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Pelas mãos de um brasileiro, o temido vírus Ebola foi transportado em Londres

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Foto Emerson

(LONDRES) Por Denis Kuck - O paranaense Emerson Anselmo não é um simples courier. Em sua trajetória pelas ruas de Londres ele já transportou até mesmo um coração para ser transplantado e uma cabeça humana. Em sua moto, uma bela e potente Honda NC750X, no lugar de levar pizzas, comida indiana ou documentos, ele carrega amostras de sangue, e a esperança de muita gente através do material transportado.


A rotina deste trabalho não assusta, mas no dia 27 de outubro foi diferente, mesmo para alguém acostumado a cargas pouco convencionais.
Nessa data, do Royal Free até um laboratório em Colindale, num trajeto que durou 20 minutos, ele levou em sua moto o vírus ebola. Emerson trabalha para uma empresa especializada em transportar material médico e cirúrgico. “Fui pegar uma encomenda no Royal Free Hospital, mas não sabia o que era, para mim não se tratava de nada especial”, conta o motoboy.


Mas logo ao chegar ao local, o paranaense de Janiópolis, cidade de 6 mil habitantes, batizada em homenagem ao ex-presidente Jânio Quadros, percebeu que havia algo diferente. "Tive que ir até o 12º andar, algo que nunca aconteceu. Passei por um segurança que me pediu identificação, algo que também nunca aconteceu. Depois, por mais um segurança. Comecei a suspeitar de algo”, relata.
Emerson chegou então num pavimento completamente isolado, todo branco e minuciosamente limpo. As suspeitas só aumentavam, até que o humor tipicamente inglês deu a certeza de que sua missão naquele dia era diferente.


“Uma enfermeira entregou-me a caixa com o material e falou, sarcasticamente, “be carefull”. Perguntei o que era e ela me falou que se tratava do vírus ebola”, explica o courier, que se mudou para Londres há cerca de dois anos e meio.


caixa


O conselho foi levado a sério. Em 2014, um surto do vírus atingiu a África Ocidental e matou cerca de 6.500 pessoas (de um total de 18 mil casos identificados) em Serra Leoa, Guiné e Libéria. O índice de letalidade do ebola é altíssimo. A doença não tem cura e mata em poucas semanas.
A Organização Mundial de Saúde decretou a epidemia estado de emergência internacional. A designação só havia sido usada duas vezes antes: para a gripe Suína (2009) e para o ressurgimento da Pólio (2014).
Um roteiro de filme de ficção científica começou a passar na cabeça de Emerson: “Imagina se alguém rouba o material, pega o vírus, espalha no metrô de Londres? ” O entregador sabia que cientificamente isso não era uma ameaça real, mas prevenir é melhor do que remediar. “O trânsito estava bom no dia, mas eu fui dirigindo bem devagar, com muito cuidado”, relembra.
O vírus transportado por Emerson, ao que tudo indica, estava no corpo da enfermeira escocesa Pauline Cafferkey, que fora internada no Royal Free Hospital no início de outubro por suspeitas de uma recaída do ebola, que depois se confirmaram.


Ebola


Cafferkey, que trabalhou como enfermeira voluntária em Serra Leoa durante o surto da doença, contraiu o vírus no final do ano passado. Na ocasião, ela foi levada para o Reino Unido, onde deu entrada no Royal Free Hospital. Após tratamento experimental, foi considerada curada e recebeu alta. Alguns meses depois, no entanto, sofreu um caso raro de reincidência do vírus. Chegou a ficar em estado crítico, recuperou-se e retornou para casa recentemente.
Mas falta contar a história da cabeça que Emerson transportou: “Às vezes, eu levo partes do corpo humano de mortuários para estudo em universidades. Nessa vez, reparei que o material era pesado e ficou batendo de um lado para o outro dentro de uma caixa enquanto dirigia. Ao chegar, a pessoa que me recebeu perguntou se eu queria ver o que tinha dentro”. Emerson confessa que não se assustou com o conteúdo. “Trabalhei como cinegrafista durante alguns anos em Maringá e cobri muitos acidentes de carro”.


É justamente para a cidade do Paraná que o courier e a esposa, a esteticista Janice Abegg, pretendem se mudar daqui a alguns anos. O casal, que morou quase uma década em Portugal, quer ter filhos em Londres e juntar uma grana para voltar ao Brasil em 2018. A ideia é aposentar a moto, pelo menos para o transporte de cargas perigosas. “Quero abrir um pub”, sonha Emerson.


Casal