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Depois da tragédia, o mundo se mobiliza - Reino Unido avisa que vai receber 20 mil refugiados

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(LONDRES) Por Cristiane Lebelem - Durante toda semana, a foto do menino sírio Aylan al Kurdi (3), encontrado morto numa praia da Turquia quando tentava fugir com sua família para uma lugar tranquilo comoveu o mundo. Até então, a ONU calculava que pelo menos 365 mil pessoas atravessaram o Mar Mediterrâneo em direção à Europa, fugindo do conflito. Na contabilidade trágica, os números revelam quase 3 mil mortos, e alguns ainda passaram despercebidos.


Pelas redes sociais, imprensa ou simplesmente nas rodas de conversa, as pessoas sensibilizadas decidiram tomar uma atitude, sem que seus governos tivessem uma posição oficial diante das mazelas apresentadas nos últimos meses, quando milhares de pessoas tentam escapar para algum canto da Europa em busca de alívio, paz, comida e teto.


Durante todo o fim de semana, europeus de diversos países, especialmente os alemães, noruegueses, húngaros e britânicos desdobraram-se em angariar doações, buscar pessoas no meio caminho, oferecer espaços nas próprias casas e assim por diante. O Vaticano está recebendo refugiados que chegam à Itália, e o papa Francisco também pediu às paróquias que façam o mesmo.


Enquanto diversos povos se voltam para a Europa em busca de ajuda humanitária, surgem diversas questões políticas e de relações internacionais a ser respondidas. A Alemanha divulgou no começo da semana que terá disponível cerca de 6 milhões de euros para responder aos asilos.


Para os especialistas, todo empenho alemão em ajudar neste momento não é uma novidade, “é o país mais rico da Europa e com um movimento anti-imigração e anti-islâmico que vem crescendo. Sabe-se que ele quer aplacar os países mulçumanos. E ninguém na Europa tem um plano ou uma estratégia para o problema”, afirma Kamal Alam, especialista e consultor para assuntos da Síria do Instituto Statecraft no Reino Unido.


Por que as pessoas estão desesperadas para sair da Síria?


O país está em Guerra Civil, desde 2011, quando o regime de Bashar al Assad concedeu autonomia para áreas curdas do país. Foi o caso de Kobani, cidade onde vivia a família Kurdi. Em 2014, esta cidade foi alvo de ataque do ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh), e o fato é que não se pode contar com a ajuda dos países da região.


A Turquia poderia ter ajudado, pois suas forças estavam do outro lado da fronteira, a poucos quilômetros, mas nada fez para impedir o avanço dos extremistas. De certa forma, o país não se envolve com a Guerra da Síria. Por outro lado, já recebeu mais de um milhão de refugiados e construiu alguns campos para os imigrantes. A mira da Turquia é o fim do regime de Bashar al Assad e o enfraquecimento dos curdos.


De acordo com os últimos números das Nações Unidas, O Líbano recebeu mais de 1,1 milhão de refugiados sírios, ou seja, 1 em cada 4 pessoas no país; a Jordânia abrigou 650 mil; enquanto que o Egito está com cerca de 100 mil sírios. Como o Iêmen e Iraque estão em guerra, a quantidade de refugiados é menor, mas ainda assim, o Iraque recebeu 250 mil refugiados. Esses números obviamente são mais do que qualquer país da Europa. Só nos quatro primeiros meses deste ano, aumentou em 80% a quantidade de asilo na União Europeia, a maioria dos pedidos tem origem na Síria e em Kosovo.
De acordo com a proposta do plano de emergência da Comissão Europeia, Portugal deve receber mais 3.074 refugiados, quase 5 mil ao todo. O presidente da Comissão divulgou que até o fim desta semana serão contabilizados mais de 120 mil refugiados pelos estados-membros, somando-se esse número aos 40 mil que já entraram.
Muitos defendem que a solução para o problema não é simplesmente buscar um lugar para os refugiados. “Basta olhar para o fato de que muitos mulçumanos que estão estabelecidos na Europa, não estão integrados”, é o que afirma Alam. E de quebra existe outro fator de acomodação que são as questões ideológicas e religiosas, que podem trazem outros problemas, como mais violência, alerta Alam, “esses imigrantes fogem da guerra na Síria, Líbia e Somália, e naturalmente, trazem consigo esse sentimento”. “Recebê-los não é a solução, só vai encorajar mais fugas e mais mortes”, adverte o especialista.
Sobretudo há de se reconhecer que a própria Síria recebeu muitos refugiados nos últimos anos, sempre foi tida como um país de portas abertas no mundo árabe. Do ponto de vista militar, de acordo com especialistas, a única saída seria criar um bloco forte no Mediterrâneo para conter o terrorismo.


Em que ponto está raiz do problema?
Os conflitos na região nem sempre estiveram baseados nos temas religiosos, há muita coisas que devem ser analisadas juntamente às tragédias migratórias. Mas ainda fica uma pergunta para ser respondida, e se os membros do intitulado Estado Islâmico estivessem destruindo as estruturas econômicas do mundo árabe, e não matando inocentes, e devastando a história da humanidade, será que os países vizinhos do Oriente Médio e outras potências interviriam na Síria, evitando que milhares de pessoas procurassem abrigo em outros lugares?