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Arte em movimento em cartaz na Christies

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Márcio Rodrigo Delgado


 


Na semana passada, a Christies, uma das maiores casas de leilões de Londres localizada no elegante bairro de Mayfair, abriu oficialmente a exposição ‘Turn me on’, reunindo trabalhos da arte cinética dos anos 40 até 1979. Explorando efeitos visuais por meio de movimentos, este tipo de arte plástica está sutilmente ligado a infância, talvez por explorar a imaginação e a percepção humana – duas qualidades que as pessoas tendem a esquecer quando atingem a idade adulta para dar lugar a lógica do dia-a-dia.


 


Ainda bem que os idealizadores dos trabalhos expostos certamente não estavam preocupados com essa lógica durante o processo criativo. Em cartaz até abril e contando com mais de 60 peças, a exposição traz obras  assinadas por artistas da Europa e América Latina e que têm em comum o fato de  se moverem - algumas de forma quase imperceptível , outras em uma velocidade que produz novas imagens e efeitos visuais.


 


Esta é a primeira vez, desde 1970, que uma exposição deste tipo é realizada na capital inglesa e as obras expostas, cedidas por colecionadores, estão a venda para quem quiser levar um pedaço da história em movimento para casa.


 


“A América Latina e a Europa sempre estiveram muito ligadas no passado, com artistas vindo de diversos países para estudar na Europa. E o caminho inverso também: artistas europeus viajando para explorar a cultura latina”, explica Jacob Uecker, especialista em artes da Christies e um dos curadores da mostra.


 


“Tudo aconteceu relativamente rápido. O projeto foi iniciado no ano passado e a arte cinética vai além deste termo tão amplo de ‘arte que se movimenta’. A questão também é: como elas estão se movendo?  Há obras na mostra que são motorizadas. Outras apenas parecem se mover, mas na verdade, a imagem muda de acordo com a posição de quem está observando, uma pura ilusão ótica”, lembra Uecker.


 


Ocupando três andares da galeria, ‘Turn me On’ conta com um representante brasileiro, o artista plástico Abraham Palatnik, nascido em Natal, Rio Grande do Norte, em 1928. Descendente de uma família de judeus e russos, Palatinik mudou-se ainda criança para Israel, onde viria a estudar pintura, desenho, história da arte e estética no Instituto Municipal de Arte de Tel-Aviv. De volta ao Brasil, em 1950, o artista fixou residência no Rio de Janeiro e usando seus conhecimentos de mecânica e física, começou a desenvolver os seus primeiros trabalhos em solo brasileiro usando outra técnica também ainda pouco conhecida naquela época: a arte cinecromática, em que cores e formas ganham movimento com a ajuda da eletricidade. Um ano mais tarde, Abraham Palatnik acabaria ganhando uma menção honrosa  da I Bienal de São Paulo com esses trabalhos por não se enquadrar em nenhuma das categorias da premiação.


 


‘Alguns materiais simples usados naquela época como cordas, isopor, espelhos e poliéster, por exemplo, não eram comuns de serem incorporados a artes plásticas. O efeito ainda é relevante mesmo nos dias atuais’, acredita Jacob Uecker.


 


A exposição é um exemplo de como as grandes casas de leilões da Europa mudaram a sua tática na abordagem de compradores de arte.


 


Se antes as vendas eram feitas para um mercado privado e com eventos regados a canapés e champanhe - com pouco ou nenhum acesso aos meros mortais – hoje é mais difícil rotular quem pode e quem não pode adquirir um quadro ou peça que custe algumas centenas de libras. Essa mistura de classes tem tornado a arte mais democrática nas grandes capitais ao redor do mundo utilizando o mesmo formato: menos champanhe e acesso gratuito e qualquer pessoa que queira visitar.


 


Mas claro: compradores ricos continuam sendo muito bem-vindos.


 


Serviço:


‘Turn Me On’ – European and Latin American Kinetic Art – 1948 - 1979 está em cartaz em Londres até o dia 7 de abril.