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Mas por que raios eu decidi andar 800km em um mês?

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1 Caminhando

Paula Freitas
@SeeYouSoonMom
www.SeeYouSoonMom.com


 


Sabe aquela sensação de que as coisas não estão fazendo sentido? Nos últimos meses tenho me perguntado a mesma coisa: por que eu faço __________ (insira sua opção aqui)? E pode ser qualquer coisa, como porque eu estou vivendo em Londres, porque eu trabalho nesse lugar etc. Claro que existem as explicações óbvias: preciso de dinheiro para pagar as contas, viajar, air com os amigos… Mas o que pega mesmo é: eu estou feliz com as escolhas que faço?


Sempre fui uma pessoa de criar teorias. E uma delas é a de que todo mundo tem uma “bússola interna”, uma espécie de GPS que te diz o quão perto ou quão longe você está de si mesmo, da sua essência, daquilo que te faz você.


Você se lembra da última vez que se sentiu viva, realmente entusiasmada sobre algo? Eu realmente fiquei preocupada quando percebi que não consegui responder muito bem essa pergunta. Okay, eu gosto de várias coisas mas eu não me lembro quando foi a última vez que eu acordei cedo pensando “Caraca! Eu vou fazer ______ (insira sua paixão aqui)”. E foi assim que eu percebi que estava na hora de calibrar essa bússola.


Andar com fé eu vou


Os Caminhos de Santiago têm várias rotas e nada mais são do que uma peregrinação cristã que leva à tumba de Tiago Maior, um dos primeiros apóstolos de Jesus. Segundo a lenda, depois da sua morte por decapitação na Judéia, o corpo e a cabeça do apóstolo foram transportados para a Galícia pelos seus discípulos Teodoro e Atanásio. Eles depositaram os restos mortais de Santiago num local do monte Libredón, onde hoje está a Catedral de Santiago de Compostela.


No início, e estamos falando de século 9 e guaraná com rolha, eram a peregrinação mais popular do mundo (agora já não são mais) - e eu cá tenho comigo que a principal motivação na época era conseguir a indulgência plena: quem completasse a peregrinação teria a total absolvição dos pecados. Elevador direto para o Paraíso. Nos anos 80, os Caminhos se tornaram tão populares que na década seguinte receberam o titulo de Patrimônio da Humanidade.


Sabe o que você encontra no Caminho de Santiago?


Três coisas que têm seu “peso” em ouro hoje em dia: tempo, isolamento e silêncio. Talvez seja por isso que a caminhada tenha sido escolhida como penitência. Já imaginou o que se passa pela cabeça de uma pessoa em que a única função é caminhar? Internet vai existir só nos albergues. E boa sorte se você acredita que o sinal do 3G vai ser bom o suficiente para você mandar fotos para a sua família pelo WhatsApp. Você pode até levar um MP3 player para te distrair por um tempo, mas creio que depois de 2-3 dias ouvindo as mesmas músicas por 6-8 horas a paciência se esgota e lá está você consigo mesma novamente. Não há escapatória.


E a rotina?


A rotina de quem faz o Caminho é bem simples: acordar em um albergue que provavelmente não foi reservado com antecedência, tomar café da manhã, pôr a mochila nas costas, andar até o horário do almoço, comer, descansar um pouco, pôr a mochila nas costas novamente, andar até o próximo albergue, tomar banho, comer, dormir e repetir no dia seguinte. Você adiciona lavar roupa em alguns dias. Isso é o que eu chamo viver perigosamente!


Eu acredito que tempo, isolamento e silêncio são os elementos principais de qualquer revolução interna. Se a gente olhar para a história, vários personagens importantes tiveram esse momento de introspecção como definidor de rotas. Ou, em um português mais claro: ou vai ou racha. É por isso que decidi que vou me dar de presente um pouco mais de um mês para estar comigo mesma, ouvindo e prestando atenção aos meus pensamentos e sentimentos. Vou tirar um mês para me “passar a limpo” e, se Deus quiser e as bolhas do pé deixarem descobrir qual é a peça do quebra-cabeças que está faltando.


Como estou indo sozinha, decidi que vou fazer o Caminho Francês, que é o mais tradicional e com melhor infraestrutura. Serão mais ou menos 800 quilômetros saindo de San Jean Pied de Port, nos Pirineus Franceses até Santiago de Compostela. Vou cruzar montanhas, planícies e enfrentar chuva e barro. Vou enfrentar meu medo de solidão, meu medo de não conseguir, o meu medo de dor física e, após enfrentar tanta coisa, espero que alcance o que fui buscar. Vai depender de mim única e exclusivamente.


Pois bem, por que fazer a caminhada e qual o Caminho a percorrer já estão definidos. A próxima etapa é descobrir que diacho eu coloco numa mochila que literalmente vai ser o mundo que eu carrego nas costas. Te conto quanto descobrir!


Se você tiver alguma pergunta ou comentário, pode me escrever no paula@seeyousoonmom.com. Até a próxima semana!


 


*Paula Freitas é jornalista, vlogueira e autora do blog de viagens See You Soon, Mom! (www.seeyousoonmom.com). Ama o MacGyver, ri das próprias piadas e tem problemas em manter-se séria em elevadores cheios de gente.