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Quando o sonho se torna realidade...

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Após trabalhar como dançarino, no NHS e até no parlamento britânico, brasileiro abrirá ateliê para confecção de vestidos de noivas depois de 24 anos vivendo em Londres


 


Márcio Ceccarelli
editor@braziliannews.uk.com


 


Correr atrás do sonho. Essa certamente é uma das qualidades do alagoano Luiz ‘Lula’ Filho. O designer, especializado em vestidos para noivas, seguiu uma longa trajetória na terra da rainha até realizar seu sonho. Trabalho não faltou, ou melhor, não falta. A abertura oficial do ateliê acontecerá no próximo dia dois de março. Antes mesmo de abrir as portas oficialmente, o brasileiro já comemora as primeiras clientes. “Estou fazendo o vestido de uma queniana que vai casar em junho em Mombasa e ainda há mais um pedido já formalizado”, garante.


Segundo ele, seu grande diferencial será, além de fazer vestidos sob medida, a possibilidade das noivas devolverem o vestido e pegarem parte do dinheiro investido. “Cerca de 20 ou 30 por cento, dependendo das condições que o vestido chegar pra mim”.


O motivo, segundo ele, é simples. “Na maioria das vezes as  mulheres casam e não tem o que fazer com o vestido. Vendem na internet, às vezes jogam numa caixa dentro do armário e deixam lá pra sempre”. A situação pode ainda ajudar outras moças que sonham com o matrimônio.


“Com o passar do tempo, aquelas noivas que não quiserem gastar muito vão ter um portfólio de vestidos que eu posso alugar, e com o diferencial de conseguir moldar, reparar, pra qualquer pessoa”.


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Longa jornada


Autodidata, Luiz começou a confeccionar suas próprias roupas ainda quando criança, com doze anos, em Maceió. Os primeiros passos foram dados ao ingressar no Complexo Cultural Teatro Deodoro de Maceió. Quando abriram incrições para a abertura de um grupo de dança, ele foi fazer o teste e passou, completamente escondido de sua minha família.


“Eu falava que ia fazer ginástica. Só uma irmã que sabia de tudo, Léa, que cuidava das minhas roupas. Fiz ballet uns oito anos escondido. E eu que fazia as minhas roupas. Como não tinha dinheiro pra comprar, pegava tecido barato e fazia em casa quando não tinha ninguém”, conta.


O gosto por arte sempre foi marcante. Contudo, segundo ele, o mais próximo que poderia encontrar àquela altura em Maceió era o curso de arquitetura, recriminado pela família. “Falaram que eu tinha que fazer algo ‘decente’, então fiz economia”.


Após a universidade, uma amiga fez a trajetória do alagoano mudar da água para o vinho. Finalmente ele poderia trabalhar com o que gostava. Carina Padilha o convidou para trabalhar em Londres, no Bar Madrid. A moça havia montado uma companhia de dança e precisava de bailarinos na capital inglesa. “Ela mandou uma carta dizendo que estava indo para o Brasil me buscar. Eu achei que fosse piada”.


Após mais de dez anos dançando e confeccionando os materiais para o grupo, ele deixou o estabelecimento e foi trabalhar com o que havia se formado no Brasil, economia.


“Mesmo tendo os meus empregos, Parlamento, NHS, eu sempre trabalhava com moda paralelamente. Sempre fazia uma coisa aqui ou ali. Depois que eu deixei o Parlamento, coloquei na cabeça que faria o que eu gosto. Fui de férias para o Brasil e falei: esse é o momento”.


 


Início na faculdade


Aplicou então para cinco universidades através do UCAS e lhe foram oferecidas três. Luiz escolheu a Universidade of East London. “Com 23 anos de vida em Londres e eu posso dizer categoricamente que foram os quatro melhores. Claro que os melhores ainda estão por vir, mas até agora foram esses. Fazer o que a gente gosta não tem preço. Por isso que eu tenho muita fé no que eu vou fazer agora.


 


Veja mais da entrevista com o designer brasileiro:


 


Primeiro projeto inusitado surgiu na faculdade


No momento eu estou já fazendo um vestido de noiva para uma moça queniana. Ela quer que a saia esteja em sete cores, com vários babados e as cores do arco-íris. Essa pessoa assitiu o meu desfile no Graduation Fashion Week e ela disse, ‘é o tipo de roupa que eu gosto. Quando eu for casar eu quero que você faça o meu vestido’. Eu ainda brinquei falando, ‘tá aqui o meu cartão’. E do nada a mulher me ligou (risos).


 


Graduation Fashion Week


O Graduation Fashion Week é um evento que o British Fashion Council, juntamente com todas as universidades de Londres, faz pra lançar os novos designers no mercado. As universidades escolhem os melhores alunos. Na minha turma tinha 70 alunos e acho que só dez participaram. Quem vai pro evento pode colocar no currículo. Se você conseguiu ser selecionado é porque você tem coisa boa pra mostrar.


 


Fim da universidade e montagem do ateliê


Quando acabou a faculdade eu fiquei meio em dúvida: vou trabalhar pra alguém ou vou montar o meu próprio negócio? Trabalhar pra alguém seria interessante porque eu não precisaria investir dinheiro algum. Em compensação, meu nome nunca iria aparecer. Mas o problema que eu encontrava para abrir o meu próprio negócio era grana. Eu coloquei na ponta do lápis e era muito dinheiro. Em Londres tudo é muito caro. Pra alugar qualquer salinha é um absurdo. Mas eu quebrei meus cofrinhos e deu mais ou menos metade do que eu precisava.


 


Amizade e compras


Um amigo falou que eu não podia jogar meu talento fora e emprestou a segunda parte do investimento. Resultado, a essa altura do campeonato (faltando poucas semanas para a inauguração) já estou com 80% das coisas compradas, com firma registrada, contador contratado. O maquinário, móveis, mesas, etc. Tudo material próprio. Se for contar desde o início da papelada, foram quatro meses de planejamento até tudo ficar pronto.


 


Previsão de vestidos e mercado


Visitei Business Advisors, fui na universidade consultar meus professores. Quando você se forma tem um leque muito grande de opções entre moda masculina e moda feminina. Você tem que se firmar em um. Não dá pra atirar para todos os lados, você tem que focar em um e ser o melhor naquilo. O que eu gosto e sei fazer são os vestidos. E em uma das conversas com meus professores surgiu esse tema, noivas. Fiz pesquisa de área e realmente é um bom mercado. Eu vou tentar atacar muito a comunidade sul-americana. Brasileiras e sul-americana de modo geral.


 


O porque do mercado sul-americano


Por vários motivos. Primeiro: é a comunidade que eu conheço, é a minha cultura e eu tenho um certo conhecimento do que a mulher brasileira gosta de vestir. E posso filtrar essa espontaneidade da gente para uma coisa mais fina, um vestido mais elegante. Não tem em Londres ainda um designer especializado em noivas brasileiras que tenha um ateliê fazendo o que eu vou fazer. Pelo que eu pesquisei, serei o primeiro.