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Mães que tiveram filhos assassinados em favelas pedem justiça no Reino Unido

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Terezinha e Ana Paula

(LONDRES) Por Denis Kuck - A campanha Jovem Negro Vivo, promovida pela Anistia Internacional (AI), trouxe ao Reino Unido duas mães com uma história em comum, Terezinha de Jesus (40) e Ana Paula Oliveira (39). As duas são moradoras do Rio de Janeiro e tiveram os filhos mortos em operações da Polícia Militar em favelas cariocas.


Terezinha, mãe de Eduardo de Jesus, e Ana Paula, de Jonatha de Oliveira Lima, visitaram Holanda, Reino Unido, Suíça e Espanha. “A campanha Jovem Negro Vivo, lançada no ano passado, pretende despertar a atenção para urgência da adoção de medidas que coloquem um fim aos assassinatos cometidos pela polícia”, afirmou a organização. Segundo a AI é importante gerar um amplo debate sobre o alto número de jovens assassinados no Brasil.


Na capital britânica, as duas encontraram-se com o embaixador brasileiro em Londres, Eduardo dos Santos, membros de associações de direitos humanos e jornalistas de veículos como BBC e The Guardian.
“A campanha foi muito positiva e todos se comoveram com a situação. Terezinha e Ana Paula sofreram ao contar sua história várias vezes, mas estão determinadas a falar o máximo que puderem sobre o que aconteceu para evitar que isso ocorra com outras famílias”, conta Naomi Westland, representante da Anistia Internacional no Reino Unido.


Eduardo (10) foi morto em frente a sua casa, no Complexo do Alemão, em 2 de abril de 2015. Segundo testemunhas, ele estava brincando com o celular, que teria sido confundido com uma arma pela polícia. Um inquérito da Polícia Civil afirmou que os policiais agiram em legítima defesa, pois reagiram ao ser atacados por traficantes.


A mãe do menino contou na época que o policial que acertou o tiro no filho ameaçou disparar contra ela. Em desespero, ela disse ao policial: "Vocês mataram meu filho". Segundo seu relato, o policial respondeu: “Já que matei o filho, a gente também pode matar a mãe”.


O Ministério Público do Rio de Janeiro não aceitou o inquérito, pediu a reabertura do caso e denunciou o policial autor do disparo por homicídio. De acordo com a mãe, não houve confronto entre criminosos e forças de segurança na hora em que Eduardo foi baleado.


Johnatha (19) foi morto em 14 de maio de 2014, na favela de Manguinhos, por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Após deixar a namorada em casa e se dirigir para a casa da avó, ele se deparou com uma confusão entre policiais e crianças, que reclamavam pois a grama de um campo de futebol estava sendo removida.


Um policial atirou para o ar com a intenção de dispersar o grupo, outro agente disparou na direção das crianças e adolescentes, acertando Johnatha nas costas. A investigação sobre o caso ainda está em andamento.


“Os dois casos são representativos da realidade da violência policial em favelas. Em ambos a polícia tenta justificar as mortes, pois as vítimas teriam resistido. Mas não existe legítima defesa quando um garoto de 10 anos é morto brincando com celular e um jovem desarmado é baleado pelas costas”, afirma Renata Neder, conselheira de direitos humanos da Anistia Internacional, que acompanhou as duas mães na viagem.