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Uma década de vitória em Londres

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Perfil_Victoria Nabas

Ela tem personalidade. Fez o que ninguém fez, seja em Presidente Prudente, de onde saiu, no interior de São Paulo, ou no Reino Unido. Vitoria Nabas foi a única pessoa de sua família que deixou a cidade natal para fazer a vida na cidade grande. E foi além, muito além. Se formou em direito na USP (Universidade de São Paulo), considerada a que mais aprova advogados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de acordo com pesquisa divulgada em fevereiro pela FGV Projetos, responsável pelo exame da OAB, realizou o sonho de morar em Nova York e é a única latino-americana até hoje a ter aberto um escritório de advocacia inglês no Reino Unido.


 


“Não tem nenhuma outra pessoa que fez essa loucura até hoje”, brinca. “O que geralmente acontece são pessoas que vem para representar escritórios brasileiros. Eu nunca representei ninguém”, completa. De lá pra cá já se vão quase 10 anos. Em Novembro a Nabas Legal completa uma década de atendimento em Londres. Antes disso, no entanto, ela deixou um importante cargo em São Paulo para começar em uma nova empresa e realizar o sonho de morar na "Big apple". “Morei em Nova York durante dois anos e meio. Trabalhava como Sales Trader, que nada mais é que uma vendedora de ações na bolsa de valores. Experiência fantástica, em que eu aprendi pra caramba. E aprendi também que aquilo não era pra mim”.


 


Vitoria viveu então o primeiro atentado terrorista de sua vida, em 11 de setembro (viria a vivenciar, quatro anos depois, outro em Londres). Àquela altura, ela já fazia planos para retornar ao Brasil, pois o visto de trabalho que tinha estava por expirar. Vitoria retornou, então, por dois meses ao Brasil, onde fez algumas entrevistas de emprego. Foi aprovada para um cargo em um banco. Depois de uma semana, no entanto, foi informada que o banco voltara atrás na decisão de contratá-la. "Mas tem males que vem para bem", garante.


 


A ideia de vir para Londres então surgiu. O fato de possuir dupla cidadania facilitava seu acesso à terra da rainha. "E o meu namorado, hoje marido, conseguiu uma transferência no trabalho dele. Como o prédio dele também foi afetado quando o World Trade Centre caiu, (ele trabalhava num prédio na frente, o Deustch Bank), eles não tinham lugar pra trabalhar. O banco encontrou um prédio três horas distante de Nova York para os funcionários. Uma confusão. Aí tinha uma vaga disponível aqui em Londres e ele resolveu aplicar. Pra gente ia ser bom".


 


Já em Londres, ela começou a trabalhar em uma charity. E ficou por dois anos. "A responsável me perguntou se eu era advogada e me solicitou algo. Quando ela viu que eu sabia fazer, eu nunca mais tirei pó da prateleira. Isso durou literalmente um dia". Segundo ela, ali era o local ideal para ganhar experiência com direito britânico. "Trabalhei um pouco de graça, um pouco como empregada part time, só no final que eu trabalhei full time".


 


Quando finalmente conseguiu o registro inglês, Vitoria montou seu escritório. "Comecei sozinha em julho de 2004. Como se diz: Me, myself and I. Eu atendia o telefone, atendia o cliente, fazia o processo, ia ao banco, pagava o correio. Uma loucura".


 


Começo da empresa


O primeiro escritório ficava em Camden Town, lembra Vitoria. "Minha sala devia ter dois metros por um e meio. Tinha uma mesa, o computador, uma impressora e um telefone. E só. Eu fiquei lá de julho até outubro. Até que o espaço físico ficou impossível. O pessoal tinha que ficar esperando do lado de fora. Em quatro de novembro eu abri o escritório como empresa".


 


A Nabas Legal então se mudou pra Borough, e o volume de trabalho crescia em grande proporção. "Tinha dia que parecia fila do INSS, que dava medo de ir na recepção”, brinca. Tinha dia que eu não almoçava, tinha dia que eu não ia no banheiro. Tive problema de saúde por causa disso. Tive queda de pressão, porque não comia e passava mal.  De tanta gente que tinha pra atender".


 


Em 2006 mudou o escritório para London Bridge. À época, eram 12 funcionários. Atualmente, a equipe conta com 17 pessoas. "Fora os estagiários, que trabalham com a gente uma vez por semana pra aprender a profissão".


 


Atualmente, o escritório atende uma grande demanda de casos. "Nós temos uma equipe de pessoa física e uma de pessoa jurídica. Pessoas jurídicas são empresas britânicas investindo no Brasil e empresas brasileiras vindo para cá. Coisas absolutamente empresariais. E a outra equipe que só mexe com a comunidade", explica Vitoria.


 


Comunidade brasileira


Em dez anos a comunidade brasileira mudou bastante segundo Vitoria. "Na época que eu abri o escritório nós tínhamos muito mais clientes ilegais tentando se legalizar do que qualquer outra coisa. Diminuiu a quantidade de ilegais que a gente vê hoje em dia no mercado. Muita gente hoje está legalizada. No passado não existia essa preocupação. Como todos sabem que hoje está muito difícil viver aqui sem papel, sem documento, ninguém arrisca sair do Brasil sem documento". As dificuldades não param por ai, garante. "É muito díficil estudar aqui atualmente. O custo triplicou. Muita gente vem só estudar inglês. E você tem que fazer a prova no Brasil antes de sair".


 


A legislação, segundo ela, começou a mudar há sete anos. "Até 2007 qualquer um que entrasse com qualquer visto podia virar estudante. A economia estava bombando. Qualquer um entrava e conseguia emprego. Era tão absurdo que o governo precisava fazer alguma coisa para controlar a imigração. Tinha escola de inglês em toda esquina, tudo pra dar visto. Era muito fácil. A imigração era uma mãe e virou uma madrasta. Ela foi apertando. A partir de 2007 ninguém mais podia trocar de visto dentro do país, só no país de origem. Foram fechando, fechando, fechando e continuam fechando".


 


Atendimento gratuito de março a novembro


Para comemorar os dez anos da Nabas Kegal, a empresa vai oferecer atendimento gratuito ao público, quinzenalmente, aos sábados, de março a novembro, das 10h às 13h. De acordo com a advogada, o serviço será realizado em diversos pontos da cidade. Os locais serão divulgados pela própria empresa. "É literalmente uma coisa que a gente quer dar de volta pra comunidade. Tem um caso, ótimo, vamos resolver. Não tem, ótimo também, não gaste seu dinheiro".


 


Volta para o Brasil


Vitoria não se vê mais morando no Brasil. Com estabilidade no Reino Unido e constantemente visitando o Brasil, principalmente a trabalho, a advogada falou da saudade, mas se mostrou firme em permanecer na terra da rainha. "O que me liga ao Brasil hoje são as pessoas que eu tenho guardadas no coração. São pessoas, não o país. O Brasil continua no meu coração. Eu vou todo ano pra lá a trabalho. Eu leio notícias do Brasil todo o dia. A possibilidade de eu me desligar do Brasil é nula, mas a possibilidade de eu morar no Brasil é pequena".