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Valores humanos no contexto da Segunda Guerra  

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Entregar telegramas nos Estados Unidos no período da Segunda Guerra Mundial não era uma atividade tão simples. Certa noite, Homero, estafeta da agência telegráfica de Ítaca, na Califórnia, precisou entregar uma missiva do Ministério da Guerra para uma certa Rosa Sandoval, migrante mexicana que sequer lia em inglês. Por isso, o estafeta precisou descrever o conteúdo da missiva. E testemunhou a melancólica reação daquela mãe a qual, naquele momento, tomou conhecimento da morte do filho.


 


Homero Macauley é o protagonista do romance A comédia humana (1942), considerada a obra-prima do escritor norte americano William Saroyan (1908 -1981).


 


O estafeta de Ítaca possuía apenas 14 anos. Mas, com a morte do pai e o irmão mais velho, Marcus, servindo ao Exército norte-americano na Grande Guerra, acabou tornando-se o que muitos chamam de “homem da casa”. Por isso, não podia prescindir do trabalho, embora ainda lhe faltassem dois anos para que pudesse legalmente exercer o ofício na agência telegráfica.


 


Em uma sociedade marcada pela ausência dos jovens, arrebatados para os campos de batalha, a “volta para casa”, ou ao menos o desejo de tornar ao lar, é um tema caro, não por acaso bastante explorado na obra. Ulisses o caçula dos Macauley, portador da curiosidade típica das crianças de 4 anos, ainda aguarda a volta do finado pai, com a mesma ansiedade com a qual espera o irmão Homero retornar do trabalho às noites. A vizinha Mary, junta-se à Sra. Macauley a espera de que Marcus volte da guerra. Nos limites do municio de Ítaca, um dístico, parece também aguardá-lo, ao anunciar “Ítaca, Califórnia. Leste, Oeste – o lar é melhor”.


 


A saudade de casa também pesava sobre os ombros dos jovens soldados americanos de passagem pela cidade. E, através das mãos de Willie Grogan, telegrafista da agência local, os forasteiros transmitiam mensagens de promessas e lembranças. No contexto da guerra, a paisagem urbana, mesmo no interior da Califórnia, era rasgada por aeroplanos e caminhões abarrotados de soldados do Exército.


 


A escrita espontânea de Saroyan revela memórias de sua própria juventude. Assim como Homero – a criatura –, a vida do jovem William – o criador – não foi fácil. Órfão de pai aos dois anos, perdeu a mãe antes de chegar aos 10. Viveu em um orfanato com os irmãos e, aos 12 anos, também foi estafeta em uma agência telegráfica. Nos livros, se falta sorte aos personagens, o mesmo não se pode dizer dos valores humanos, uma marca inexorável da obra deste californiano de origem armênia.


 


Querido por milhares de leitores em todo o mundo, nos Estados Unidos, inspirou a criação da William Saroyan Society, sediada em Fresno, Califórnia, cidade onde nasceu e morreu. A entidade, sem fins lucrativos, dedica-se a promoção do trabalho literário do escritor. Além de romances, como A comédia humana, Saroyan escreveu ainda peças de teatro, dentre as quais, O tempo de sua vida, de 1939, agraciada com o prêmio Pulitzer.


 


Por Tiago Eloy Zaidan


 


Livro: A comédia humana
Autor: William Saroyan