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Um filme brasileiro de 140 milhões de dólares

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José Padilha durante as gravações do filme_Page16e17

Por Kamilla Fernandes


Editora do Culturart.co.uk


 


Nas mãos do cineasta José Padilha e 17 anos depois do seu lançamento original, um novo RoboCop ocupa as telonas. O clássico de ficção científica da década de 1980 - dirigido por Paul Verhoeven - volta com o objetivo de alcançar recordes de vendas como fez a sua versão original, mas desta vez, dirigido por um brasileiro. O filme teve seu lançamento mundial no dia 12 de fevereiro e gira em torno de um personagem que já é familiar a todos: o policial Alex Murphy, que depois de um acidente é transformado em um cyborg pela empresa de tecnologia Omni Corp e passa a defender a decadente e corrupta cidade de Detroit.


Com algumas diferenças e adaptações no roteiro, o remake de Padilha mantém o fio do condutor da trama, mas logo nos primeiros minutos de filme toda a visão política e social do diretor vem à tona, e a sua forma tão particular de retratar a violência fica evidente, principalmente para os brasileiros que conhecem tão bem a realidade de “Tropa de Elite”.



Filme brasileiro


Quando perguntado sobre se considera o seu remake de RoboCop um filme brasileiro ou norte-americano, José Padilha sorri ao dizer que ele é “um filme brasileiro de 140 milhões de dólares”. O diretor conta que já havia trabalhado fora do país antes, no documentário “Segredos da Tribo”, que foi filmado na Venezuela e nos Estados Unidos. Mas revela que não existe tanta diferença em se filmar fora do Brasil, já que no fundo, “um set de filmagem é um set de filmagem.”


 


“Se você consegue isolar o set das outras coisas extracampo, é a mesma lógica, a mesma maneira de pensar. Você tem as mesmas lentes, os mesmos equipamentos e você tem que trabalhar com os atores e com a história que você tem”, diz Padilha.


 


Para ele, a grande diferença é quando se trata dos recursos financeiros, que por sua vez também impactam na relação do cineasta com o estúdio e os interesses comerciais relativos a qualquer produção cinematográfica. Padilha diz que concorda que cinema “tem mesmo que dar lucro”, mas que isso pode muitas vezes gerar uma tensão entre o filme que você quer fazer o filme que o estúdio quer vender.


 


“A diferença maior é que no Brasil os filmes são independentes, para bem e para mal. Para bem porque você tem controle total do que você está fazendo. Você escreve, produz, dirige, e até lança até se você quiser. Para mal é que é muito difícil financiar um filme e nem sempre você tem os recursos que você precisa para fazer o que você quer”, conta o diretor.


 


Mas em RoboCop, Padilha disse que não teve grandes problemas com o estúdio, já que assim como nos dois “Tropas de Elite”, ele tinha como objetivo fazer com que o longa atingisse o maior público possível, porém sem perder o comentário social dentro do filme. Desta forma, ele estava atendendo as expectativas da MGM, mas mesmo assim houveram debates já que esta “é uma relação que tende a ser conflituosa”, conta.


 


Além de Padilha, a equipe contou com outros brasileiros na equipe já conhecidos do público, principalmente por seus trabalhos nos dois “Tropas de Elite”. São eles Lula Carvalho, que foi o diretor de fotografia, Daniel Nascimento, como um dos montadores, e Pedro Bromfman, que atuou como compositor do filme.



Automatização da violência


Sua grande vantagem com este filme, segundo o próprio Padilha, é que o RoboCop já não é o personagem convencional dos filmes de super-heróis norte-americanos. E realmente, o filme passou longe de um blockbuster de super-herói ou de um filme puro de ação, com um roteiro dramático e cheio de discussões pertinentes sobre imperialismo e violência.


 


Segundo Padilha, um filme normal de super-heróis se segue sempre a premissa de usar um ator carismático e fazer cenas bacanas de ação para que todos queiram assistir, já que no fim das contas, eles vão querer ser o herói. Já com RoboCop a história é bem diferente.


“Você quer ser o Homem-Aranha, as crianças querem ser o Homem de Ferro. O RoboCop não, nem o Alex Murphy quer. Ninguém quer ser o Robocop, é um drama ser ele. Então a própria natureza do personagem já faz o filme ficar diferente para o estúdio.”, conta.


 


O fato de discutir a mecanização e automatização da violência torna o policial robô um personagem político por definição, por isso o diretor disse que se não acabasse fazendo um filme político, o resultado seria muito ruim. E além de tratar da violência, a relação imperialista norte-americana em relação aos outros países também é colocada em questão.


 


Padilha ameniza um pouco a crítica feita no filme, dizendo que este nacionalismo ufanista que vemos nos norte-americanos existe também no Brasil e em outros países, mas assume que devido ao seu grande poder, as decisões que os EUA tomarem no futuro, quando a realidade dos cyborgs estiver mais próxima, vão ser determinantes para o resto do mundo.


