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Brasileiras sofrem alto número de violência doméstica no Exterior

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Por Shirley Nunes


 


Há pouco mais de um ano tive a oportunidade de conhecer o trabalho fantástico de apoio à mulher brasileira, dentro da comunidade brasileira, aqui em Londres. Esse trabalho surgiu através de Marta Fernandes, 51 anos, brasileira, residente em Londres desde 1985 e responsável pela criação dos seus dois filhos, após se separar do marido. Marta é uma mulher tipicamente brasileira, guerreira, e que há três anos levanta a bandeira de apoiar à mulher brasileira no exterior sendo, nos últimos 30 anos, profissional das áreas de assistência psicossocial e psicológica. No Brasil, trabalhou com crianças moradores de rua e ajudou a fundar duas casas de abrigo. Antes da criação da AMBE (Apoio à Mulher Brasileira no Exterior), ela exerceu seu trabalho como voluntária na LAWRS (Latin American Women’s rights service) e foi ali que percebeu a necessidade da criação de uma organização direcionada a mulheres brasileiras que estão longe de seu país e que sofrem abusos físicos e psíquicos. Durante a entrevista, ela nos dá um ponto de vista interessante sobre o sistema britânico. “O sistema britânico da vara familiar precisa de uma reforma urgente, porque um sistema contradiz com outro”.


 


Shirley Nunes - Quando você percebeu que era um número alto de abusos com brasileiras?


Marta Fernandes - Em 2005 eu comecei a trabalhar com adolescentes grávidas. Trabalhei durante quatro anos e notei que havia ali muita violência doméstica entre as meninas e os parceiros, ali num hostel em Kensigton – Chelsea – e também tive quatro clientes que tinham sido traficadas, duas da China e duas da África, e comecei a me interessar por tráfico de pessoas. Então, eu comecei a fazer uma pesquisa sozinha para entender o que era e tal. Depois comecei a canalisar mais sobre a area sulamericana, e, particularmente, o Brasil. A partir deste momento notei que não existia uma estatística de mulheres brasileiras vítimas de tráfico de pessoas no Reino Unido. Dessa forma, me ofereci para trabalhar como voluntária na LAWRS, que, aliás, faz um trabalho maravilhoso com mulheres que sofrem violência doméstica. O trabalho com violência doméstica puxou o trabalho com tráfico de pessoas. O único problema que encontrei na LAWRS foi a falta de apoio às mulheres brasileiras, devido as diferenças culturais e linguísticas. Daí a necessidade de um trabalho diretamente com à mulher brasileira.


 


Shirley Nunes - Como foi o início do trabalho com AMBE?


Marta Fernandes - Foi com a chegada do embaixador Marcus de Vicenzi. Eu falei com ele sobre o  problema que existia aqui entre as mulheres, um número grande de casos de violência e tráfico sem qualquer apoio direto. Com o apoio dele, nasceu, em março de 2011, a AMBE (que trabalha com outras agências com amesma finalidade e presta serviço para com o Consulado Brasileiro). Hoje, o número de mulheres vítimas de violência está crescendo a cada mês, e os casos são hiper-complexos. Infelizmente, a demanda é mostruosa, principalmente, porque a violência doméstica em especial, é um crime que acontece entre quatro paredes.


 


Shirley Nunes – Quais são os casaos que mais ocorrem e suas ramificações?


Marta Fernandes - Vale salientar: a violência doméstica se define em física, emocional e psicológica, além da financeira e da sexual. É importante dizer que, muitas vezes, as crianças estão no meio dessa relação conflituosa entre o agressor e a agredida, o que torna tudo mais delicado. Fica tudo ainda mais complexo. Quando a mulher cria coragem para reverter a situação, ou quer retornar para o Brasil, enfrenta muitos problemas com a lei daqui de Londres. É necessário, contudo, que ela entenda como funciona todo o processo de imigração e saiba como lidar com a vara familiar (no caso da existência de crianças) e com a polícia.


 


Shirley Nunes - Esses casos acontecem mais entre casados ou solteiros, entre brasileiros ou outros povos?


Marta Fernandes - Depende muito e é difícil precisar. Há muitas pessoas casadas, por exemplo, que moram juntos e possuem dupla nacionalidade. Uma forma que o homem tem de controlar, independente da nacionalidade, é controle de visto, por meio de chantagens, enrolarndo a parceira/namorada. Tivemos um caso de uma brasileira com um inglês, casados há 12 anos, com dois filhos, e ela ainda não tinha o visto. E ele recusava fazer o passaporte das criança. É uma forma de controle, é uma arma porque se eles dão o visto para mulher, ela vai ter direito, ela vai ter onde recorrer. Sem visto, ela não tem direito de moradia, de benefício, advogado, a refúgio, a estudar, a nada. O homem que é controlador, não quer que a mulher trabalhe, isolando-a de amigos e familiares e cortando todo o acesso à comunicação e tecnologia.


 


Shirley Nunes - O homem agressor tem sempre o mesmo perfil de atitudes?


Marta Fernandes - Sim, parece que lêem a mesma cartilha. É impressionante. É isolar, tirar autoestima, amedontrar, ameaçar do tipo ‘você nunca mais vai ver seus filhos’, ‘vou te deportar para o Brasil’, ‘você é burra, você não fala inglês’,  ‘ninguém vai acreditar em você’, todas essas coisas. Isso é o básico da violência doméstica.


 


Shirley Nunes - Como a organização consegue se manter e atender a todas solicitações?


Marta Fernandes - A gente se mantem com muito sacrifício e, após um ano de criação, conseguimos um pequeno apoio do Consulado, que nos ajuda a “sobreviver” e fazer algumas ações. Porém, ainda não temos espaço físico e nem podemos contratar profissionais. Felizmente, temos muitos profissionais-voluntários.