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Faltam políticas públicas para os imigrantes na Europa, afirmam estudiosos

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(LONDRES) Denis Kuck - Apesar da imigração de latinos e brasileiros para o Reino Unido e Europa estar crescendo nos últimos anos, isso não se traduz na construção de políticas públicas específicas para essa comunidade. A constatação é da professora da University of Southampton Ana Margheritis, que participou na quinta-feira passada de um simpósio em Londres para discutir a imigração latino-americana na Europa.
O fórum Managing Global Migration: New Perspectives from Latin America and Europe, iniciatica do Institute of Latin American Studies, foi realizado na University of London e reuniu especialistas no tema.
“Houve uma mudança na rota dos imigrantes nos últimos 20 anos, que deixaram de ir tanto para os Estados Unidos e estão escolhendo a Europa. Mas o crescimento da comunidade no exterior não vem acompanhado de um aumento do lobby em nome dela. Não existem políticas nos países de origem para esses imigrantes, eles não estão na agenda pública”, afirma Ana.
No caso do Brasil, uma das razões para isso é que os residentes no exterior só podem votar para presidente e, além disso, a participação da comunidade é pequena nas urnas. Na América Latina, o México é um país que estuda estender o voto no exterior para eleições locais.
“Os imigrantes não se engajam e não conseguem pressionar o governo. Nessa caso, as distâncias ainda contam muito”, diz Ana, que lançou recentemente o livro “Migration Governance across Regions”. Para a professora, o governo brasileiro não mantém diálogo com as instituições ligadas aos imigrantes, como a igreja.
Outro assunto discutido no simpósio foi a retórica em relação aos imigrantes, que muitas vezes é diferente do que ocorre na prática. Maurizio Ambrosini, da Universidade de Milão, lembrou o caso de Itália e afirmou que o país abriu milhões de vagas para imigrantes nas últimas décadas.
“Quem poderia esperar isso? A inserção do imigrante é mais tolerante do que a retórica, o que ajuda a construir uma sociedade multiétnica”, argumenta.
Apesar disso, os especialistas concordam que existe um aumento do discurso anti-imigração e de partidos extremistas. Além disso, ainda falta uma maior participação social e política dos imigrantes.
Segundo Andrew Geddes, professor da University of Sheffield, “a percepção é diferente da realidade”, pois a maioria dos imigrantes vem para trabalhar e conseguem se encaixar na sociedade, mas a “impressão que fica são de botes chegando pelo Mediterrâneo”.
Para os especialistas, é difícil definir exatamente onde começa a construção da imagem dos imigrantes. “Os partidos influenciam a opinião pública, que também influenciam os partidos”, diz a professora Laura Morales, da University of Leicester. No caso do Reino Unido, no entanto, ela diz que a mídia pressiona políticos e população a terem uma visão negativa da imigração.


Simpósio



Estado do Imigrante


Em 2006, o jornalista Rui Martins e a campanha Brasileirinhos Apátridas propuseram a criação do Estado do Imigrante, instituição que teria poder legislativo e executivo.
Segundo os integrantes do movimento, o Estado do Imigrante possibilitaria a comunidade de brasileiros no exterior assumir a solução de seus problemas e reivindicações, num exercício autônomo de cidadania. De acordo com o movimento, antes da crise financeira de 2009 o número de imigrantes brasileiros no exterior era de mais de quatro milhões de pessoas, que enviavam para o país entre cinco e sete bilhões de dólares anuais.
Em 2013, o jornalista Rui Martins anunciou que deixaria o movimento por questões de trabalho e a campanha perdeu continuidade. O Senador Cristovam Buarque chegou a propor uma emenda constitucional criando o Estado do Imigrante. No Ministério das Relações Exteriores, já existe a Subsecretaria-Geral das Comunidade Brasileiras no Exterior.
Os Brasileirinhos Apátridas foi um movimento que pediu a a restituição da nacionalidade brasileira nata aos filhos de imigrantes que nasceram fora do país, o que foi alcançado por meio da Emenda Constitucional 54/07.
Em muitos países europeus, para um indivíduo ser considerado cidadão é preciso ter laços parentais e não apenas nascer no território. Na época, o Brasil tinha alterado sua lei e não considerava mais quem nascesse no exterior cidadão do país. Por isso, começou a nascer uma geração de crianças apátridas no exterior.