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Partidas e chegadas: vivendo entre 2 corações

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Roberta Weber Calabró
roberta@stepstofly.com


 


Já parti diversas vezes de vários lugares. Já cheguei outras tantas vezes, a tantos outros lugares. Às vezes, nem precisei me mover. Um livro, um filme, uma carta ou um telefonema despertam isso na gente. Mas a partida e a chegada ao qual me refiro aqui é aquela que sentimos quando decidimos ter uma experiência de vida no exterior, longe dos nossos países de origem. E quanto mais tempo fora, maior o número de partidas e chegadas. Nossas e das pessoas ao nosso redor.


A partida começa antes do momento de voar. Quando bate aquele nervosismo de pensar mudar de vida e arriscar algo novo, sair da zona de conforto. A preparação dos documentos, a economia de dinheiro. De decidir qual roupa colocar na mala e do “até breve” aos amigos e aos familiares. A chegada é aquela porta para o novo mundo, um caminho a ser desbravado. Uns decidem viver no exterior por 1 mês, outros por 10 anos. E todos lembram exatamente da primeira partida e da primeira chegada. Medo x Expectativa.


Mas se engana quem sonha em morar no exterior e acha que a primeira partida e a primeira chegada no novo país são as mais marcantes. Marcantes são as partidas e chegadas desse vai e vem de pensamentos diários. Acordar em um dia com a alegria e a plena certeza de saber que fez a decisão correta. E no outro, com a tristeza e a dúvida de apenas desejar um abraço confortante da família e não ter direito a isso.


Aquela obra de arte do Van Gogh que você viu na National Gallery e que passou a vida toda acompanhando dos livros de escola. Aquela saudade apertada, no meio da tarde, porque sentiu o perfume de alguém que você não vê há muito tempo. Aquele passeio em um domingo, que faz de você a pessoa mais feliz do mundo ao descobrir que tem uma corrida no Hyde Park, um show imperdível no Southbank e uma Guerra de Travesseiros na Trafalgar Square, tudo no mesmo dia. Aqueles corpos balançando e aquela voz ecoando no teatro ao ver o musical Cats e a alegria que transborda em você depois de conseguir aquele trabalho novo na sua área. Sair na rua sem medo de ser “abordado”.


A partida repentina de “alguém querido” (certamente o maior medo das pessoas que decidem viver por aqui) ou a chegada do casamento da sua melhor amiga, que você não poderá comparecer porque não tem férias ou não conseguiu juntar o dinheiro suficiente para a visita.


Como ficar longe da família com este tempo que passa voando? Como perder o crescimento dos sobrinhos e sobrinhas que crescem rapidamente? Ou suportar essa falta de luz e as chuvas, se precisamos de sol? Como deixar de lado essa cidade tão multicultural e cheia de opções? Como aceitar as pessoas fechadas em seus mundos se o nosso mundo se abriu tanto? Por que ter que aceitar a violência se aprendemos a conviver em segurança?


O segredo é: ou você “desapega” um pouco do seu país ou você volta para ele. Em Londres, nós vivemos entre partidas e chegadas. Nós vivemos entre 2 corações.


 


*Roberta é gaúcha de Caxias do Sul. É apaixonada por palavras e viagens. Deixou o Brasil em 2010 e já viveu na Itália e Espanha, antes de chegar em Londres, em janeiro de 2013. Trabalha como gerente de Comunicação da Cortisso Accommodation Services e é co-fundadora da empresa Steps to Fly, que inspira e prepara pessoas para morar no exterior. Trabalha ainda na comunicação da empresa Experiência de Sucesso, representante oficial da Success Resources no Brasil, líder mundial em seminários de desenvolvimento pessoal e palestras motivacionais.