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Golpe Militar completa 50 anos

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O Brasil completou no último dia 31 de março 50 anos do golpe militar de 1964, que fez com que o país passasse por 21 anos sob regime de ditadura. Um pouco antes, no entanto, no dia 13 de março, o então presidente João Goulart fazia comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, para anunciar as reformas de base que enviaria, em seguida, ao Congresso. Reformas que previam mudanças profundas no país, a começar pela reforma agrária, com desapropriação de latifúndios com mais de 500 hectares, e a encampação de refinarias de petróleo privadas.


 


O filho de Jango, João Vicente Goulart, que na época tinha 7 anos de idade, afirmou à Agência Brasil que atualmente o país se encontra nas mesmas condições, 50 anos depois. “Precisamos reformar o Estado para que possamos avançar nas áreas social, econômica e política. Tenho esperança de que, após 50 anos, as novas gerações possam, inspiradas nas raízes de nossa história, avançar e modificar o modelo social, econômico e político do país”, disse ele.


 


O então vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), o advogado Marcelo Cerqueira lembrou que também esteve no comício da Central do Brasil, ao lado de Jango. “O Brasil perdeu uma oportunidade enorme, que era fazer as reformas de Jango. Depois, o golpe militar, com apoio americano e da direita brasileira, levou à retirada de Jango, um grande brasileiro, que se sacrificou pelo país. Perdemos a chance de sermos desenvolvidos. Perdemos 21 anos”, disse Cerqueira, que atualmente faz parte da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro.


 


As reformas de base de Jango previam as reformas bancária, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária. Sustentava também a necessidade de estender o direito de voto aos analfabetos e às patentes subalternas das Forças Armadas, como marinheiros e sargentos. Previa, ainda, intervenção mais ampla do Estado na vida econômica do país e maior controle dos investimentos estrangeiros, mediante regulamentação das remessas para o exterior pelas multinacionais. Os partidos de direita e setores conservadores da sociedade argumentaram que Jango queria implantar o comunismo no país, e o depuseram no dia 1º de abril de 1964.


 


Carta aos Estados Unidos


Carta enviada pelo presidente do Senado Federal do Brasil, Renan Calheiros (PMDB-AL), ao presidente do Senado dos Estados Unidos, Joe Biden, é a mais recente tentativa do Estado brasileiro de ter acesso a documentos da Central de Inteligência Americana (CIA) sobre os anos que antecederam o golpe militar de 1964. Pela Constituição americana, o vice-presidente dos Estados Unidos acumula o cargo com o exercício da função de presidente do Senado.


 


Na carta, Renan Calheiros se baseia no “longo histórico de relações bilaterais” entre o Brasil e os Estados Unidos para solicitar a liberação de documentos sigilosos relativos às violações de direitos humanos e liberdades democráticas ocorridas no Brasil entre os anos de 1964 e 1988. O presidente do Senado brasileiro pede ainda Biden que colabore “no sentido de apoiar a luta pelos direitos humanos no Brasil e o resgate histórico de um período nebuloso de supressão das liberdades democráticas em nosso país”.


 


Calheiros diz ainda que, “a despeito do retorno à normalidade democrática no Brasil, ainda restam muitos episódios referentes ao golpe de 1964 que precisam ser esclarecidos, vítimas a serem reconhecidas e danos a serem reparados”. Para isso, ele considera essencial a colaboração das instituições norte-americanas no sentido de facilitar o acesso a dados e informações que possam ter sob seu controle a respeito desse período.


 


Além disso, Renan comunica ao presidente do Senado americano que uma comissão de senadores brasileiros será designada para ir aos Estados Unidos tratar do assunto pessoalmente com representantes do Congresso americano.


 


A carta foi motivada por um pedido direto do filho do ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe. João Vicente Goulart procurou os representantes da Comissão de Direitos Humanos do Senado, após anos tentando, junto com outros membros da família, ter acesso a documentos cuja classificação de sigilo já deveria ter sido retirada nos Estados Unidos.


 


“Os Estados Unidos têm vários arquivos . Embora tenha uma lei que permita o acesso a alguns documentos com 25 anos, outros com 50 anos, a gente precisa saber onde os documentos estão. Eles fazem isso justamente para dificultar e nós acreditamos que com o pedido de Estado para Estado fique muito mais fácil”, explicou.


 


João Vicente Goulart está convicto de que os documentos em poder do Estado norte-americano vão conter fatos ainda desconhecidos sobre a história brasileira. Segundo ele, é importante o envolvimento de toda a sociedade brasileira no sentido de pressionar para ter acesso a essas informações. “Acho que principalmente sobre o golpe nós vamos ter muitas informações novas. Até hoje quando eles fazem a desclassificação ainda aparecem tarjas pretas que não permitem a leitura de determinados trechos dos documentos”, diz.


 


Mostra em Brasília


O Congresso Nacional recebe a exposição Onde a Esperança se Refugiou, para lembrar de 366 presos políticos desaparecidos e das práticas de tortura, assassinato e exílio ocorridas ao longo dos 20 anos de exceção. A exposição começa com a entrada em uma câmara escura, gradeada, onde se tem a impressão de estar em uma cela. A partir daí, o visitante é levado a caminhar por instalações divididas em cinco eixos que tratam do contexto político brasileiro e latino-americano, da ditadura militar no Brasil, das vítimas, do Movimento Justiça e Direitos Humanos, da transição política no Cone Sul para a redemocratização e das políticas de memória.


 


No caminho, é possível ver vídeos com depoimentos de ex-presos políticos. Numa das instalações, o visitante é levado a colocar o rosto em um recorte na parede para enxergar melhor as fotos dos desaparecidos do período ditatorial. Na parede oposta, um espelho faz com que se veja o próprio rosto entre as fotos. Em outro trecho da exposição, um telefone comum das décadas de 1970 e 1980 pode ser acessado por quem passa para ouvir histórias de pessoas exiladas contadas em cartas enviadas ao Movimento de Justiça e Direitos Humanos por parentes e vítimas das ditaduras da América Latina. A exposição está montada no Salão Negro do Congresso Nacional em Brasília até dia 13 de abril. (Com Agência Brasil)