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Fazendo cinema em Londres

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Photo Director

“O meu objetivo é tentar reportar imagens e histórias da minha experiência enquanto brasileira, enquanto estrangeira vivendo no mundo que seria o mundo desenvolvido. E tentar fazer o máximo da minha oportunidade como porta-voz de uma história, como alguém que vai ter uma audiência, que seja minúscula, de trazer uma mensagem que fale da minha experiência de país subdesenvolvido, de país ex-colônia, de país que carregou 300 anos de escravidão, de país de desigualdade social, de país de extrema carência, de país de corrupção. Mas também país de um talento inenarrável, de uma riqueza natural absoluta e de uma diversidade cultural que por mais que eu viaje na europa eu não encontro igual em país nenhum”.


 


A frase é de Bruna Capozzoli, escritora e diretora de cinema que acaba de terminar seu mestrado na Goldsmith University of London, na capital britânica. Ao final do curso, Bruna desenvolveu o curta-metragem “Mamo”, terceiro dos projetos desenvolvidos, sendo que o que mais consumiu tempo, segundo ela. De primeira versão do roteiro até a primeira exibição foram oito meses de trabalho. O roteiro foi escrito pela própria paulistana.


 


O filme conta a história de uma mulher africana por volta dos seus 60 anos, que trabalha como atendente num banheiro de um restaurante em Londres. Esta é Mamo, personagem principal da trama. Ao mesmo tempo que administra sua trabalhando no banheiro, ela tem que cuidar da neta, filha de seu filho que está preso. “A questão é falar da exclução social, e as oportunidades reais de mudança de vida”, afirma Bruna.


 


Ela afirma que a cena retratada em seu filme foi a recriação da realidade que se vê em Londres. “Uma vez eu estava num bar e eu fui ao banheiro e quando eu entrei tinha uma mulher africana cantando uma música da África, sentada, só esperando para receber algumas moedas em troca de lavar as suas mãos. Aquilo pra mim ficou muito forte como um resquício da escravidão que, embora as pessoas neguem, eu acho que ainda é muito vivo na sociedade. Então eu decidi falar de como o racismo e a escravidão ainda estão institucionalizada na sociedade contemporânea”.


 


Tanto no Brasil como na Europa, Bruna imagina que os problemas raciais acontecem da mesma forma. “Quando eu apresentei o filme pela primeira vez (em Londres) eu fui muito criticada de que eu estava falando de um assunto que não existia mais. Mas eu acho que existe uma negação e uma dificuldade em olhar ao redor e aceitar que muitas posições de serviência são ocupadas majoritariamente por negros, ao mesmo tempo em que posições de liderança são majoritariamente ocupadas por brancos na Europa e no Brasil. Reconhecer esta lamentável estruturação social é sem dúvidas o primeiro passo para transformá-la”.


Confira algumas imagens do 'Mamo' (fotos: Emiliano Capozoli):



 


Diferença das produções entre EUA, Brasil e na Europa
Traçando uma comparação entre o cinema americano, europeu e brasileiro, a roteirista e diretora vê a produção americana com domínio e entendimento absoluto do cinema como indústria. “Porque é uma arte que a gente sempre está falando em milhões quando falamos em longa-metragens. Eles são extremamente competentes no que fazem. Você acredita perfeitamente em todas as performances, não importa que filme seja, pode ser ‘American Pie’, ou pode ser ‘12 anos de escravidão’”, garante.


 


Já o cinema europeu mostra uma preocupação em questionar a audiência, em refletir o que está sendo exibido. “O cinema europeu abre mais espaço pra você se projetar enquanto audiência, e projetar as suas experiências pessoais e reflexões”.


 


Enquanto isso, o cinema brasileiro mostra experiência nos dois ramos. “Eu diria que a Globo representa, de um certo modo, mas com recursos muito limitados, com o cinema hollywoodano. Você vai no cinema no domingo com a sua família e você esquece da sua vida, que é muito conectada com a função da novela”.


 


Segundo ela, existe também um cinema alternativo atuante. “Tem gente por trás que tem energia e contatos e profissionais hoje que no Brasil estão se especializando na captação de recursos, se especializando na lei Rouanet, na lei de incentivo ao audiovisual, que vão correr atrás desse dinheiro e vão tentar projetos alternativos se realizarem, que tem grande repercussão em festivais, mas que não chegam ao cinema. Morrem nos festivais de cinema e entre os cinéfilos e se espalham pra internet”, lamenta.


