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Você faz o que gosta em Londres?

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Por: Márcio Rodrigo Delgado


Twitter: @marcio_delgado


Quem chega ao Reino Unido, não raramente, já vem sabendo que não vai ser fácil fazer algo que se gosta. Pelo menos não no início.


Todos conhecem as histórias de pessoas com graduação no Brasil que, ao chegar em Londres, precisam recomeçar ‘de baixo’, em empregos que não são, nem de longe, o sonho do brasileiro em busca de uma vida melhor: lavar pratos em cozinhas apertadas de restaurantes, arrumar camas de hotéis com turnos que começam de madrugada e fazer fazer faxina, entre outros trabalhos para principiantes na terra da Rainha Elizabeth II com salários que variam entre £6 e £15 libras.


Pode até não ser fácil. Mas alguns brasileiros mais perseverantes não deixam que a língua ou nacionalidade sejam uma desculpa para fazer o que se gosta mesmo morando longe do seu país. Nem que para isso, em alguns casos, seja preciso conciliar qualquer trabalho para financiar um sonho bem guardado.


‘Todos os meus amigos em Londres que trabalham ou trabalhavam na área de catering têm curso superior nos países de onde eles vêm (não somente do Brasil). O maior desafio no Reino Unido é se tornar quem você é e quem você sempre quis ser, sem se deixar abalar pelo fato de que o trabalho que você está fazendo no momento não é o trabalho dos seus sonhos. Lidar com isso e aceitar numa boa, para mim, não tem sido muito fácil’, confessa o gaúcho Clodie Vasli, 36 anos, que após morar sete anos em Londres, trocou a capital do país por Nottinghan, uma cidade bem menor no interior da Inglaterra, onde trabalha como supervisor em um café e faz traduções.


‘Acho que é importante não abandonarmos nossos interesses e sonhos e não deixarmos de fazer o que gostamos só porque estamos, temporariamente, trabalhando em algo que não é o que tínhamos almejado. Recentemente, com o dinheiro que recebo trabalhando como supervisor num café, pude financiar minha ida ao Brasil para fazer o lançamento de meu novo livro (Apagando um cigarro atrás do outro) em duas capitais: Recife e Porto Alegre. Então acho que é fundamental você não abandonar seus projetos pessoais, objetivos e os seus sonhos. Quando você deixa seu sonho de lado, você acaba - de certa forma - morrendo. Se não morre de uma vez só, morre aos poucos (o que é bem pior)’, defende Vasli.


 


Sandra Porto:  tem mais tempo para fazer o que gosta em Londres do que tinha no Brasil Sandra Porto: tem mais tempo para fazer o que gosta em Londres do que tinha no Brasil


Para a gerente de relações Públicas em moda, Sandra Porto, natural do Mato Grosso, o maior desafio de se morar em cidades como Londres é manter um nivel de vida adequada em termos financeiros.  Mas o custo alto ela acredita compensar por conseguir se envolver em atividades para as quais não sobrava tempo quando morava no Brasil.


‘Tenho uma vida muito gratificante hoje em dia. Trabalho na minha área, pratico danças de salão,  sou voluntária para organizações como a ‘Crisis’ e ajudo como mediadora de grupos multi-religiosos nos cursos Alpha.  Gosto da minha vida e procuro sempre manter o equilíbrio. Procurava fazer o mesmo no Brasil mas meu trabalho na época não permitia muito tempo livre, o que aqui, mesmo em épocas de grande demanda, ainda consigo manter esse equilíbrio’, compara Sandra.


 


Camile Arndt: retorno a Londres após 10 anos e blog de moda  | Foto: Fernando B. Arroteia Camile Arndt: retorno a Londres após 10 anos e blog de moda | Foto: Fernando B. Arroteia


A agente de viagens Camile Arndt, de Santa Catarina, retornou para Londres em 2013 e no momento trabalha com turismo, a sua segunda paixão, enquanto se aperfeiçoa para a primeira: moda.


‘10 anos atrás vim a Londres com minha irmã fazer um intercâmbio.  Minha estadia aqui era para ser de um ano. Mas por diversos motivos seis meses mais tarde, em Dezembro de 2004, já estava de volta ao Brasil. Porém a verdade é que depois que se mora fora, ainda mais na Inglaterra, o coração fica
dividido. Eu sentia que tinha algo inacabado por aqui. Passei 10 anos me perguntando se devia voltar ou não e o amor à terra da rainha falou mais alto’, relembra Camile que é formada em moda e criou o blog O Vestido da Rainha como uma forma de continuar em contato com o Brasil e com a língua portuguesa.


 


Simone Bello: Londres como inspiração e fotografia em tempo integral Simone Bello: Londres como inspiração e fotografia em tempo integral


Natural de Londrina/PR a fotógrafa Simone Bello trabalha no ramo há sete anos e montou seu próprio estúdio em Londres:


‘A cidade é a minha casa.  Vinda de uma parte do Brasil onde só existe verão e inverno, é muito bom ter o privilégio de ver de perto o colorido da primavera, o verão com pessoas alegres nos parques ingleses .... tudo isso inspira e me faz refletir a vida’, analisa Simone que trabalha em tempo integral nos seus projetos e sessões fotográficas.


 


O paulista Natan Heber, de 40 anos, tem ainda mais sorte quando o assunto é fazer o que gosta no Reino Unido:


‘Meu trabalho já é o meu hobby. Pintar em Londres, além de me dar a oportunidade de me expressar ainda me proporciona a chance expor e viver da minha arte. Eu era professor no Brasil e tinha minha própria escola de arte.  Em Londres tive que recomeçar e por um período trabalhei limpando pianos na Royal London Academy of Music. Com o dinheiro que ganhava eu comprava materiais de arte para continuar fazendo o que gosto e sempre com um pensamento no futuro. Não via meu trabalho na limpeza como algo ruim porque tinha um objetivo. Depois fui trabalhar como designer gráfico e cheguei a tocar música brasileira em bares e restaurantes de Londres. hoje dou aulas em estúdios focados em desenho e ilustração’, comemora Heber que está preparando a sua próxima exposição.


 


Além das oportunidades profissionais e de se fazer o que se gosta no Reino Unido, os brasileiros que trocaram o clima tropical pelo frio inglês não se limitam ao trabalho.


‘Jamais esquecerei o dia em que fui convidada para participar de uma reunião no Reform Club - um clube fechado para membros que existe desde 1841 e cujos membros incluem personalidades muito influentes da politica e vida social e foi retratado, por exemplo, em A Volta ao Mundo em 80 Dias. Quero evoluir profissionalmente e explorar novos desafios. Londres oferece inúmeras possibilidades’. Explica Sandra Porto.


 


Vasli: com o dinheiro que recebo trabalhando como supervisor num café, pude financiar minha ida ao Brasil para fazer o lançamento de meu novo livro Vasli: com o dinheiro que recebo trabalhando como supervisor num café, pude financiar minha ida ao Brasil para fazer o lançamento de meu novo livro


‘Continuo escrevendo porque é o que sempre quis fazer. Sempre escrevi. Minhas experiências morando em Londres, por exemplo, renderam as crônicas e contos que publiquei no Brazilian News, entre 2009 e 2011. Escrevi muitas crônicas sobre a vida de quem mora fora do Brasil por um tempo. Reuni todos estes textos que eu já havia publicado no jornal e na extinta revista REAL, organizei uma coletânea e assim nasceu o meu primeiro livro, chamado De Passagem’, finaliza Clodie Vasli.