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Saiba por que usamos palavras inglesas mesmo quando falamos em português

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"Sorry, mas eu tô busy no UK!"


LONDRES por Julio Rocha - Quando criança, lembro-me da minha tia Marta que havia migrado para os Estados Unidos voltando ao Brasil pela primeira vez. Eram tempos difíceis para um País que estava depondo o seu primeiro presidente eleito democraticamente após décadas de ditadura. Palavras estrangeiras misturadas à nossa língua como "nice" ou "all right" vieram na bagagem dela.


Esta novidade virou motivo de piadas dentro da família. Minha mãe chegou a repetir a frase, dos tempos de Carmen Miranda, dizendo que ela voltara “americanizada”. Com o passar dos tempos alimentei essa resistência contra o anglicismo imposto na única herança de que tenho a certeza que passarei para outras gerações: a língua portuguesa.


Aquela resistência juvenil chegou a me acompanhar até a fase adulta. Mas tudo mudou quando conheci o outro lado dessa história. Vim morar em Londres e em poucos dias soltava, automaticamente, um "sorry" ou “excuse me" para me desculpar ou pedir licença para passar nas ruas. Para dizer que eu estava ocupado, um simples "tô busy" ou, até mesmo, “tô busyssimo” já era compreensível aos nossos compatriotas por aqui.


Sem perceber que isso acontecera num processo natural, em junho de 2013 voltei à minha cidade maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro, num período de muita instabilidade política, protestos e gritos de #VemPraRua que ecoavam as ruas e as redes sociais da nação. Manifestações nunca antes vistas desde os tempos dos “caras pintadas”.


Tudo ia bem com os amigos até que numa mesa de um restaurante em Ipanema fui repreendido pelo meu amigo Waldir: “-Deixa de querer aparecer e para de usar essas palavras de fora.” Estava acontecendo comigo o que aconteceu com minha tia dos “States”, anos atrás.


No Brasil também é comum o uso de estrangeirismos como "shopping", "hotdog", “mouse”, “self-service”. Mas nem tudo o que se fala por aqui, pode ser falado por lá. Estaríamos sofrendo algum tipo de preconceito linguístico quando voltamos à nossa terra? Será que nós, imigrantes, criamos um novo dialeto por aqui?


Quem se apropria dessas palavras, geralmente, não sofre preconceito linguístico. Mas é claro, o preconceito varia de acordo com as situações de fala, com o ambiente e com os interlocutores envolvidos.


Procurada pela equipe do Brazilian News, a carioca Roberta Pinheiro Amorim, graduada em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), esclarece que o que pode acontecer, quando um brasileiro mora em outro país e volta para sua terra natal, é uma apropriação do vocabulário que usava onde morava. Por exemplo: você mora em Londres, volta para o Brasil. É comum se valer de palavras inglesas - por hábito, por já pensar em inglês ou pelo simples fato de esquecer a palavra correspondente em português. Sim, isso acontece!


“Não acredito que, se dois brasileiros que estão em outro país utilizarem entre si um neologismo como ‘busyssimo’, chega a ser dialeto, pois não acarretou nenhuma mudança linguística de fato. Parece-me mais um idioleto (maneira como cada usuário de uma língua se comunica; seu modo próprio de falar)”, explica Roberta.


Segundo ela, o uso do “busyssimo", estando o falante em situação de imersão, ou seja, em outro país, ouvindo, falando em outra língua, é comum a apropriação de palavras do idioma correspondente, mas utilizando as estruturas gramaticais da língua materna.