 


Captação de recursos no Brasil e a censura
A forma com que o cinema é lidado no Brasil também incomoda Bruna. Hoje no Brasil, tentativas de captação de recursos através das leis de incentivo requerem aprovação da Ancine (Agência Nacional do Cinema), que é um órgão governamental. “Ao meu ver, isso se chama censura”, critica. “Da consiência de dirigir e escrever, eu me senti muito limitada enquanto pessoa que tenta fazer projeto no Brasil. Para você ter direito à lei Rouanet ou qualquer outro tipo de recurso você precisa ter aprovação da Ancine antes, e isso sempre me incomodou profundamente”.


 


Cinema no Reino Unido
Esse ano foi um ano muito significativo pra indústria britânica, segundo Bruna. Em 2014, 12 Anos de Escravidão, do diretor britânico Steve McQueen ganhou o Oscar de melhor filme, enquanto ‘Gravidade’, cuja produção ocorreu no Reino Unido, levantou sete estatuetas. “Eu sou muito grata de poder ter visto ‘12 anos de escravidão’ no Bafta, ao lado do diretor, três meses antes de ele ser lançado no cinema. Eu sou muito fã do Steve McQueen porque ele é um diretor negro, que fez a mesma universidade que eu fiz, e que tem a mesma inquietude de abordar questões sociais em todos os trabalhos dele”.


 


Sobre cinema o cinema nacional, Bruna imagina que o filme ‘Central do Brasil’ foi a melhor produção que o país fez até hoje. Infelizmente, o filme concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1999, ao lado do italiano ‘A vida é Bela’. Azar dos brasileiros. “Existe anos em que as pessoas fazem coisas maravilhosas e não importa o que você faça que você vai perder”, lamentou.


 


Países vizinhos do Brasil, com população e economias muito inferiores e com produções cinematográficas de alto nível também a incomoda. Exemplos como Peru e Argentina são destacados. “Eu ainda vejo o Brasil, infelizmente, muito limitado pela cultura da Rede Globo, uma audiência que foi criada na cultura da novela e que não desperta interesse por produções um pouco mais intelectualmente envolventes, se é que eu posso falar desse jeito. Os filmes alternativos não tem audiência, não tem plateia, não sã rentáveis. E o cinema, no final do dia, é um negócio”. A solução, porém, pode ter o caminho encontrado através dos festivais. “Os festivais, felizmente, dão espaço de discussão e abertura para novos cineastas, novos trabalho. Isso eu acho a grande virtude dos festivais”.


 


O início (turbulento) no cinema
Aos 15 anos, Bruna já era atriz profissional, após se formar em um curso técnico no Teatro Escola Macuinaíma, em São Paulo. Graduada em artes cênicas pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Bruna fez um curso livre de cinema e decidiu escrever e dirigir seu próprio filme. O primeiro curta, ‘Luz’, custou 15 mil reais e foi lançado em 2010. A primeira projeção foi feita no festival Mix Brasil de cinema da diversidade sexual. A partir de então o filme foi selecionado em vários festivais no Brasil e na Europa. Este foi o filme que abriu as portas para a carreira de Bruna.


 


Mas o trajeto não foi fácil como se parece. O filme faz uma afirmação com relação a visão da igreja católica dos homossexuais. O tema, segundo Bruna, bloqueou até mesmo o apoio de instituições que defendem os direitos dos homossexuais, transgêneros, lésbicas e gays. “O filme foi feito com dinheiro de pessoas que acreditavam no projeto. E eu nunca consegui um real de pessoas que defendem os direitos dos homossexuais”, lamenta.


 


Para que pudesse fazer o projeto virar realidade, além de juntar dinheiro e vender alguns pertences, Bruna contou com pessoas que considera especiais. “Encontrei uma atriz, que trabalha com produção, que viu roteiro e se apaixonou”. A pessoa em questão é Carol Hubner. “Ela financiou pessoalmente. A gente dividiu os gastos. Eu paguei metade com meu dinheiro pessoal e ela pagou metade com o dinheiro dela”. A empresária Salete Eboni, apresentada por Carol, ofereceu toda a parte de catering do filme, além de toda a comida da festa de lançamento.


 


Nessa parceria também houve uma pessoa especial, o diretor de fotografia Henrique Ventorin, que hoje está fazendo cinema na Argentina. “Ele entrou com todo o equipamento, toda a concepção de fotografia e me entendeu profundamente como diretora”. “Foi um roteiro que foi muito abençoado e todas as pessoas que acreditam que de fato exista alguma violência contra o ser humano por questões de orientação sexual entraram e doaram seu trabalho, que não tem preço”.