Reino Unido no conflito é mais importante para o próprio país do que para a resolução do conflito.



“A contribuição britânica para a coalizão pouco muda o cenário local. Os ataques aéreos levaram à perda de parte do território controlado pelo Estado Islâmico, mas não destruiu sua capacidade econômica ou militar. É difícil que isso aconteça simplesmente com os bombardeios, sem a presença de tropas terrestres”, afirma.


Santoro lembra que o parlamento britânico se recusou a bombardear a Síria há dois anos em represália ao uso de armas químicas pelo governo do presidente Bashar al-Assad.


“Foi um raro exemplo de derrota para o primeiro-ministro David Cameron numa votação desse tipo. Era o peso da guerra do Iraque e do trauma com aquele conflito. Agora o cenário é diferente, sobretudo após os atentados do Estado Islâmico em Paris”, diz.



David Cameron defendeu os ataques e disse que a partir de agora o país está mais seguro. Os defensores do ataque argumentam que o Estado Islâmico é uma ameaça ao Oriente Médio e à Europa. Os parlamentares que votaram contra os bombardeios, por outro lado, dizem que os ataques vão tornar o Reino Unido um alvo do terrorismo e terão pouca utilidade.


O líder trabalhista, Jeremy Corbyn, foi contra os ataques, mas liberou o voto da bancada e 66 deputados do seu partido apoiaram a entrada do Reino Unido na guerra. Alguns parlamentares, que votaram a favor dos ataques, chegaram a sofrer ameaças e receberam mensagens agressivas pelas redes sociais.



Segundo o professor da UERJ, a preocupação faz sentido. “Uma das razões que levaram o Estado Islâmico a atacar a França e a Rússia foi a decisão desses dois países de enfrentar militarmente o grupo. A entrada britânica na coalizão também cria esse risco”.



Santoro, no entanto, afirma que o sentimento de proteger a Europa é uma razão de peso no debate agora, mas algo sujeito à debate. “A Alemanha, com todo seu compromisso com o projeto de integração europeu, optou por não participar dos bombardeios à Síria e ao Iraque”, pondera.


Ataque terrestre é pouco provável


Com a falta de solução pacífica para o conflito na Síria, que envolve forças do regime de Assad, rebeldes moderados e grupos extremistas como o Estado Islâmico, que controla vastas áreas do país e do Iraque, muitos analistas passaram a considerar a hipótese de uma ocupação terrestre.



Para Santoro, no entanto, essa possibilidade ainda está longe de acontecer: “O Conselho de Segurança da ONU autorizou por unanimidade os ataques ao Estado Islâmico, mas é pouco provável que o envio de uma grande força terrestre obtivesse apoio da população na Europa e nos Estados Unidos, justamente pelo desgaste e rejeição após 15 anos de guerra no Afeganistão e Iraque. Conflitos longos, impopulares, em meio a crises econômicas. Não há entusiasmo por um novo envolvimento de vários anos no Oriente Médio, mesmo diante da carnificina em Paris”.