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Corrida pela Presidência da República começa com Dilma Rousseff sob alerta

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Por: Matheus Pichonelli


 


A pesquisa Datafolha sobre a sucessão presidencial, divulgada na semana passada, mostra, à primeira vista, o pior dos mundos para a campanha de Dilma Rousseff à reeleição. Se há pouco mais de um ano, antes das revoltas de junho, todos os sinais apontavam uma largada com margem de distância no mínimo segura para a petista, hoje as sirenes de alerta estão (ou deveriam estar) acionadas. Embora líder na pesquisa, Dilma inicia a campanha praticamente empatada com os adversários no primeiro turno, e esta não é a pior notícia do levantamento. Se a disputa for para o segundo turno, a chance de derrota, até então não captada pelas pesquisas, torna-se real: antes mesmo de subir ao palanque, Aécio Neves, seu principal adversário, aparece empatado, dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais, com a petista: 44% contra 40%.


 


Antes favorita, Dilma começa assim a campanha sem gordura para queimar e com índices recordes de rejeição (35%) para um candidato à reeleição nesta altura da disputa. A aversão chega ao topo a depender da fatia do eleitorado. Em São Paulo, por exemplo, a presidenta perderia tanto para o rival tucano como para Eduardo Campos (PSB) em um eventual segundo turno.


 


E nada indica que o palanque no maior colégio eleitoral do País terá estaca forte: o candidato petista, Alexandre Padilha, ainda não decolou, e a distância para Geraldo Alckmin é tanta que o governador pode deixar sua campanha no piloto automático para ajudar a cavar a trincheira do colega mineiro em sua base. (As alianças e as fragilidades dos palanques nos Estados valem um comentário à parte).


 


Diz a cautela, no entanto, que não se deve desenhar qualquer conclusão sobre qualquer disputa antes da campanha na TV, quando o jogo começa de fato. É ali que Dilma Rousseff tem o grande trunfo até aqui. A coligação de seu partido, o PT, com PMDB, PDT, PC do B, PP, PR, PSD, PROS e PRB garante a ela 11 minutos e 48 segundos de exposição na propaganda, quase o dobro da soma dos rivais: 4 minutos e 31 segundos de Aécio Neves, que tem como principal aliado o desidratado DEM, e 1 minuto e 49 segundos de Eduardo Campos, que reúne em seu entorno um partido que oficialmente não existe, a Rede, além de um combalido PPS e outras siglas nanicas.


 


Mas ao menos um alerta deve ter ficado da campanha de 2010. Mesmo com tempo enxuto de exposição, Marina Silva, hoje candidata a vice de Eduardo Campos, provocou um estrago nas pretensões petistas naquele ano. Os 20 milhões de votos conquistados pela então candidata do PV empurraram a disputa para o segundo turno e mostraram que só TV não ganha jogo. Ajuda (e muito), mas não ganha. Esses votos, se mantidos ou ampliados, são hoje a maior ameaça ao equilíbrio de forças entre PT e PSDB das últimas cinco campanhas.


 


Em julho de 2010, o “fenômeno” Marina Silva ainda não havia sido captado pelos institutos de pesquisa, e o maior desafio do estafe petista era tornar o rosto de sua candidata conhecido do grande público. Na época, Dilma e José Serra estavam tecnicamente empatados (39% e 38% das intenções de voto, respectivamente), mas a petista tinha ainda um espaço largo para crescer. Ela despontou como favorita a partir da campanha na TV, quando o eleitor passou a associar seu nome ao do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que entregava o cargo com índices recordes de popularidade. Hoje a situação é outra. Lula é ainda o maior cabo eleitoral da disputa, mas a popularidade já não reside no Planalto.


 


Quando a campanha de TV começar, Dilma já não será o rosto desconhecido a ser associado ao presidente em exercício. Será a presidenta em exercício, conhecida por 99% dos eleitores, com todo tempo do mundo, ao menos para os padrões eleitorais, para defender o próprio rosto. Como fará isso não se sabe, mas as pistas estão lançadas. Não é mero acaso, por exemplo, que nos últimos dias você leu mais sobre o ex-presidente Lula do que sobre a candidata à reeleição. Escaldado pelas vaias no jogo de abertura da Copa, os índices de rejeição apontados na pesquisa, o sentimento de mudança despontado nas ruas e as figas do mercado financeiro pelo naufrágio de Dilma (reparem que a pesquisa é lançada agora durante a semana, a tempo de observar a reação da Bolsa no dia seguinte, e ela sobe, catapultada pelas ações das estatais, à medida que a chance de reeleição diminui), o estafe petista preserva a candidata oficial enquanto Lula faz as vezes de ponta-de-lança.


 


A estratégia parece clara: rebater as acusações sobre corrupção e má gestão com recordações do histórico de escândalos e erros dos adversários. Daí as bombas lançadas em direção a Fernando Henrique Cardoso, as referências ao “engavetador-geral da República”, à suspeita de compra de votos do governo tucano e à atual crise no sistema de abastecimento de água de São Paulo, ponto mais frágil dos tucanos em seu próprio quintal.


 


Como em 2010, mas em funções dessa vez distintas, Lula e a TV serão as duas principais cartas da campanha petista. Como em 2010, no entanto, podem não ser suficiente para garantir a vitória no primeiro turno – o que em 2014, ao que tudo indica, pode ser fatal.