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Quem é o brasileiro no Reino Unido? Pesquisa aponta um novo perfil do imigrante

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(LONDRES) Denis Kuck e Cristiane Lebelem - O perfil médio do imigrante brasileiro no Reino Unido mudou segundo estudo feito pelo Grupo de Estudos sobre Brasileiros no Reino Unido (GEB), encabeçado pelas pesquisadoras Yara Evans da Queens Mary University of London e Ana Beatriz Barbosa de Souza da Oxford Brookes University, divulgado na semana passada na capital britânica.


Atualmente, o brasileiro que vem para o Reino Unido tem nível educacional mais alto e não busca apenas dinheiro, mas “experiência de vida”. Segundo o relatório, o novo imigrante não se importa em cair momentaneamente algumas posições na pirâmide social. O estudo diz ainda que o brasileiro está mais enraizado e integrado à sociedade britânica. Além disso não tem previsão de retorno ao país.
Os responsáveis pela pesquisa ressaltam que o imigrante sem educação formal, que geralmente vem ao Reino Unido ganhar dinheiro para depois voltar, ainda existe, mas já não é mais a maioria. Muito embora ainda se note que existe a mão de obra de brasileiros nos setores básicos de serviços, como limpeza e alimentação, e em geral sem contrato de trabalho permanente.
Segundo o estudo do GEB, grupo formado por acadêmicos brasileiros ligados a universidades britânicas, o cenário tem se modificado a partir da ascensão da classe C no Brasil e um controle de imigração mais rígido por parte do governo britânico.
A pesquisa foi feita entre setembro de 2013 e fevereiro de 2014 com base em 700 questionários preenchidos na internet e em estabelecimentos que oferecem serviços a brasileiros, como representações diplomáticas. Participaram apenas maiores de 18 anos, com permanência no Reino Unido por pelo menos seis meses da data de início da pesquisa.
A maior parte dos entrevistados (34%) afirmou ter deixado o Brasil em busca de experiência de vida/cultural, seguida por quem saiu do país para fazer curso de idioma. Os que responderam ter emigrado para ganhar dinheiro e voltar ao Brasil apareceram em terceiro (17%).
Quatro em cada dez entrevistados disseram ter escolhido o Reino Unido por motivos relacionados à aventura/língua/cultura/qualidade de vida (39,3%). A segunda razão mais citada foi acompanhar/unir-se à família (13,1%).


Segundo o Consulado-Geral do Brasil em Londres, não há dados oficiais sobre o número de brasileiros vivendo atualmente no Reino Unido. De acordo com o órgão, estimativas não oficiais sugerem uma comunidade entre 140 e 150 mil pessoas, o que faria do Reino Unido o terceiro destino mais procurado por brasileiros na Europa, atrás de Portugal e Espanha. Algumas organizações falam em número muito maior, que chegaria a 350 mil, incluindo aqueles que estão em situação irregular ou possuem dupla cidadania.


A pesquisa do GEB demonstra que três quartos dos entrevistados (73%) afirmaram ter pelo menos iniciado o nível superior no Brasil, antes de se mudarem para o Reino Unido. A maioria tem entre 30 e 39 anos, é casada (67%) e não tem filhos (55%). Sudeste e Sul são os principais polos de imigração. Somente de São Paulo vem 31% dos imigrantes.


O controle maior do Reino Unido em relação à imigração também se reflete no perfil dos brasileiros que vivem no país. A maioria dos entrevistados (34%) disse que possui passaporte europeu por descendência (34%). Outros 22% têm passaporte europeu por união, enquanto 11% receberam visto de trabalho e residência, 8% são estudantes e 5% disseram estar no país sem visto. Somente 1% afirmou ter apenas visto de turista. A maior parte dos entrevistados disse viver no Reino Unido entre 5 a 10 anos (35%), seguida por quem está no país entre 10 e 20 anos (24%).


Segundo o levantamento, pouco mais da metade dos imigrantes brasileiros exercia atividade remunerada durante o período de realização da pesquisa. Além disso um quarto (22%) trabalhava e estudava. De acordo com as respostas, 14% dos entrevistados afirmou não trabalhar e 12% disse que se dedicava apenas aos estudos. Um quarto dos entrevistados trabalhava no setor de negócios/administração, seguido por serviços ao consumidor (12,2%) e limpeza (11.9%).
Dentre as queixas, considerando que os entrevistados optaram por mais de uma resposta, os números mostram que para 50% o custo de vida é uma das grandes dificuldades; seguido por solidão (28%); problemas com a língua, (26%); moradia (25%); ainda segue o desafio da integração à sociedade britânica (23%).



Para os brasileiros, as dificuldades em viver no Reino Unido podem ser hierarquizadas da seguinte forma:


1º Custo de vida
2º Solidão
3º Dificuldades em se comunicar em inglês
4º Condições de moradia
5º Dificuldade de integração à sociedade britânica


A contadora Nara Riberiro Fillipon, que vive em Londres há 19 anos, conta que se identificou com o resultado da pesquisa. “O custo de vida é ainda um dos pontos que faz ser muito difícil viver em Londres”, confirma. Nara, que participa ativamente da comunidade de brasileiros na capital britânica, é um dos casos de imigrantes de uma geração anterior, que chegou ao Reino Unido e teve que batalhar muito para alcançar uma boa posição e reconhecimento profissional.


“Quando cheguei aqui eu tinha um inglês muito básico e fui trabalhar num café, lavando pratos; depois trabalhei numa loja, enquanto seguia focando nos estudos e procurava me estabelecer”. Ela conta que tem dupla cidadania, e quando chegou em Londres já tinha o passaporte italiano, o que lhe deu condições de trabalhar.


Atualmente, Nara faz consultoria na área de orçamento público no setor de saúde e segurança pública do Reino Unido. Já tem uma qualificação importante, é Part-Qualified (Finalist) membro do Acca - Association of Certified Chartered Accountants; faz parte de um grupo de brasileiros qualificados no mercado de trabalho britânico, o que confirma outra faceta do perfil, o dos profissionais que alcançam bons postos de trabalho internacionalmente.


A pesquisa revelou um novo cenário de perspectivas ao trabalhador brasileiro. Um dos pontos importantes, que já foi bastante pesquisado e continua sendo, deve ser analisado: a realidade dos brasileiros que, com a massa de imigrantes de outros países principalmente os latinos e do leste europeu, têm a mão de obra explorada no mercado de trabalho, submetendo-se a subempregos e às condições difíceis de sobrevivência.


“Mesmo os que chegam com uma boa qualificação do Brasil tem que se adaptar e começar em empregos mais simples”, conta a professora Yara Evans. “Quanto mais tempo insistir no desafio da adaptação mais chance tem de progredir e de conseguir uma posição na própria área de atuação, o que pode levar até uma década”, relata.


Para o Consulado-Geral do Brasil em Londres, o resultado da pesquisa ajuda a entender melhor o perfil e as necessidades do cidadão brasileiro no Reino Unido. “É de vital importância para compreender melhor o perfil da comunidade brasileira e aprimorar suporte e serviços”, confirmou a Embaixadora Maria De Lujan Caputo Winkle.