 


“Os EUA tem um grande poder, é uma nação poderosa que vez ou outra invade outros países e tudo mais, o que o Brasil por exemplo não faz. O que os EUA faz e como faz, em termos de política internacional é muito importante e relevante. E essa questão do uso de drones e da automatização do exército e substituição dos soldados por máquinas, quando acontecer, o maior impacto vai depender do que os EUA vai fazer, não tem como escapar disso.”, diz o cineasta.



RoboCop vs. Capitão Nascimento


Padilha vê Tropa de Elite e RoboCop como filmes muito diferentes, mas é impossível assistir ao filme sem fazer relações entre as duas histórias. O que ele cita que existe em comum entre os dois é a questão do treinamento dos policiais, já que é neste momento, quando o estado requer de profissionais que façam uso da violência extrema, que ele passa a “desumanizar as pessoas e tirar delas a capacidade de pensar criticamente sobre o que elas vão fazer.” Mas ele diz que isso não é algo nada exclusivo dos seus filmes, e cita como exemplo “Nascido Para Matar”, que retrata esta mesma situação.


 


“Desumanizar é mecanizar, é transformar em máquina. Então essa ideia que tem lá no primeiro “Tropa de Elite”, em que o Nascimento fala ‘Se você pensa que o BOPE é uma seita, é isso mesmo é uma seita’. Uma seita no sentido de que uma vez que você compra aquilo, você não pensa mais sobre aquilo”, diz Padilha.


 


E para ele existe um grande perigo em se mecanizar a violência já que as máquinas não criticam o que estão fazendo e apenas agem: “Isso abre a porta para o facismo, que é o conceito do personagem RoboCop, e ele tá embutido no Tropa de Elite de alguma maneira.”


 


Mas apesar destas semelhanças, ele insiste que os protagonistas são muito diferentes um do outro. Enquanto RoboCop é um personagem universal de ficção científica que faz uma metáfora a desumanização ou não das forças da lei, o Nascimento é um personagem carioca, pressionado por forças sociais que coloca seus valores em cheque por causa de todo o contexto em que está inserido.



Construção do remake


A ideia do filme surgiu em uma reunião de Padilha com a MGM, na qual o estúdio propôs a ele vários filmes que ele não ficou interessado em fazer. “Mas atrás dos executivos tinha um pôster do RoboCop, e eu ficava olhando para o pôster e pensando ‘esse eu quero fazer’”, diz. Então no final da reunião ele questionou os executivos sobre os direitos do RoboCop e como Darren Aronofsky havia abandonado o projeto do remake há anos, ele explicou qual era a sua ideia para o longa.


 


“Dois dias depois o meu agente me ligou e disse ‘Não sei o que você arrumou lá, mas eles querem fazer o Robocop’.” E apesar de trabalhar com o remake de um filme tão aclamado e com tantos fãs, Padilha que não sentiu pressão nenhuma em relação a isso.


 


O começo do roteiro foi desenvolvido no Brasil, mas o restante do processo que levou no total sete meses, aconteceu nos Estados Unidos. Padilha conta que o roteiro só ficou pronto dias semanas depois do começo do ensaio com os atores, já que muita coisa foi adaptada depois disso.


 


“O primeiro ator a ser selecionado foi o Joel . A gente fez várias audições com vários atores, e ele foi incrível. Porque o nosso RoboCop tem um drama existencial muito grande. Ele acorda e descobre que é um robô, e depois quer morrer, ele não sabe como ele vai se relacionar com as pessoas. O personagem tem um arco dramático muito grande, e para isso você precisa de um grande ator, não basta ser uma estrela”, diz Padilha.


 


Ele continua contando que em seguida foi diretamente atrás de Gary Oldman para o Dr. Norton, e em seguida vieram Samuel L. Jackson e Michael Keaton. Para a esposa de Alex Murphy, muitas atrizes fizeram testes e Abbie Cornish foi escolhida. Mas o mais difícil para Padilha foi encontrar o ator para o papel de David Murphy, o filho de RoboCop: “É muito difícil encontrar uma criança que seja tão sutil quanto ele . A gente achou ele no último dia, durante os ensaios.”



De volta ao Brasil?


Sobre seus próximos projetos Padilha contou que tem uma série de planos no Brasil, como um roteiro sobre Rickson Gracie, um sobre a Tríplice Fronteira, um sobre o mensalão e um documentário sobre os desaparecidos no Rio de Janeiro que ele ainda está pesquisando: “A cada ano desaparecem 5 mil pessoas no Rio de Janeiro, é muita gente, como é que é isso? Isso é erro de estatística? Isso é verdade?”


 


Além disso, o Netflix está preparando para estrear ainda este ano uma série de 13 episódios chamada Narco e dirigida por Padilha. A série vai contar a história do chefe do carte colombiano de Medélin, Pablo Escobar, que se tornou um dos homens mais ricos do mundo devido ao tráfico de cocaína.